‘Samba foi composto com a alma’, dizem autores da obra da Mangueira para o Carnaval de 2016

O site CARNAVALESCO abre a semana como uma nova série. Em 12 matérias especiais vamos contar a história dos sambas-enredo do Grupo Especial para o Carnaval de 2016. O material preparado pela nossa equipe é emocionante e revelador. Conversamos com os compositores vencedores e todos os relatos são espetaculares. A abertura é com a Estação Primeira de Mangueira. Novamente, a Verde e Rosa optou pela obra dos compositores Alemão do Cavaco, Renan Brandão, Paulinho Bandolim, Alymr, Lacyr D Mangueira e Cadu para representar a escola na Avenida. O bicampeonato foi conquistado, mais uma vez, com uma obra muito elogiada por público, crítica e que foi aclamada pela comunidade na grande final de samba-enredo. A parceria vencedora é uma junção de três grupos de compositores já campeões, antes de 2015, quando houve a fusão. Sempre que a Mangueira levou para a Avenida uma obra desses compositores, a nota na quarta-feira de cinzas para o samba-enredo jamais foi diferente do 10.

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Renan Brandão, Almyr, Alemão do Cavaco e Paulinho Bandolim contaram à nossa reportagem os bastidores da construção do samba, emitiram opiniões sobre disputas e revelaram idolatria pela grande homenageada no desfile de 2016, Maria Bethânia. 

O tributo dos fãs para o ídolo

Ganhar um samba-enredo em uma grande escola é para poucos. Se a vitória vier na escola do coração, então, mais raro ainda. E no caso de tudo isso ocorrer quando o enredo trata de uma homenagem para um ídolo? Foi isso que ocorreu para esses compositores este ano na Mangueira. Alemão do Cavaco revela que este é um ano de emoções afloradas para a parceria, por se tratar de um tributo a Maria Bethânia. – Pra gente é muito especial, pois ela é um ícone, com uma história ímpar. Tem uma identidade com a escola, já desfilou. Sem dúvida é um ano emocional para nós – revela.

Paulinho Bandolim não se furta em dizer que este é o grande samba que venceu na escola. – Dos três sambas que venci este tem um sabor especial, e foi percebido na própria disputa. É o retrato do peso deste enredo. Bethânia é Uma artista de muito respeito – opinou Bandolim, tricampeão na Mangueira.

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Renan Brandão considera que o samba marca a carreira da parceria como compositores. – Durante a confecção do samba já pensava que seria um samba para marcar a nossa trajetória. Muito bacana fazer um samba para homenageá-la – declarou o compositor.

A amizade com Luizito e a dor da perda

Luizito era grande amigo do compositor Alemão do Cavaco e os demais parceiros não escondem que as obras eram todas pensadas para a voz dele. – Eu, particularmente, era fã do Luizito. Era um cara emocional. Quando perdemos o Jamelão o sentimento foi igual. Precisamos dar força ao Ciganerey, um cara consagrado. Ele vai encontrar o tom de conquistar a escola. Ele não chegou aqui ontem. Ameniza um pouco saber que ele é o intérprete – afirma Renan Brandão ao CARNAVALESCO.

Alemão do Cavaco fala de sua amizade pessoal com o cantor e que a perda lhe ressente até hoje. – Senti muito. Ao longo desses anos fui diretor musical da escola. Convivi diariamente com o Luizito. Um cara que transcendia a emoção. Eu era frequentador da casa dele. Não via a Mangueira com outra voz. Fazendo o samba pensei sempre na voz dele. Mas o Ciganerey vai conseguir nos representar muito bem e ele foi um dos que defendeu nosso samba na quadra até a morte do Luizito – disse Alemão.

A livre interpretação da sinopse

A parceria destes compositores procura trabalhar de maneira livre a sinopse e a roteirização fornecida pelas agremiações. Enquanto outros sambas buscam suprir tudo que estará na avenida, quase como um roteiro cantado, o samba da Mangueira uma vez mais traz a nuance de interpretação livre e poética do texto oficial. Renan Brandão explica como se dá o processo de criação da letra da obra depois da entrega da sinopse. – Em termos de cronologia procuramos respeitar em cima de um limite criativo. Procuramos explicar o enredo de maneira poética e livre e isso vem dando certo – contou.

Alemão do Cavaco revela que o processo de trabalho da parceria é baseada no detalhismo e na espiritualidade do enredo. – Somos muito detalhistas. A grande sacada que buscamos é pegar o espírito do enredo. Nosso carnavalesco diz que o samba de 2015 era doce. Isso é mais importante de tudo. Temos uma obra bem dosada, com a presença dela, sem perder a figura da Bethânia – revela. 

