Samba no pé

Samba é música ou dança? Os dois na verdade, mas quando você diz que vai sambar não significa que vai tocar um instrumento, mas que
vai "dizer no pé". Então como podemos falar em "escola de samba" quando cada vez menos a arte de sambar é valorizada?

Não é papo de velho retrógrado, nem daqueles chatos que não gostam de carnaval e procuram algo pra reclamar. É apenas uma triste constatação: se alguma decisão urgente não for tomada, dentro de pouquíssimo tempo ninguém mais vai sambar nas escolas de samba.

O passista é um elemento desvalorizado dentro dos desfiles. Escondido atrás do carro de som, é usado para tapar buraco quando a bateria entra no recuo. Sambar, que deveria ser a tarefa dele, não é possível.

Fruto de um processo que começou quando enredo, alegorias e fantasias começaram a valer mais que o samba. Aquela história de "ópera popular", inventada pelo Joãsinho Trinta, que fez do carnavalesco a estrela solitária de uma festa que deveria ser de uma constelação. Mulheres nuas, plumas e carros gigantescos ganharam destaque. E o samba sambou.

Veio a era do "desfile técnico" e a coisa piorou. Sambar passou a ser quase um crime, pois "atravanca" o desempenho da escola. Nem mesmo a valorização do "chão", promovida pela Beija-Flor na última década, conseguiu despertar o interesse pela arte de sambar.

Isso resultou no sumiço de figuras legendárias das escolas de samba e na queda de qualidade dos passistas. Hoje quase todo mundo samba igual à "Globeleza". Não há mais improviso, criatividade, gingado. Os passistas masculinos, além da malandragem, perderam a personalidade e seguem o modelo feminino. Não há mais sorriso no rosto, comunicação, samba na veia. É um samba mecânico e padronizado.

O público adora o passista. O melhor exemplo disso é o Gari Renato "Sorriso". Ele consegue mais aplausos que as escolas porque tem espaço e tempo para mostrar sua arte com carisma, talento e simpatia. Virou sucesso e ícone de um carnaval em que as escolas
escondem os seus passistas. E quando Renato, que este ano foi homenageado por duas escolas, desfila dentro de uma delas o resultado não é o mesmo. Porque ele entra na paranóia técnica dos desfiles.

Só vejo uma saída – transformar os passistas em quesito. É a única maneira de fazer com que os dirigentes valorizem este segmento tão importante. O fato de contar ponto é o que ainda sustenta a magia do casal de mestre-sala e porta-bandeira, por exemplo. Os critérios podem ser definidos pelos próprios passistas, mas são muito fáceis de se estipular: gingado, leveza, criatividade, simpatia, etc. Seria um ganho enorme para o espetáculo.