Samba no pé, sim!

Fiquei feliz com o debate que a última coluna ("Samba no pé") gerou. Este é o momento ideal para refletirmos sobre nossa festa. E, dentro deste espírito, me deparo com a entrevista que o nosso repórter Isaac Ismar produziu com o coreógrafo Fábio de Mello. Algumas coisas que ele disse têm ligação direta com comentários que li aqui no SRZD-Carnavalesco e nas listas de discussão
sobre a ideia de transformar os passistas em quesito.

O que todo mundo deve entender é que nada é imutável. O ser humano busca o novo diariamente. Fábio, que revolucionou as comissões de frente, agora acha que elas perderam a essência. Mas o que será esta essência a que ele se refere?

Comissão de Frente nunca foi um quesito com fundamentos definidos. Aliás, não sei como se atribuía nota a um grupo de senhores que passavam abanando o chapéu. Nada contra eles (pelo contrário), mas quais eram os critérios para julgamento? Apresentar a escola e saudar o público.
Isso pode ser feito de diversas maneiras. As pessoas foram criando, inovando – como fez Fábio de Mello. Foi um sucesso, mas engana-se
quem pensa que aquilo era o limite.

O que será que a velha guarda, que abria os desfiles até os anos oitenta, acha do trabalho dele, Fábio, na Imperatriz ? E mais: alguém, por mais tradicionalista que seja, não gostou do que a comissão de Tijuca fez no último carnaval? A fila anda, pessoal. Não existe fórmula. O
que se engessa fica parado no tempo. E esquecido. É claro que nem todo mundo acerta. Neste processo tem muita coisa a ser jogada no
lixo, claro. Assim como em outros quesitos.

Voltando ao caso dos passistas: alguns críticos à proposta lançada na última coluna vislumbram um futuro onde eles (os passistas) se tornariam profissionais e custariam fortunas às escolas. É um exercício e tanto de futurologia, mas vamos lá: é melhor pagar ao passista ou
ao astronauta?

A ideia é valorizar o samba no pé, gente, a essência deste negócio – mostrar que esta essência pode ser tão "impactante" quanto alguns delírios que já vimos na avenida e que de samba não têm nada. E este negócio de profissional do samba custar caro às escolas é ilusão. Procurem saber quanto ganham os casais de mestre-sala e porta-bandeira, os intérpretes, etc.

Além do mais, o quesito seria coletivo e envolveria oitenta, noventa, cem pessoas. Não haveria destaques individuais a serem julgados ou remunerados. Forçaria as escolas a criar escolinhas e selecionar os melhores para o desfile, disseminando e eternizando a arte.

A imaginação de alguns críticos criou uma série de outras situações que a gente não pode dizer se vão acontecer ou não, mas uma coisa
é clara, cristalina, óbvia: a arte de sambar no desfile está desaparecendo – com algumas raras exceções que confirmam a regra. E, sejamos realistas, nossos dirigentes se preocupam de verdade com os quesitos. O resto, sai como pode. E de nada adianta sugerir um novo posicionamento no desfile. Não é isso que vai mudar nada.

O importante é dar valor ao samba e à arte que é sambar com beleza, ginga, malandragem. Esta arte precisa ser destacada, valorizada, apreciada. Seria uma contribuição gigantesca ao espetáculo. É só imaginar a cena – passistas com tempo para "dizer no pé" de verdade, sem serem empurrados ou apressados; passos criativos; a volta do passista masculino… Quem sabe o que é isso não pode ser contra a idéia. E não é uma volta ao passado, pelo contrário. É o novo, que a muitos assusta, e por isso é repelido. Mas é o novo com essência,
com samba de verdade. Não é o novo pelo novo.

O mundo gira, pessoal. A terra treme… e as mudanças acontecem. Não sejamos acomodados.