Ricardo Fernandes: confira entrevista exclusiva com o diretor de carnaval da campeã de 2012

 

 

Em 2010, os críticos disseram que foi o acaso, mas nos dois carnavais seguintes a Unidos da Tijuca provou que, gostem ou não do estilo, se firmou de vez no cenário atual do carnaval carioca como uma das principais postulantes ao título. A conquista de 2012 veio para ratificar a qualidade do trabalho comandado pelo presidente Fernando Horta, que tem no carnavalesco Paulo Barros e no diretor de carnaval Ricardo Fernandes, as principais bases de sua ótima administração.


Enquanto Paulo é o responsável pela criação e desenvolvimento do desfile, Ricardo Fernandes trata de, como ele próprio gosta de definir '' viabilizar os sonhos do artista''. O diretor de carnaval chegou na agremiação oriunda do morro do Borel em 2003 e ficou até 2004, ainda como diretor de harmonia, posto que hoje é ocupado pelo competente Fernando Costa – seu amigo pessoal. Saiu em 2005 para ajudar a levar a Porto da Pedra a uma sétima colocação, foi campeão em 2006 na Vila Isabel e obteve mais um sétimo lugar com o Candaces salgueirense no ano seguinte.


A volta à Unidos da Tijuca ocorreu em 2010, depois de mais dois carnavais na Unidos de Vila Isabel, e foi coroada com o segundo título da história da Azul e Amarelo. Agora, tricampeão do carnaval, bi com a Unidos da Tijuca, Ricardo Fernandes conversou com o site CARNAVALESCO sobre o desfile da escola e outros assuntos do mundo do carnaval.


A Unidos da Tijuca passou a disputar de fato os títulos há menos de dez anos, mas antes de vencer em 2010, sempre pecava em algum detalhe. Você acompanhou o início dessa mudança e voltou para ser campeão. Tinha essa visão?

Ricardo Fernandes: Em 2004 foi o carnaval da surpresa. As pessoas não esperavam que a Tijuca fosse fazer aquele carnaval, o carro do DNA foi um estrondo, a escola merecia ser campeã, tanto ela quanto a Beija-Flor, que foi a campeã. Numa competição, mais do que uma agremiação se credenciam para o título. Em 2012 também foi assim e se a conquista for para qualquer uma delas está de bom tamanho. Em 2005 também foi um carnaval maravilhoso e a escola não teve sucesso. Acho que a Tijuca já poderia ter sido campeã antes. Quando o Paulo Barros e eu retornamos houve a convergência de vários fatores para que a escola conquistasse dois títulos: bons enredos, bons sambas, definição artística muito bem detalhada pelo Paulo, quesitos muito bem defendidos tecnicamente… Se você for ver, todos os componentes responsáveis por defender quesitos na Unidos da Tijuca são top de linha, teriam vaga em qualquer agremiação do Grupo Especial. Alcançamos uma maturidade dentro de cada segmento que é muito interessante para o nosso sucesso.


Em meados do ano passado a escola teve problemas na justiça com a atriz Neusa Borges e teve que pagar uma indenização alta. Na época, chegou-se a especular que faltaria dinheiro para fazer esse carnaval. Houve isso?

Ricardo Fernandes: Tivemos muitas dificuldades para começar o carnaval, mas não teve uma agulha sequer pedida por mim que o presidente tenha negado. Era nossa obrigação que nada desse errado. Com os aportes financeiros conseguidos através da venda de shows e das parcerias feitas, nós engrenamos. O presidente não deixou que esse aperto no início atrapalhasse toda a produção do carnaval.


Outra informação que circulou no ano passado dava conta de que o Paulo Barros estaria insatisfeito com o enredo escolhido. Isso é verdade? Houve algum atrito entre ele e quem conseguiu o enredo para a escola?

Ricardo Fernandes: O Paulo só disse que estava fazendo um enredo que não era dele, que não era autoral, isso é natural em qualquer agremiação e para qualquer artista. Ás vezes, num momento inicial, ele pode não se sentir muito à vontade, mas não houve nenhum problema para que esse enredo fosse desenvolvido. Se houvesse algum conflito entre o Paulo e as pessoas da escola o carnaval não teria sido executado em sua plenitude. Não foi ninguém substituído nem afastado. A palavra conflito é muito forte, aqui não aconteceu isso. No carnaval, as pessoas ouvem um passarinho cantar, mas não entendem o canto desse passarinho.


