Ricardo Barbieri: ‘Histórias do samba’

 

 

Carnaval se aproximando, entre tantos eventos e ensaios técnicos, o clima está tenso. Os atrasos são frequentes e irritantes. Daí o cara sobe no palco, pega o microfone e num tom grave diz: – “Aviso pra comunidade que não vou aceitar desculpa para não chegar cedo no ensaio". – “Estou colocando aí na porta da escola cinco microondas. E os microondas vão levar vocês e deixar lá”.

Folclore? Verdade? São as histórias do samba…

Dessa vez o clima é de festa. Numa comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil, ele tenta mais uma vez discursar e sai com essa: – “Agradeço o convite e o recebimento. Garanto que vô está aqui com vocês novamente na próxima comemoração de outros quinhentos anos“.
 
O ritmo desse sambista é alucinante. Numa festa em homenagem à velha-guarda, tapete vermelho estendido, mestres de cerimônia recepcionando, o velho sambista e ex-presidente é instalado num camarote no segundo piso da quadra, como deve ser. Local de destaque, onde pode ser facilmente localizado para as homenagens. Em determinado momento, conversando descontraidamente com outro convidado, começa a cuspir lá embaixo. O amigo o alerta: – “Ô cara! Você tá cuspindo nas pessoas lá embaixo”. Tranquilamente, nosso herói olha para baixo e sentencia: – “Que nada, até chegar lá…  Já secou”.
 
Na concentração da Sapucaí a baiana estreante, ansiosa mas, já com a fantasia posta e a saia armada, vê passar o amigo e lhe pede: – “Amigo! Viu meus filhos lá na frente, na ala das crianças?” Após a confirmação, lhe pede: – “Faz favor, aqui embaixo de minha saia, tem um dinheirinho. Mas não dá pra eu pegar. Dá uma abaixada e pega pra pagar um lanchinho para eles…” Atencioso, se põe de quatro e sob a saia da baiana vai em busca do dinheirinho para o lanche das crianças. A câmera da TV registra tudo. Dia seguinte a manchete: “Tarado da Sapucaí flagrado sob saia da baiana”.
 
A escola precisava muito de dinheiro, e a ideia de fazer um bingo veio de um sambista antigo, com muita experiência que, reconhecidamente sabia lidar com estas situações. O dia foi marcado, a comunidade convocada, faltavam as prendas. Na busca de doações, amigos bem de vida foram assediados. Uns prometeram celulares, outros relógios, teve até a promessa de uma TV.

No dia do bingo, a quadra estava mais ou menos, um punhado de gente compareceu. As cartelas já estavam sendo vendidas. Porém, nenhum dos amigos patrocinadores apareceu com as prendas. O clima foi ficando agitado e nenhuma prenda para o bingo. Nosso herói, cheio das soluções teve uma "brilhante ideia". Pediu que os amigos ganhassem tempo com a galera enquanto ele ia em casa. Voltou com…um queijo de minas. E este foi o único e grande prêmio do bingo para quem enchesse a cartela.

Mas, outra infelicidade marcou o evento: "duas" pessoas completaram a cartela ao mesmo tempo.  A primeira solução (pedra maior) não foi aceita, depois de muita discussão e disputa lá vem nosso amigo da velha-guarda com a solução salomônica. E, assim, no bingo do queijo, cada um levou sua "metade" para casa.

Na disputa de samba-enredo, naquela parceria, cada um tinha uma atribuição: Um cuidava da torcida, outro dos cantores, outro das bandeirinhas e o último… dos "fogos". Pois bem, a parceria gastou muito com fogos, para uma pirotecnia inesquecível. No entanto, pouco antes da apresentação do samba de nossos heróis, uma outra parceria apresentou fogos também. E mais, foi uma queima incrível. Quase cinco minutos de luzes, cores e sons. Impressionante.

Depois disso, antes do samba se apresentar o responsável pelos fogos se aproximou dos parceiros e perguntou: – "Viu aí? Queima incrível né?" Com a concordância de todos ele sentenciou: – "Pois é. Teve um engano e o menino que eu coloquei pra acender nossos fogos errou. Esses aí eram nossos e explodiram na parceria errada". Quase mataram o coitado.
 
O fogueteiro teve mais uma chance. Em outra disputa ele decidiu ter a queima de fogos "nas mãos". Como a quadra era pequena e à céu aberto, ele resolveu colocar a "cangalha" de morteiros, num barranco próximo, no chão, no terreno contíguo ao ensaio. Dessa vez, acendeu certinho, no samba certo, na hora certa. Só que a "cangalha que estava apontada para o céu, na hora que começaram os disparos se deslocou e apontou os foguetes para a bateria da escola e os cantores. Foi um corre-corre danado, o samba foi cortado. E o fogueteiro foi aposentado.

Noutra disputa, noutra escola, mesma parceria. Elegeram outro responsável pelos fogos. Desta feita, uma queima modesta. Alguns morteiros apenas, soltos na mão.

Tudo certo, instruções dadas, o fogueteiro se colocou fora da quadra.  Na rua ao lado da mesma. Um auxiliar ficou encarregado de avisar quando o samba fosse "iniciar" para que o novo fogueteiro acendesse os morteiros consecutivos. E assim foi feito. Aviso dado, foram acesos e disparados um atrás do outro.  Na "afobação", outra bobeira e…  um rojão teve como destino um poste e o transformador atingido em cheio, desarmou.

Conclusão: a quadra ficou sem luz até a chegada da equipe de reparos da Cia elétrica. O samba caiu…
 
Cai a cortina.

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