Ideia de chamar Ana Costa para cantar se deu por samba ser em primeira pessoa

Uma das grandes novidades das disputas de samba este ano foi trazida pela parceria campeã na Mangueira, quando a cantora Ana Costa foi convidada para cantar toda a primeira passada da obra. Foi um grande sucesso de audições no site CARNAVALESCO. Em um meio dominado pelo sexo masculino, Ana Costa deu um toque feminino à já bonita obra.

Amigo pessoal de Ana, Alemão do Cavaco conta que a ideia de trazê-la para a gravação surgiu de maneira muito rápida, pois o samba foi todo feito na primeira pessoa. – Acho que deu um molho especial, pois queríamos uma mulher cantando aqueles versos. Como não poderia ser a própria Bethânia, então buscamos a Ana e deu super certo – diz Alemão.

– Ana Costa traz uma linguagem diferente. Isso também emocionou. Uma intenção de interpretação diferente. A deixamos bem solta e algumas notas e melodias ficaram diferentes das duas passadas restantes com o samba cantado pelo Bico Doce e o Ciganerey – complementa Paulinho Bandolim. – Temos de agradecer e muito a participação da Ana Costa – derrete-se Almyr.

Escritórios e sugestões para as disputas

A parceria liderada por Alemão do Cavaco não participa de escritórios, aqueles grupos de compositores que fazem samba para diversas agremiações, muitas vezes sem assinar o nome na obra. Alemão é radical e enfático ao descartar um dia compor algum escritório. – Faço samba por paixão, desde minha juventude. E faço onde eu considero que haja sentimento. Já fui chamado para fazer em outros lugares, reconheço. Mas nós só fazemos na Mangueira e seguiremos assim – declara o compositor, oriundo do carnaval paulista.

Alemão considera a disputa de samba na Mangueira adequada, por ouvir a vontade dos segmentos, mas faz suas sugestões para a escola e as disputas em geral. – O grande lance da disputa da Mangueira é a comunidade. A escola não busca impor o seu samba. A torcida não deve sobressair ao samba. No meio de uma disputa as pessoas dizem que precisamos de gente. Vejo parcerias dando mais importância a efeitos pirotécnicos que ao samba em si. Eu jamais colocaria isso como linha de frente. Não é necessário dois meses de disputa também. Mas na Mangueira isso não interfere, tanto que somos bicampeões sem ser a parceria com maior festa. Deveria haver uma dosagem maior disso – complementa.   

O dia que um compositor comprometeu a poupança do próprio filho

Os gastos exorbitantes a cada ano com as disputas fazem os compositores cometerem loucuras. Mesmo não integrando um escritório e sem a força de um investidor para o samba, a parceria faz seus gastos e comete suas loucuras. Um destes compositores chegou ao extremo de comprometer o futuro do próprio filho. – Ninguém sabe disso e estou revelando agora. Mexi na poupança do meu filho. Minha mulher não sabe, vai saber agora. Ainda bem que vencemos e eu já repus. Teria de tirar de outro lugar caso tivesse perdido – revelou o compositor ao CARNAVALESCO. Seu nome? Alemão do Cavaco.

Almyr é o responsável pelo controle de gastos da parceria e sugere sempre que há uma vitória que os compositores reservem parte do prêmio para a disputa do ano seguinte. – Há também muita lenda nessa história. Eu nunca fiz samba pelo dinheiro. E toda vez que eu venci minha vida financeira não me deu grandes mudanças de patamar – confessa Almyr.

40 pontos em 2016?

Em busca de mais uma vez conquistar os 40 pontos no quesito samba-enredo no desfile de 2016, os compositores mangueirenses revelam ao CARNAVALESCO o porque a obra deles merece novamente atingir a nota máxima: – Contamos perfeitamente o enredo, sem limitar-nos a seguir uma cronologia, de maneira poética, Bethânia canta uma noite em que está recordando tudo isso. É um samba daqueles que não é o compositor que faz sozinho. Tenho pra mim ser o grande samba de nossa trajetória – destaca Renan Brandão. 

– Juntamos a parte técnica com a emocional. Conseguimos unir as partes, buscando originalidade melódica. O grande barato é transformar as frases em um samba-enredo. Acreditamos que possamos de novo dar os 40 pontos. Independente da nota, a obra já está consagrada – dispara Alemão do Cavaco.

– Adequação de letra à sinopse e melodia lindíssima. A gente conseguiu captar um lance que foi em primeira pessoa, com a cara da Bethânia. Muita gente disse que viu ela cantando. Captamos o jeito e a personalidade dela. Não tem imperfeição técnica e ainda um algo mais – acredita Paulinho Bandolim.

– As pessoas não tem ideia da nossa auto exigência. Os mínimos detalhes são colocados dentro dessa elaboração. A melodia possui pontos muito fortes. O diferencial da primeira pessoa e a construção de um samba solto, pois somos a última escola. Imaginamos Bethânia contando sua vida e nós todos incorporando a cantora nas últimas horas do Carnaval 2016 – finaliza Almyr.