Ricardo Barbieri: ‘sobre jogos e jogadores’

 

 

Bisca é um tipo de carteado no qual o trunfo predomina sobre os outros naipes.   
 
Truco é um jogo onde participantes barulhentos jogam suas cartas mais fortes na mesa.
 
E carnaval, principalmente nos setores de interesse da televisão, é um evento repleto de pessoas vaidosas.
 
Existem pessoas que sobrevivem com o carnaval, outras que usam o carnaval como plataforma eleitoral, outras que usam escolas de samba e samba para obter validação social. No entanto, existem aqueles que não querem outra coisa senão serem admirados pela sua arte.
 
Pensar o carnaval de forma cartesiana e roborizar o desfilante deveria ser passível de excomunhão. O homem não é filhote de um trator com uma empilhadeira. O homem tem alma.
 
Se organizadores da festa a tratam como um grande negócio, se alguns diretores tratam os foliões como seres sem alma, que alinham lateral e longitudinalmente e atravessam a avenida apenas pelo bem da escola; eles subestimam a força do samba.
 
Infeliz da escola de samba que tem uma diretoria que só pensa nela mesma. Chega uma hora na qual é preciso colocar na balança e pesar as contribuições. Quais sacrifícios seus dirigentes fazem pelas comunidades que se sacrificam pelas escolas.
 
O que significa um bom desfile? Algo disciplinado ou algo que contagie, que transcenda o físico e que promova o encontro de almas?
 
O folião que abdica da alegria e se permite a imbecilização merece ter as emoções exorcizadas.
 
Descobrir como não entrar no jogo de quem conduz o carnaval de maneira sorrateira, como raposas que incendeiam a seara; eis um bom desafio para os amantes do carnaval.
 
Difícil. Pois até os apaixonados por carnaval e que recorrem a vídeos do passado para cultivar a paixão, temem criticar o gigantismo plástico dos desfiles, a axeizacao dos sambas-enredo proporcionados pelos escritórios, sua ganância e a obscuridade das gestões do samba.
 
É um tal de exaltar tudo. Elogios vazios, com frases feitas e a vulgaridade da bajulação explícita. Setenta por cento dos sambas deste ano eram muito ruins. Muito mesmo. Nem para a funcionalidade na avenida serviram.
 
Sobra para os jurados.  Esses se tornaram os grandes ímpios. Se pudessem, algumas pessoas os acoitariam, expulsariam do paraíso…  Tem gente que até amaldiçoa seus nomes e costuram na boca do sapo.
 
Coitados dos jurados. Estão lá, curtindo o desfile e repentinamente se deparam com aquela escola com nome de peso cometendo bobagens “técnicas” em seu desfile. O que fazer?  Deixar que o peso da mão caia sobre esse nome importante?
 
“Aliviar” é mais confortável. Não ter que escrever tantas justificativas e se indispor com tanta gente poderosa. Melhor deixar os críticos terem assunto depois do carnaval.  Afinal, crítico é pessoa ranzinza, de quem ninguém gosta e que tem poder limitado.
 
E assim vai. Jogando bisca ou truco, com boas biscas e truqueiros, vai dançando o carnaval no ritmo acelerado do samba.

Comente: