Saborosos, cheirosos e coloridos

Na mesa de nosso seminário dedicada ao quesito samba-enredo um ponto da discussão foi o fato de o samba-enredo ter perdido o protagonismo nos desfiles, tornado que foi em mero acessório dentro do enredos das escolas.

Em outra mesa, anterior, dedicada a outro quesito, Laíla fortalecia o quesito mostrando toda sua importância no desfile não só para emoldurar o tema como também para impulsionar e energizar os demais segmentos e quesitos.

Se há escolas que negligenciam a escolha, outras tiram outros proveitos dela, sabemos. Há também outras que marcam aquele momento como o mais importante em toda a caminhada para o título.

Hoje, sabemos também, que ao olharmos os melhores resultados encontraremos os melhores sambas daquele ano, ainda que a recíproca passe longe de ser verdadeira.

Os compositores integrantes da mesa de samba-enredo, em muito, atribuíram, entre tantos outros motivos ali dissecados, parte da dificuldade aos enredos escolhidos. É assim que passam, eles compositores, de vítimas a vilões. Afinal é deles que é cobrada a má safra, eles que pousam na ponta final do processo.

Que há alas de compositores a tirar leite de pedra, sabemos também. Acabam por apresentar bons sambas a partir de sinopses e temas de grande aridez.

A Portela tem sido um, apenas um a mais, exemplo disso. Ao longo desse século grande parte de seus enredos foram insípidos, inodoros e incolores. Se prestaram muito mais a que a escola assinasse burocraticamente o ponto na pista do que servir de base para desfiles que emocionassem seus componentes e sua imensa torcida. E os resultados estão aí.

Saborosos, cheirosos e coloridos eis a safra de enredos para o carnaval de 2012. É Jorge Amado aqui, Nelson Rodrigues por um lado, Luiz Gonzaga vindo pelo “Balança”, Portinari vindo pelos “Correios” . Todos “caciqueando” na avenida.

E dona Ivone Lara escancarando todas as portas de nossa percepção, ela tão cheirosa, tão saborosa … tanto e tanto colorida.

Hoje com alegria vemos vindo de toda parte enredos com os quais temos intimidade, enredos que esperamos ver. Temas a serem, depois de identificados, saboreados, cheirados e devorados.

Assim se deu com a Portela, ainda que por vias tortuosas. Depois do susto de mais um enredo “encomendado” – A Serra Gaúcha- cai do céu um tema já mais que desenvolvido por outras escolas, mas nunca pela Portela.

A Bahia foi muito e bem contada e cantada pela Mangueira, Salgueiro, Império Serrano e tantas outras. Da Portela ,ao que me lembre, mereceu uma única frase no tema de 1984;

“BAHIA É UM ENCANTO A MAIS…”

Quem sabe isto não quer dizer alguma coisa, afinal foi aquele um dos últimos carnavais vitoriosos da escola.

Veio o tema, a sinopses e chegaram os sambas.

E o que aconteceu então?

Recebi um telefonema dando conta de que os sambas da Portela estavam postados aqui no CARNAVALESCO.

E fui lá ver.

E o que se viu então? Para quem ainda não sabe… eu vou contar.

Como sempre faço quando quero sentir a repercussão de algo, fui para o “Espaço Aberto” do “Galeria do Samba”.

O que vi ali, naquele momento e nos dias posteriores, foi uma verdadeira avalanche, por mim nunca vista, de postagens elogiando um ou outro, ou outros sambas. Vi ali gente equilibradíssima, que conhece do riscado, arriscando projeções quanto a qualidade de um dos sambas, e até sobre a esperança que ele poderia representar, mas sem nunca deixar de elogiar o conjunto da obra.

Claro que é importante uma escola da grandeza da Portela dar a demonstração de qualidade de seus compositores. Claro que é importante que seus componentes possam ter a certeza de que cantarão um grande samba e contarão um tema que os encante, convença e, até, os emocione.

Mais importante ainda é ver a quantidade de não Portelenses, inquestionavelmente apaixonados por suas escolas, saudando com tanta alegria e entusiasmo um samba de uma escola que não é a sua.

De minha parte, aqui do meu cantinho de observação, considero que ainda há algo muito mais importante a destacar. E aí a Portela é talvez o exemplo mais evidente. Quero me referir à natureza dos enredos e a confirmação do quanto são importante para semear, fecundar, toda aridez que temos visto em tantos carnavais.

Bastou uma boa safra de enredos para ouvirmos, ainda nas disputas, o surgimento de sambas de boa e até excelente qualidade. Esta a grande lição que, repito, a Portela é apenas o exemplo mais evidente.

Fica em mim a esperança de que a boa safra de enredos traga uma boa safra de sambas. Com eles venha um bom carnaval e o samba- enredo retome o tal protagonismo , marca maior e mais original de nossa festa mais original.

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