Pelo terceiro ano seguido a comissão de frente consegue a pontuação máxima com um trabalho arrojado e ousado. Qual é o segredo para que a complexidade da concepção na atrapalhe o restante do desfile?

Ricardo Fernandes: O segredo é treinamento. Depois que a coreografia está pronta, acompanho todos os ensaios da comissão de frente. Não sou coreógrafo, não dou palpite em coreografia. O sucesso da comissão é mérito da Priscila e do Rodrigo. Eles fazem os ensaios pré-eliminares e depois nós vemos se precisamos mexer no andamento ou não. Este ano tivemos um deslocamento diferente do ano passado em nível de repetição de coreografia e isso é acertado entre nós. O investimento feito na comissão de frente precisa dar resultado na Avenida e acompanho todos os ensaios para dar o aparato que eles e o restante da escola necessitam.


É o quesito mais caro da Unidos da Tijuca hoje?

Ricardo Fernandes: Não dá para fazer essa comparação. Alegoria e fantasia somam um preço absurdo. Eu acho que nada é caro desde o momento que te dá o retorno esperado. O presidente se sensibiliza com isso. A relação custo-benefício é muito boa. É um dinheiro muito bem gasto, isso eu posso garantir.


Como se qualificar adequadamente para o cargo de diretor de carnaval?

Ricardo Fernandes: Aprendendo. Procuro aprender sempre. Pergunto, estudo, observo e tenho a humildade de reconhecer que, quando não conheço de determinado assunto, preciso aprender sobre ele. Estudar carnaval é se preparar e conhecer todos os quesitos, a deficiência de cada um. Tem muita gente que quer ter o cargo de diretor de carnaval, mas não sabe quais são as funções. É uma função muito complexa. É o grande intermediador do presidente com todos os níveis de produção da escola. Não se faz um diretor de carnaval de um dia para outro. Tenho que ter conhecimento de tudo, parte técnica, parte artística e tentar viabilizar a economia dentro do barracão. Do mecânico ao aderecista, eu sento, converso, troco ideia. Não vou sentar para montar uma fantasia nem soldar uma alegoria, mas posso chegar a uma conclusão conversando com cada um. Para se ter ideia, no ano passado, o Élcio(ferreiro da escola) e eu medimos, de madrugada, todas as pilastras da Av. Rodrigues Alves, porque tinhamos uma dúvida se um carro (alegoria da montanha dos Gorilas) saia ou não montado do barracão para a Avenida. Não sei se outras pessoas teriam essa preocupação. Tento viabilizar todos os sonhos do artista e tenho um carnavalesco que me facilita, pois entende a parte técnica do desfile.


E como fica a relação com a família? Dá para conciliar?

Ricardo Fernandes: Minha mulher brinca, diz que durante seis meses tem marido e nos outros seis meses não tem. Talvez seja o lado mais difícil para mim. A minha família é o sustento emocional para trabalhar no carnaval, então a ausência deles eu tento compensar de outras formas nesse período. Durmo no barracão. Nos últimos 12 dias para o carnaval, dormi dez no barracão. A minha sala vira o meu quarto. Graças a Deus a minha família entende perfeitamente, pois sabem que, além de ser algo que eu amo fazer, tiro o sustento para o conforto que posso dar a eles. Canalizo para eles tudo o que eu ganho aqui. Tenho uma heroína em casa, que é a minha esposa e me dá todas as condições para que o meu trabalho renda.


Concorda que os desfiles de 2010 e 2012 se diferem um pouco no estilo já criticado por muita gente e característico da escola?

Ricardo Fernandes: Não concordo muito quando alguém diz que determinada coisa é a cara da escola. Se for dessa forma a escola não vai se permitir ousar, fazer algo diferente. Pode ser diferente. Se não a diversidade artística some, até porque a parte técnica fica escondida. Ninguém perguntou, por exemplo, porque a escola fez um desfile em uma hora e 12 minutos. Talvez tenha sido o tempo mais baixo dos desfiles. São sete quesitos técnicos e três artísticos. O estilo do Paulo continua o mesmo, mas a temática era diferente, então o enredo puxou para uma concepção plástica diferente. Na minha opinião o conjunto de fantasias da Tijuca este ano foi o melhor dos últimos três anos na escola. Foram dois carnavais bem legais com pitadas diferentes.


