Samba na boca do componente, show da bateria e do casal no ensaio da Imperatriz na Quinta da Boa Vista

Por André Coelho

imperatriz_ensaio_quinta-2A Imperatriz fez neste sábado, na Quinta da Boa Vista, o primeiro de dois ensaios previstos visando seu desfile na Marquês de Sapucaí, na segunda-feira de carnaval, com o enredo “Um noite real no Museu Nacional”. O segundo treino será no próximo sábado. Nem mesmo o mau tempo impediu a exibição da escola, até porque os gresilenses parecem ter feito algum acordo com a chuva, que parou no início e só voltou ao final da apresentação. Determinada a fazer bonito e voltar à Avenida no sábado das campeãs, a Verde e Branco vem ensaiando em sua quadra às quintas e domingos, sem folga, desde novembro e mostrou que o trabalho de quadra está dando resultado. Em seu discurso antes do ensaio, o carnavalesco Cahe Rodrigues fez questão de agradecer à direção do Museu Nacional, já o diretor de carnaval, Wagner Araújo, aproveitou para lembrar as dificuldades enfrentadas pela escola para levar seu carnaval para o Sambódromo.

Contando com um contingente de aproximadamente dois mil componentes, a Imperatriz desfilou desde a rua situada na lateral do Museu até o portão principal da Quinta, com seus componentes bem à vontade e demonstrando muita alegria e a sensação de estarem realmente se divertindo ao longo de 70 minutos de ensaio, tendo como destaques o cada dia mais entrosado casal Thiaguinho Mendonça e Rafaela Theodoro, a segurança e o ritmo da Swing da Leopoldina e o desempenho de seu carro de som.

– Olha, foi muito bom, muito bom, muito bom. Gostaria de chamar atenção à necessidade de poder fazer um ensaio desse, tempo fresco e agradável, um lugar lindo, é uma pena que isso aqui não tenha a atenção devida. Uma pista razoável para boa para a gente fazer um ensaio muito bacana, a acústica com as árvores e tudo foi muito bacana. Eu entendo como muito positivo – considerou o diretor de carnaval Wagner Araújo.

Samba-Enredo

O samba foi conduzido de maneira vibrante e segura por Arthur Franco e seus companheiros de carro de som e teve na bateria de mestre Lolo uma base consistente para ter uma apresentação bela e cheia de vigor. O trabalho de quadra vem surtindo efeito, pois nem mesmo as diversas palavras pouco comuns causaram grandes dificuldades no canto. Um erro que vinha ocorrendo com frequência a ponto de ser citado pelo diretor de carnaval, Wagner Araújo, em um dos ensaios de quadra, o de trocar “Daomé” por “Maomé” foi solucionado. Funcionam muito bem as nuances e soluções melódicas utilizadas, principalmente, as dos trechos “bailam meteoros e planetas/dinossauros, borboletas/brilham os cristais” e “A luz dourada do amanhecer”, onde a melodia acompanha a ideia passada pela letra e faz os componentes cantarem mais alto. O rendimento no geral do samba-enredo foi muito bom.

imperatriz_ensaio_quinta-32– Faz todo sentido o ensaio na Quinta até porque a gente vai trabalhar essa energia. Muitas pessoas estão tendo a oportunidade de conhecer o museu hoje. Uma integração bem bacana. Acho que é sucesso total, a chuva está atrapalhando um pouquinho mas vai ajudar a lavar também – declarou o intérprete Arthur Franco.

Harmonia

Tendo a seu favor uma obra que era a favorita da comunidade durante o concurso para escolha do samba-enredo, a harmonia da Imperatriz parece pronta para deixar de vez para trás o resultado de 2017 quando teve três décimos descontados. Mesmo com os componentes cantando sem parar, os diretores continuavam a estimular o canto e pedir a participação de todos. Há pontos a serem observados, mas que podem facilmente ser corrigidos. A escola cantou durante todo o ensaio, porém houve uma ligeira queda na força do canto que foi extremamente forte no início, quando muitas alas chegavam a gritar, mas que do meio para o final essa força caiu um pouco, apesar de praticamente todos continuarem cantando. A ala das crianças teve alguns problemas com palavras menos comuns que fazem parte da bela obra gresilense. Uma das alas que normalmente mais cantam, a ala de passistas pode colaborar mais e faz-se necessária uma maior atenção com a ala 15 onde alguns integrantes não cantavam o samba. Os componentes foram ajudados pelo carro de som e pela bateria que sustentaram a performance durante todo o ensaio.

