Salgueiro despeja sua negritude na avenida, faz seu melhor desfile na década e firma tambor para o título

Por Guilherme Ayupp

salgueiro_desfile_2018_45-10“Firma o tambor, para a rainha do terreiro, é negritude, Salgueiro”. O verso mais emblemático do samba salgueirense poderia ser usado para resumir em uma frase o apoteótico desfile da Academia do Samba. Um banho de bom gosto em alegorias e fantasias, no melhor trabalho da carreira de Alex de Souza. Uma escola incorporada na avenida por um discurso que está no seu DNA: a negritude. Foi dessa forma que o Salgueiro realizou a sua melhor apresentação no Grupo Especial com sobras nessa década. A escola não demonstrava um vigor dessa amplitude desde o inesquecível ‘Candaces’, de 2007. Intensa, competitiva e emocional. Nunca esteve tão perto de seu décimo título.

Alegorias e Adereços

salgueiro_desfile_2018_54Alex de Souza substituiu na escola o mago das alegorias, Renato Lage. O conjunto alegórico não fez nenhum salgueirense sentir falta de seu antecessor e mestre. O artista esbanjou categoria na concepção das alegorias. Todas merecem destaque, embora, uma falha grave de acabamento tenha sido notada no abre-alas, o que deve acarretar na perda de pontos no quesito em todos os módulos de julgamento.

A Eva Africana era o abre-alas da escola, que tinha uma escultura monumental no centro, trazendo um impacto muito forte em quem a via na pista. Toda a opulência do Egito se fez presente no segundo carro salgueirense, que trazia Kemet, a terra negra.

salgueiro_desfile_2018_55-11Mulheres negras que se destacaram como guerreiras na história na luta contra o imperialismo português vieram representadas na terceira alegoria, ‘A eterna luta’. O quarto carro do impecável conjunto de alegorias trazia as cenas de rua dos tempos coloniais e imperiais. As máscaras de Geledé, utilizada nos festivais que reverenciam o poder criador feminino, estiveram na quinta alegoria. O show de Alex de Souza foi encerrado com um carro que trazia uma Pietá negra com seu filho nos braços, simbolizando o sofrimento das mães que perderam seus filhos na violência urbana.

Fantasias

salgueiro_desfile_2018_58Outra aula de bom gosto e leitura do carnavalesco Alex de Souza. O Salgueiro passou muito bem vestido pela avenida. O artista imprimiu o seu estilo característico com roupas muito volumosas, ricas em detalhes e com materiais que valorizaram ainda mais cada uma das alas. Alguns figurinos chamaram a atenção pela riqueza dos detalhes, como a ala de baianas, que representava as primeiras mães que fecundaram a savana africana há milhares de anos, gerando toda a raça humana. Sempre esquecido pelos carnavalescos, o figurino da bateria foi um dos mais impactantes do desfile. Os ritmistas da Furiosa vieram representando os faraós negros. A maquiagem toda negra era impressionante. A ala do maculelê, sob o comando de Carlinhos Salgueiro, deixou um rastro de beleza na avenida.

salgueiro_desfile_2018_34-3Enredo

O enredo salgueirense foi o pré-carnaval todo acusado de ser uma continuação de Candaces. Bastava a boa vontade de ler a sinopse para saber que não era. Se houvesse ainda alguma dúvida ela se dissipou com o desenvolver da história na avenida. Alex dividiu os setores de maneira clara e contou de maneira coerente e visualmente clara o enredo. A abertura trazia a mãe terra africana, o início de tudo. Depois a setorização veio trazendo aspectos específicos da personalidade nas mulheres negras como o reinado, a divindade, a garra, o labor, o sacerdócio e a literatura.

salgueiro_desfile_2018_62Samba-Enredo

Não foram poucas as críticas à escolha do samba salgueirense para o Carnaval 2018. Os críticos tiveram de ouvir um baile da obra salgueirense na avenida, que possibilitou um show de canto e dança. O carro de som, tão criticado, deu a resposta perfeita aos críticos. O trio Leonardo Bessa, Hudson Luiz e Tuninho Jr atuou de maneira perfeita na condução do samba-enredo.

Evolução

Nem as fantasias volumosas foram capazes de desanimar os componentes salgueirenses. Com os figurinos grandiosos os salgueirenses cantaram, giraram, brincaram e muitos se emocionaram com o épico desfile. A escola passou pela avenida compacta e sem nenhum percalço para deixar a pista de desfiles. Técnica e vigorosa na mesma medida.

salgueiro_desfile_2018_66-6Harmonia

Cada ala, cada componente tirou do fundo da alma o canto da obra do Salgueiro. Desde o início da apresentação as alas cantaram com aquele canto esganiçado, gritado, de quem estava disposto a conduzir a escola à nota 10 no quesito. Ao longo do transcorrer do desfile a empolgação aumentava e o canto se espalhava pela avenida, contagiando até o público.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Apresentação vigorosa e perfeita de Sidclei Santos e Marcella Alves. A coreografia levantou o público em todos os módulos de julgamento. Marcella bailava ao ritmo da bateria Furiosa e no fim apontava para Sidclei demonstrar toda a sua perícia para a dança. Aplausos do início ao fim. A fantasia era belíssima e trazia a simbologia africana com tons de vermelho e laranja, detalhes da simbologia africana, arte rupestre, com reverência à Eva Negra e os primórdios da avenida.

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salgueiro_desfile_2018_25-2Comissão de Frente

Uma apresentação arrebatadora do grupo chefiado por Hélio Bejani. Prendia a atenção do início ao fim. O ponto alto acontecia quando as senhoras do ventre do mundo exibiam seus bebês. Singelo, simbólico e tocante. Cinco yabás representaram a fertilidade nos cultos de matrizes africanas e concediam à dez senhoras a bênção da maternidade.

Outros Destaques

A presidente do Salgueiro Regina Celi parecia sentir a energia de seu desfile apoteótico. À frente da escola, ela apresentou a comissão e o casal aos jurados e em muitos momentos não segurava as lágrimas. Terminou o desfile em total apoteose junto com toda a Sapucaí. O Salgueiro realizou uma arrancada avassaladora enlouquecendo o público nos primeiros setores. Viviane Araújo, como sempre, veio tocando tamborim junto da bateria. A fantasia dela se chamava Hatshepsut.

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