Ricardo Fernandes conversa com o CARNAVALESCO e analisa o Carnaval de 2014

 

 

O diretor de carnaval da Acadêmicos do Grande Rio, Ricardo Fernandes, recebeu a reportagem do CARNAVALESCO no barracão da Grande Rio na Cidade do Samba para uma entrevista exclusiva. O experiente dirigente abordou diversos temas com nossa equipe e criticou o julgamento da escola na folia de 2014. – A Grande Rio já entra na avenida penalizada pelo preconceito – reclamou. Ricardo abordou tópicos polêmicos, como o corpo de julgadores e eventuais mudanças no regulamento e no Manual do Julgador. Confira abaixo a entrevista:

Qual é a ánalise que você faz do resultado da Grande Rio no Carnaval 2014?

Ricardo Fernandes: Fizemos um grande desfile. A mídia especializada colocou como o melhor de domingo, mesmo a gente sendo a segunda a pisar na Marquês de Sapucaí. Na minha visão houve equívocos de julgamento, pois as nossas notas não refletiram o que apresentamos na avenida. Vamos aguardar as justificativas pra saber o que os jurados acharam, mas me parece claro que falta maturidade ao corpo de jurados para valorizar um desfile que seja o segundo de domingo. O julgamento claramente nos prejudicou.

Qual é a sua análise do resultado do carnaval como um todo?

Ricardo Fernandes: A Tijuca fez um desfile sem grandes erros, nada que pudesse comprometer o seu julgamento. Achei que o Império da Tijuca fez um grande carnaval. O julgamento teve a mão pesada para algumas escolas e nem tanto para outras. A Vila Isabel, por exemplo, teve falhas na execução de seu projeto de carnaval esse ano, com alegorias sem composição e várias fantasias incompletas. Não estou dizendo que a Vila foi mal julgada, mas a Grande Rio sim. Não podemos tirar a mesma nota em Conjunto. Alguns quesito vão para a avenida pré-julgados.

A Grande Rio perdeu 0,9 em Samba-Enredo. Por que a escola foi tão penalizada?

Ricardo Fernandes: Eu acredito que o quesito Samba-Enredo seja um desses que já vai pra avenida pré-julgado. Grande Rio, Beija-Flor e São Clemente tiveram seus sambas muito criticados pelos analistas e os julgadores já vêm com essa pré-disposição em tirar ponto. O julgamento não está cumprindo o que diz o Manual do Julgador, de se analisar o que acontece na avenida. Julgam pelo CD e pelo que dizem os especialistas. Está errado. Em harmonia eu tirei 10 em uma cabine e em outra 9,6. Não dá pra entender. A escola passou cantando forte em uma e se calou em outra? É inconcebível.

Você avalia que os julgadores avaliaram o quesito Samba-Enredo com correção?

Ricardo Fernandes: Acho que não. O samba já está indo pra avenida com preconceito. Essas enquetes de julgamento nos sites especializados está sendo nociva. Logo que o samba é escolhido já começam os avaliadores. Isso influencia o julgador, que não está avaliando o que passa na avenida. O samba da Grande Rio foi um dos que mais funcionou no desfile. Foi muito mal julgado.

A escola foi penalizada com a perda de 0,3 em enredo e 0,4 em Conjunto. A escolha do enredo sobre Maricá foi acertada?

Ricardo Fernandes: O enredo foi escolhido pela direção da escola antes da minha chegada. Se ao invés de colocarmos o título Maricá no enredo, criássemos uma cidade fictícia com as mesmas nuances, com as lendas que mostramos, que Charles Darwin esteve lá fazendo pesquisas e que uma das maiores cantoras brasileiras disse que só foi feliz ali, se fizéssemos isso sem citar uma cidade real, tenho certeza que tiraríamos quatro notas 10. O jurado julga o título do enredo e não o que vê na avenida. Joãsinho Trinta cansou de inventar enredos e todo mundo acreditava. Também existe um preconceito contra os chamados enredos CEP. Nosso enredo foi muito bem desenvolvido pelo carnavalesco e nossos pesquisadores, uma sacada muito inteligente deles.

Você mudaria algo no Manual do Julgador?

Ricardo Fernandes: Acho isso uma questão complexa, que deve ser conversada e resolvida internamente na Liga. Falta ainda uma certa maturidade para se assumir algumas coisas no carnaval. O julgador é passível de cometer erros, como todos nós. O que não pode é já ir para a avenida predisposto a penalizar determinada agremiação. Aí é complicado.

O curso aplicado pela Liesa aos julgadores é suficiente, na sua avaliação? Você mudaria algo?

Ricardo Fernandes: Eu creio que a conversa com o corpo de jurados deveria começar já a partir de setembro, bem mais cedo que atualmente. Seria necessário fazer uma sabatina mesmo com cada um deles. O valor pago aos julgadores na minha avaliação é baixo (algo em torno de R$ 3.300,00) pela carga de responsabilidade que cada um deles têm. Deveriam ter palestras efetivas sobre carnaval e não o que se faz hoje. Os julgadores poderiam participar mais do mundo do samba, frequentando barracões e quadras. Tudo com supervisão da Liga.

O julgamento do carnaval está equivocado na sua visão?

