Ricardo Barbieri: ‘O lucro da disputa de samba’

 

 

O samba não dá camisa a ninguém. Eu conheço pelo menos uns vinte campeões de samba-enredo, no Grupo Especial, que são pobres. Um ou outro chegou a comprar ou construir uma casinha humilde, comprar um carrinho popular.

É. Vencer concurso de samba-enredo não deixa ninguém rico. Chega nem perto disso. Paga umas contas aqui, faz uma graça e acabou. Isso se o camarada não gastou o que não podia durante o concurso. Se bobear, fica devendo.
 
Então, por que essa loucura em vencer um concurso de samba enredo? Pela glória. Para ser reconhecido, ganhar fama. E, depois, contar histórias. Dá pra contar história perdendo? Dá sim. Mas não dá para tirar onda, estufar o peito, se sentir superior.

Definitivamente, ninguém é “superior” a ninguém. Muito menos por ganhar um samba-enredo. Fora do pequeno mundo do carnaval ninguém conhece os autores até de sambas clássicos. É um reinado restrito. E sem dúvida não é a vida. Embora muitos apostem tudo nesse jogo.
 
É bom ser reconhecido por ter feito algo. Ser admirado, parabenizado, termômetros de alegria. Mas ouro, desça do seu trono. O samba poderia ser muito mais que festejar. Quantas pessoas mais poderiam ser recuperadas pelo samba se este esse soubesse de sua força? O samba pode ser educativo mas, poucos o veem dessa forma.

E, no entanto, quantos permitem que a ambição de vencer um concurso de samba-enredo no grupo especial, se torne tão grande que sufoca qualquer lapso de dignidade que tente brotar? Se tornam homens à venda.

Nossa sociedade está num desnível moral tão acentuado que conta com um exército de homens à venda. Um crescente número de gente disposta a entregar a honra (palavra em desuso) por um punhado de farelo.

Ouro desça do seu trono.

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