– Primeiro, a sensação de dever cumprido. Sábado chuvoso no Rio de Janeiro, a gente não sabia se conseguiria colocar uma boa quantidade de componentes, mas ver o público que veio ver a Imperatriz aqui na Quinta já é motivo de muita satisfação. Para nós já é muita felicidade mostrar o comprometimento que o componente da Imperatriz tem e também proporcionar isso para toda essa galera que nos admira. Isso aqui é para todos os sambistas. A gente está muito feliz e ver que a escola o tempo inteiro brincou, interagiu com o público e deixou a gente bastante satisfeito. Daqui a duas semana já é carnaval, estamos muito próximos de atingir o ideal para fazer um grande desfile. Falta pouco, falta pouquinho, sábado que vem novamente o ensaio para ajustar o que está faltando e se Deus quiser fazer um grande espetáculo na segunda-feira de carnaval – disse Junior Escafura, diretor de harmonia.

Evolução

imperatriz_ensaio_quinta-12Com a ausência de ensaios técnicos, qualquer oportunidade de testar a evolução em ambiente similar ao da Sapucaí deve ser aproveitada. E foi o que a Imperatriz procurou fazer. Contando com a atenção máxima dos diretores de harmonia, a escola apresentou-se de maneira organizada, porém descontraída, permitindo aos desfilantes que sambassem e brincassem dentro de suas alas, sem embolar, e procurando preencher toda a largura da via. Quanto à fluidez, não houve correria, nem lentidão. Curvas e alternância na largura das ruas poderiam, mas não causaram problemas para a direção da escola. Todas as alas fizeram coreografias em vários trechos. No refrão, durante o “Gira a coroa” os componentes rodam para um lado e, no bis, para outro. Durante o trecho “bailam meteoros e planetas…” as pessoas executam um movimento parecido com o de embalar uma criança para os dois lados, já no refrão do meio andam para um lado e para outro em “Voa tiê, tucano e arara”, simulam batucar durante “os tambores ressoaram” e erguem os braços quando cantam “para o rei de Daomé”. Os braços são novamente erguidos em “a luz dourada do amanhecer” e “Pipas ganham ares” também ganhou uma coreografia que imita o movimento típico de quem solta pipa.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

É quase chover no molhado falar da competência do casal Thiaguinho Mendonça e Rafaela Theodoro. Porém, nunca é demais exaltar um belo trabalho. Com uma indumentária de época caprichada, ele vestindo calça social, suspensório, gravata borboleta e sapato todos na cor creme, camisa social branca e chapéu Panamá, e ela um vestido cor chá com rendas e pérolas bordadas na parte da frente, uma saia plissada e sandália na cor prata, ambos foram muito saudados pelo público presente ao se apresentarem quase que todo o tempo dançando e executando as coreografias. Não só nos momentos em que seriam simulações de apresentação para as cabines de jurados. Numa dessas coreografias o casal dança colado e dá um tom romântico à exibição. Ambos transmitiram bastante segurança, nem mesmo o piso molhado pela chuva que caiu desde a manhã deste sábado, intimidou a dupla que também exibiu habilidade no cortejo do mestre-sala e no cuidado da porta-bandeira com o pavilhão.

imperatriz_ensaio_quinta-20– O que tiver de ser consertado vai ser consertado durante a semana e domingo na quadra para nos prepararmos melhor ainda para o grande dia. E é muito significativo estarmos próximos ao Museu Nacional. Eu havia comentado isso a um tempo. Uma tarde de sol sensacional, todo mundo fazendo piquenique e depois, olha, hora do ensaio’ – vibrou o mestre-sala.

