Ricardo Barbieri estreia coluna no site CARNAVALESCO

Golpe do paco

Um trambique conhecido no rio era o chamado “golpe do paco”. Uma forma de ludibriar ingênuos que consistia em deixar cair um pacote (daí o nome de paco) de dinheiro que era percebido pela vítima e por uma testemunha que era cúmplice do golpista. O incauto era convencido a dar o que tivesse no bolso à testemunha-cúmplice a título de partilha e só depois percebia que o pacote continha algumas pequenas notas e o restante era jornal.

Mas, as coisas evoluíram. A tecnologia oferece informação e abre os olhos dos incautos. Ficou mais difícil para os malandros encontrarem bobos que se deixem levar. Só que a malandragem também evolui e outras formas de engodo são criadas diariamente. Como golpes telefônicos de falsos sequestros ou premiações formidáveis.

Coisa da antiga, também, é disputa de samba-enredo com dois finalistas. Que tinham suas qualidades. Eram finais eletrizantes e tão disputadas que alguns sambas derrotados ficavam na memória do povo.

Mas a modernidade chegou, tudo precisa evoluir. E diante desta necessidade de transformação, chegamos as modernas disputas de samba. Hoje em dia, finais com dois sambas é impensável. São 3, 4, 5 e, pasmem, até seis finalistas.

Claro que as disputas não têm um nível tão equilibrado assim. Claro que existe um obviamente campeão, não de véspera, mas de quinzena anterior. Pode até existir dois (tudo bem), três sambas em condições de vencer. Mas, o que dizer de finais com 4 ou cinco? Certamente estarão indo para final sambas que não ganharão de forma nenhuma. Certamente estes compositores estão sendo enganados e incentivados a crer que a grandiosa torcida e o elevado investimento em firulas lhes dá chance de vitória.

Participando de um concurso de samba-enredo, certa vez vivenciei um sorteio da ordem de apresentação, no qual o dirigente antes de sortear perguntava a cada compositor quantos camarotes iria comprar. Enquanto cada um não se comprometia com pelo menos um camarote, o sorteio não avançava.

Outra inovação é a mais recente formação de parcerias: sabemos que, dos cinco que assinam, apenas um ou dois fez o samba. A novidade é a figura do captador de investimentos. É assim: um dos integrantes passa a assinar o samba, mas não compõe, tampouco contribui com as despesas. É o cara que arregimenta os que vão gastar no samba.

Depois de tantos concursos, tanta vivência, será que um compositor não percebe as chances de seu samba? Será que não percebe as artimanhas para lhes extorquir ? Claro que sim. Mas fica o orgulho em ir para finais. É essa vaidade que os deixa vulneráveis.

Todo ano se reclama de injustiças, de armações, de esquemas. Mas todo ano os mesmos que se dizem injustiçados estão lá, dando sua contribuição e oferecendo sua bondade e generosidade para o espetáculo.

Felizmente para os saudosistas, é possível assistir a filmes, novelas, carnavais antigos pela internet. Infelizmente, porém, ainda existem os que caem no… Golpe do paco.

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