Já que ninguém perguntou, porque os 72 minutos na Avenida?

Ricardo Fernandes: (Risos) A escola estava muito vestida, então quis dar um andamento que fizesse os componentes evoluírem sem amarrar muito o desfile. Conversei com a Priscila e o Rodrigo para ajustar o andamento da comissão de frente e ficou legal. Ia ser até mais rápido, mas não tinha necessidade.


Qual foi o principal diferencial para a conquista de 2012?

Ricardo Fernandes: A grande cartada foi a leitura que o Paulo deu ao enredo. Ele contou a historinha dele, saiu do lugar comum e mostrou tudo o que o Luiz Gonzaga cantou. Tudo o que ele cantou estava na viagem feita pelas realezas no sertão.


Como vê a atuação da imprensa no carnaval?

Ricardo Fernandes: A mídia tem um poder muito engraçado. A mentira de alguns vira verdade. Estamos aqui para tomar tapinhas nas costas, mas para ganhar porrada também, senão ficaríamos em casa, não colocaríamos a cara. Algumas pessoas, porém, precisam entender que por trás de cada quesito existem pessoas que precisam ser respeitadas. Vejo algumas críticas serem feitas sem um pingo de respeito. Não sou muito de reclamar disso, mas ás vezes sou obrigado a concordar com alguns colegas, qualquer coisa que você fale é deturpada. É lógico que com os veículos que respeito, o site CARNAVALESCO é um deles, assim como jornalistas como o Raphael Azevedo, do jornal O Dia, e a Simone Fernandes, do Tudo de Samba, eu não vou me privar de falar, mas já teve casos que o cara nem me escutou e inventou uma fala minha.


E o posicionamento do Marquinhos e da Giovanna no desfile de 2012. Eles externaram a vontade de mudar de lugar, talvez voltar para a frente da bateria após o desfile de 2011. Como essa questão foi resolvida?

Ricardo Fernandes: Na base da conversa. Falamos para eles que ali onde desfilaram poderia acontecer uma coisa legal sem ferir a dança, sem agredir a apresentação. Brilharam tanto quanto a comissão de frente este ano. É muito fácil ter uma posição e falar, mas as pessoas tem o direito de saber o porquê daquilo. Foi uma apresentação belíssima e eles conseguiram as quatro notas máximas.


Acha inviável colocar o casal na frente da bateria hoje?

Ricardo Fernandes: Acredito que dá para colocar, sempre foi feito isso, mas se você te algo melhor para a escola, não vejo motivo para arriscar algo diferente. Muda o número de paradas da escola e outras coisas. É algo que já conseguimos resolver aqui, deixa as outras se resolverem (risos). Tudo é calculado. Não tem chute. O Fernando Costa, eu e os meninos da comissão decidimos as paradas da escola.


O que acha quando criticam a maneira de trabalhar da comissão de frente da Unidos da Tijuca?

Ricardo Fernandes: O que a comissão de frente da Tijuca faz é tentar engrandecer o espetáculo, seja de que forma for. Se analisarmos, o carnaval cairá numa mesmice se todas as escolas se repetissem. Não quero dizer que a nossa forma de fazer carnaval deva ser copiada, muito pelo contrário, cada um que ache o seu caminho e se resolva da melhor maneira, tanto artística, quanto tecnicamente. Porque você não pode pegar uma ideia, carnavalizar e trazer para o espetáculo? Isso é feito com louvor. Todas as referências de esculturas são buscadas em livros, arquivos de imagens e isso não é criticado. Quando se faz um enredo que tem Grécia, a pessoa vai lá e busca aquela referência. Seria copia se colocássemos só o romeno com a molinha, sem nada. Foram feitas alegoria, coreografia, figurino e outras seis molinhas. Tudo isso foi treinado e pensado exaustivamente. Isso não é fácil. Vai que uma troca de roupas daquelas do ano do Segredo(2010) não fosse feita. Cada cabine era um suspense. Vai que a molinha cai, uma das sanfonas não abra. Além de original é criativo. Adaptar algo que vem de outro ambiente é criatividade também.
 

 

 

 

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