Ricardo Fernandes: Acredito que tudo na vida pode e deve ser melhorado. Esse ano foi atípico a meu ver. Não podemos ter a plena certeza de que tudo está ocorrendo certo. O Jorge Castanheira (presidente da Liga) é um homem aberto ao diálogo e ouve muito as escolas nesse sentido. Às vezes mudar o formato ou o conceito é saudável para o carnaval. Acho que a gente tem que discutir sim. As pessoas não podem propagandear que têm carta na manga. Ninguém é dono do carnaval, esse conceito tem que acabar.

Você concorda que os julgadores de bateria e harmonia desçam para a pista para poder avaliar melhor os seus quesitos?

Ricardo Fernandes: É uma ideia que pode sim ser avaliada e discutida em plenário. Não podemos nos fechar a qualquer ideia. Eu particularmente não acho que faz tanta diferença. Esse ano o som estava melhor, já deu pra notar as escolas que cantam e as que não cantam. As caixas de som onde a bateria passa são desligadas, por conta de um delay no retorno. A audição é perfeita. Mas pode ser discutida essa ideia.

A Beija-Flor tentou unir casal e comissão em uma única apresentação, que acabou não dando certo. O que fazer para acabar com o para e anda das escolas?

Ricardo Fernandes: Primeiro é preciso dizer que esse para e anda é obrigatório. O casal e a comissão têm de fazer uma apresentação para cada módulo de julgamento. Achei interessante a tentativa do Laíla. Não funcionou dessa vez, mas pode funcionar no futuro, por que não? Carnaval é feito de risco e ninguém arrisca pensando no erro, busca-se sempre a evolução. Acho que as escolas que tentam devem ser valorizadas por isso.

Como você recebeu as polêmicas declarações do Boni, colocando em xeque a lisura do resultado do carnaval?

Ricardo Fernandes: O Boni é uma das figuras mais maduras que eu conheço e sempre foi um grande parceiro do carnaval, é preciso se fazer justiça. Tudo que ele fala com relação ao carnaval, ele não fala sem propriedade. Ele tem muito embasamento, e pode sim estar muito certo em algumas coisas. É a opinião dele e volto a afirmar que ele merece todo o respeito.

Como amenizar o problema causado pelo excesso de pessoas com camisas de diretoria, mas sem função na pista?

Ricardo Fernandes: Uma escola de samba demanda que pelo menos 300 pessoas estejam na avenida, só como corpo técnico. Empurradores, motoristas, eletricistas, responsáveis por efeitos especiais. Some-se a isso os responsáveis pelas alas e em alguns casos são mais pessoas, no caso de grupos coreografados, por exemplo. Só para fazer a escola parar e andar são mais de 400 camisas necessárias. As escolas têm diretorias, compromissos comerciais, tem de dar algumas camisas. Não acho que seja isso que atrapalhe o desfile. Não vi a minha escola ser atrapalhada por isso.

É realmente necessário um elemento alegórico tão grande para as comissões de frente, como trouxe a Grande Rio? Como você enxerga o futuro do quesito?

Ricardo Fernandes: Aquilo ali, no caso da Grande Rio, foi algo que não foi gratuito ou apenas para demonstrar grandeza, como algumas pessoas estão falando. O efeito do canhão foi uma busca de inovação e show. Mas concordo que há um caminho perigoso de volumetria. Cabe à Liga definir um limite, uma regra. Os tripés têm função ali, não concordo que a proibição seja o melhor caminho.

A Liesa deve diminuir o número máximo de alegorias e tripés. Qual a sua avaliação sobre isso?

Ricardo Fernandes: Não adianta diminuir o número máximo. Tem que se limitar a volumetria. Eu posso fazer três alegorias imensas ou oito menores. O número mínimo ou máximo faz pouca diferença. Mas o volume de cada uma faria.

O presidente da Liesa reclamou dos "puxadinhos" na Cidade do Samba. Como resolver essa questão?

Ricardo Fernandes: É como eu falei. Só vamos resolver isso quando se criarem limites nas medidas das alegorias e tripés. Não adianta limitar quantidade. Senão, não vai fazer a menor diferença.

Como você avalia o modelo atual de disputas de samba?

Ricardo Fernandes: Existem modelos diferentes no carnaval. Cada escola faz a disputa da maneira que acha mais conveniente. Na Grande Rio atingimos uma maturidade interessante. O samba escolhido foi o que mais penetrou nas fileiras da comunidade. Procuramos não levar em consideração essa questão das torcidas de cada parceria.
 
Qual a sua avaliação do sistema de iluminação testado pela Liesa na Sapucaí?

Ricardo Fernandes: Gostei bastante. É o começo da valorização do projeto lumino-técnico das escolas. A Sapucaí tem uma temperatura de luz altíssima (muito branca). Achei bacana. Não sei se pela questão da transmissão da TV, o que pode ser feito, mas foi um bom começo.

Você acha que apenas um ensaio técnico na Sapucaí é suficiente?

Ricardo Fernandes: Eu não gosto. Acho pouco, gostaria de ter de dois a três. Mas é uma determinação da Liga, temos que acatar. Eu acredito que essa limitação seja por conta do monta-desmonta da avenida. O problema do ensaio é que hoje também já se cria um pré-julgamento nos ensaios, tem especialista até disso. O carnaval tem mais entendido do que qualquer área de atuação hoje.

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