– É claro que na avenida não é a mesma coisa que aqui, mas é um meio que a gente vem buscando para poder ajustar a harmonia, a escola ficar junta, o carro de som com a bateria, as alas, até mesmo a ala que vem atrás da gente entrar em um conjunto, uma harmonia gostosa. E é ainda melhor por ser aqui, porque é especial. Ensaiar no local que vamos falar é uma sensação diferente, você acaba vivendo o lugar. Já tivemos a oportunidade de vir ao Museu Nacional, mas muitos componentes ainda não tiveram essa oportunidade, não conheciam e o museu disponibilizou carteirinhas para poderem vir. Isso é bem importante, porque quando você vê o museu, você consegue ver o desfile da Imperatriz. Não viemos aqui para fazer aquela coisa rígida, é um treinamento sim, mas ao mesmo tempo dá para o componente brincar e ver um pouco do que vem por aí – disse a porta-bandeira.

Bateria

A Swing da Leopoldina foi, sem dúvida, um dos destaques do ensaio da Imperatriz. Manteve um ritmo adequado para o canto durante todo o tempo, servindo perfeitamente como sustentação para que os componentes entoassem a obra e ainda mostrou algumas das bossas que deve levar para a avenida. Uma dessas ocorre no refrão principal e mexe com os componentes visto que a bateria para completamente de tocar e faz uma retomada vigorosa ao fim do refrão. Outra acontece no refrão do meio e tem os tamborins como protagonistas. Uma terceira tem início no trecho “Em cada canto um herdeiro de Luzia” e vai até o fim da segunda apresentando uma “conversa” entre tamborins, chocalhos e a marcação. A bateria da escola de Ramos parece pronta para sacudir a Sapucaí já há duas semanas do desfile. Só manter o nível até lá.

imperatriz_ensaio_quinta-26– Hoje para mim foi legal para caramba, infelizmente choveu. Com a comunidade na rua é a primeira vez que ensaiamos e fomos bem para caramba, o samba cresceu, agora tem mais um treino na semana semana que vem, o último nosso na rua com a comunidade e acho que será muito bom – comemorou mestre Lolo.

Comissão de frente

O grupo de 15 bailarinos, todos homens, se apresentou para o público com uma coreografia alternativa, devido às características do local do ensaio serem muito diferentes das da Sapucaí e também com a intenção de manter o segredo. A preocupação é tanta que o assistente da coreógrafa Cláudia Motta sequer quis confirmar se os que ali estavam eram os bailarinos que se apresentarão durante o desfile ou se trarão algum elemento alegórico junto à comissão. De qualquer forma, presentearam o público com uma coreografia mais clássica que arrancou aplausos e divertiu os presentes. Os dançarinos vestiam roupas brancas e executaram a coreografia com seriedade do início ao fim do trajeto percorrido pela escola.

Outros Destaques

Diversas alas levaram adereços e ajudaram a colorir e dar mais movimento ao ensaio. Parte das passistas mirins tinha asas de borboletas presas às costas. As alas 6, 10, 11, 15 apresentaram-se com coroas nas cabeças, já a ala 13 levou araras infláveis, e a 9 tinha asas de borboletas nas costas. Havia uma ala coreografada, formada por um grupo de show, que mostrou estar bem ensaiada, e apresentou-se com guarda-chuvas que serviram para simular os ossos que terão às mãos no dia do desfile. Muitos dos gresilenses presentes aproveitaram o dia de ensaio para conhecer ou estar pela primeira vez perto o enredo de 2018, o Museus Nacional. Alguns levaram a família e aproveitaram a tarde para fazer piqueniques na Quinta da Boa Vista.

Boa parte do público presente foi surpreendido com a apresentação da Imperatriz e aproveitou para acompanhar a escola e cair no samba. Se não tivemos ensaio técnico, pelo menos o ensaio na Quinta levou uma escola de samba para perto das pessoas que não estarão na Marquês de Sapucaí, o que faz da iniciativa algo elogiável. Agora é torcer para o tempo ajudar e termos um sábado sem chuva no próximo treino da Imperatriz para que tenhamos ainda mais apaixonados por carnaval curtindo de pertinho.