‘Samba da São Clemente tem que ter dois ingredientes: alegria e crítica’, diz compositor

Em sua quinta vitória na São Clemente, o compositor Rodrigo Índio já conhece bem a identidade da escola e o estilo de samba que agrada aos clementianos. Desde 1996 na preta e amarela de Botafogo, Rodrigo é um dos autores do samba que irá ilustrar o enredo “Mais de mil palhaços no salão” e, em entrevista para o site CARNAVALESCO, falou sobre sua expectativa para o Carnaval de 2016 e contou um pouco do processo de composição com os seus parceiros. Ele diz que “cada vitória é uma emoção nova” e considera que o destaque do seu samba na disputa para 2016 foi a junção entre a técnica com a paixão pela escola. – Olha, o diferencial foi o amor que a gente tem pela escola. Tecnicamente, acho que o samba tem bons refrões, variações melódicas. A gente procurou seguir o que o enredo pediu. Tentamos colocar o amor, a sensibilidade melódica e a letra de acordo com o que o enredo quer passar. Eu sou clementiano, eu não faço samba em outra escola. É coisa de louco. Você não tem noção da emoção que é ver seu samba ser tocado na Avenida.

* OUÇA AQUI O SAMBA DA SÃO CLEMENTE PARA O CARNAVAL 2016

'Os sambas da São Clemente têm que ter alguma crítica'

Para Rodrigo, há dois ingredientes essenciais na hora de se compor um samba para a São Clemente: a alegria e a crítica. – A São Clemente tem que ter essa cara alegre e tem que ter um pouco de crítica. Mesmo nos temas que não estão muito relacionados com isso, o compositor tem que achar um jeito de temperar com um pouco de crítica. É a marca da escola, não tem jeito – afirmou o compositor, que revelou que a obra original composta para a disputa desse ano tinha um teor crítico maior, o que acabou sendo alterado por pedido da carnavalesca, Rosa Magalhães: – O nosso samba original tinha uma crítica bem mais ácida. Quando mostramos a letra à Rosa no tira-dúvidas, ela pediu que pegássemos mais leve. É que o enredo é o palhaço, então o foco é a alegria e não a crítica.

Rodrigo afirmou ter gostado do desafio de compor samba para uma sinopse de Rosa Magalhães, cujos textos, sempre com densas pesquisas históricas, costumam ser elogiados pela crítica carnavalesca. Ele afirmou que a grande preocupação de sua parceria foi seguir corretamente o roteiro proposto pela carnavalesca. – Eu achei muito boa a sinopse. Foi tranquilo para eu e meus parceiros fazermos o samba, não tivemos nenhuma dúvida. O samba-enredo é uma obra encomendada. Então, tem que seguir a ideia que a escola quer passar.

Rodrigo, inclusive, aponta que o ideal seria que todas as sinopses viessem com a descrição dos setores do desfile. – Se eu fosse presidente de uma escola, eu daria todos os setores do desfile junto com a sinopse. Isso facilita muito para os compositores darem o peso correto para cada trecho do samba. O André Diniz já me disse o seguinte: “em um samba-enredo, você não precisa colocar tudo que esteja na sinopse. Mas você não pode colocar nada que não esteja na sinopse”. Esse limite da liberdade com a limitação é muito sutil. Se você tiver uma sacada fantástica que não tem a ver com o enredo, você pode perder a disputa mesmo tendo um grande samba. A escola sabe o que ela quer botar na Avenida, então a gente não pode fugir disso. Pode dar o nosso toque, a nossa interpretação, mas dentro do contexto do enredo.

Embora seu samba não tenha sofrido mudanças na letra após a vitória, apenas uma leve alteração na melodia da obra para facilitar o canto, Rodrigo também comentou a tendência de muitas escolas a mudarem trechos dos sambas. – o samba é escolhido, ele deixa de ser do compositor e passa a ser da escola. Ela é coautora do samba. Primeiro, porque é ela que dá a sinopse. Segundo, porque faz a disputa. E terceiro, porque acho que ela tem o direito de mexer na letra ou na melodia se achar necessário. O cantor sempre dá sua interpretação, então, já fica diferente de como era na quadra. O importante é que a ideia inicial, o fio da meada seja mantido.

'É ilusão achar que compositor ganha muito dinheiro com disputa'

Algo sempre muito comentado nas disputas de samba são as quantias vultuosas que envolvem os gastos das parcerias e os lucros dos compositores campeões. Para Rodrigo, “é uma ilusão achar que o compositor ganha muito dinheiro”. Ele ressalta que os gastos também são muito grandes e ainda maiores se forem pensados os anos em que se perde a disputa. – Para o compositor, é muito complicado conseguir trazer amigos, motivar as pessoas a irem pra quadra ajudar. Você acaba tendo que encher a paciência das pessoas. Tem também os cantores, e eles têm seus compromissos. Enfim, uma série de coisas que são desgastantes. Não sei se é necessário ter tantas eliminatórias em uma disputa. É claro que ganhamos o prêmio também, mas, sendo bem sincero, o que importa é ver nosso samba na escola. Dinheiro é bacana, mas é segundo plano. Sem demagogia. O que se ganha é ver a escola cantando nosso samba na Sapucaí.

Na disputa da São Clemente esse ano, as outras duas parcerias que concorrem com a de Rodrigo na final também ganharam uma pequena quantia. O compositor considera o modelo justo e acredita que a divisão de dinheiro também deveria ser feita com obras que não chegaram à final. – Os outros dois sambas que foram para a final vão morder um pedacinho, que vai sair do samba campeão. Eu acho isso justo, e acredito que seria interessante estender isso não só aos finalistas. Essa divisão de dinheiro foi justa porque engrandeceu a própria final de samba da São Clemente. Um ganhava o prêmio principal e os outros dois iam ganhar um prêmio secundário, mas eles sabendo que iam ganhar alguma coisa decidiram investir numa festa mais bonita na final também. Foi assim com a gente.

Assim como toda a comunidade clementiana, Rodrigo é mais um empolgado e confiante com o carnaval da escola para 2016. Após o grande desfile de 2015, que a rendeu um oitavo lugar e muitos elogios da crítica e do público carnavalesco, a São Clemente vai em busca de uma vaga no Sábado das Campeãs no próximo ano. – A gente tem uma grande carnavalesca, montou uma estrutura. Nosso samba tá contando o enredo, tá se encaixando perfeitamente. Os jurados têm que ouvir o samba e entender o que se está passando. O samba tem que ser facilitador para a harmonia e a evolução da escola, mas também tem que estar dentro do que será apresentado. Esse enredo é muito gostoso, muito alegre, muito a cara da escola. Tem tudo para a São Clemente ir pras cabeças – afirmou o compositor.