‘Sambista de berço, corpo e alma’, comunidade brilha no desfile da Estácio

Por Thiago Barros

estacio_desfile_2018_27-2O samba-enredo da Estácio de Sá não estava entre os queridinhos de público e crítica para o Carnaval de 2018, mas tem os versos perfeitos para descrever o desfile da escola, que fechou a Sexta-Feira de Carnaval, primeiro dia de desfiles na Sapucaí. “O povo” estaciano, “sambista de berço, corpo e alma”, “desceu o São Carlos, bateu no peito” e provou que a agremiação é sim, “tradição, uma escola de verdade”.

Com evolução e harmonia de dar gosto, o Leão nem parecia estar desfilando depois de outras cinco escolas. Canto forte, samba no pé e nada de buracos, nem correria. Resta saber se, “na Era da Modernidade”, basta para levar o Leão de volta ao Especial. Afinal, neste sábado ainda teremos as grandes favoritas, Viradouro e Unidos de Padre Miguel, que prometem não só chão forte como grande impacto visual.

estacio_desfile_2018_26-3Mas, mesmo que não seja, os estacianos podem se orgulhar de terem desfilado “sem bravata e com felicidade no rosto”, como bem diz a sinopse do seu enredo, “No Pregão da Folia, sou Comerciante da Alegria! Com a Estácio boto banca na Avenida”, assinado por Tarcísio Zanon. Destaques positivos para a bem humorada comissão de frente e a graça do casal de mestre-sala e porta-bandeira. De ruim, uma alegoria apagada.

Harmonia

O Carro de Som da Estácio teve novidade em 2018: Serginho do Porto de volta, para sua terceira passagem na escola. Ele puxou os sambas do Leão em 2002-2004, 2008-2010 e agora reassumiu o microfone principal do Berço do Samba com uma apresentação muito segura. Conduziu o samba com maestria de início ao fim.

Com a parte dos profissionais bem azeitadinha, a comunidade pôde dar seu show. Como de costume, o povo do São Carlos desceu o morro e cantou com orgulho. Mesmo tendo um samba que não era aclamado por público e crítica antes do desfile. A obra funcionou muito bem, e pouquíssimas alas tiveram problemas de canto.

Vale destacar positivamente a ala 4, Vendedor de Açúcar e a ala 11, Mamas Italianas, que mesmo com muitas mulheres já não tão jovens deu um show de canto. Frisar o trabalho dos diretores de harmonia entre as alas também é importante. Sempre com animação e o samba na ponta da língua, orientaram muito bem os desfilantes.

Evolução

estacio_desfile_2018_62-2A Estácio teve problemas de evolução em desfiles recentes, mas isso não se repetiu em 2018. Felizmente para a escola. O trabalho da Harmonia, novamente, foi crucial. Todas as alas estavam bem compactas, nas fileiras corretas e evoluindo, brincando carnaval. Bela apresentação do chão do Berço do Samba.

Há uma observação a ser feita, porém: a distância entre a comissão de frente, após a sua apresentação, e o casal de mestre-sala e porta-bandeira, quando se iniciava seu bailado, era bem grande. Pode ser considerada como “buraco” por algumas pessoas. Resta saber como será o julgamento na Quarta-Feira.

Samba-Enredo

estacio_desfile_2018_73-6O samba-enredo da Estácio é assinado por Alexandre Naval, Filipe Medrado, Luiz Sapatinho, Pelé, Thiago Sousa, Rodrigo Armani e Diego Tavares. Uma obra com a cara da escola. Refrão forte, versos simples e melodia propícia para o andamento da bateria Medalha de Ouro.

A obra teve como um grande destaque o fim da segunda estrofe, que sobe o clima para o refrão: “Sambista de berço, de corpo e alma”. Na era da modernidade, sou tradição, uma escola de verdade”. Além de muito cantado, era um resumo perfeito do carro que encerrou o desfile. Muito bacana.

Vale ressaltar ainda as referências à história da escola, como o “me dê me dá”, em homenagem ao samba de 92, “Na era da modernidade”, verso encontrado também no desfile de 96, e o uso de “Deixa Falar” e “Berço” para remeter ao apelido da primeira escola de samba do país.

estacio_desfile_2018_23-2Alegorias e Adereços

A Estácio de Sá teve alguns problemas com a saída de suas alegorias do barracão na madrugada de quinta para sexta. Mas isso não afetou muito o desempenho da escola neste quesito no desfile. Resta saber se a escola será penalizada pelo atraso na hora de se deslocar para a Sapucaí.

O abre-alas era o “Paraíso de toma lá, dá cá”, o “troca-troca” de produtos promovido entre colonizadores e nativos. O famoso Leão da Escola vem encarnado, envolto em uma floresta rubra, pra representar a busca pelo Pau-Brasil. Leões e outros animais, com muito vermelho e prata, abriram forte o desfile da escola.

estacio_desfile_2018_16-9A segunda alegoria era linda: o Mercado da Praça XV, primeiro entreposto de produtos do Rio de Janeiro, local de interação social, onde se vendia dos mais variados artigos sendo, em sua maioria, produtos alimentícios. Dourado, com direito a frutas de verdade. Mas infelizmente, passou apagado pela Avenida. Uma pena.

Na terceira, o Mercado do Saara, uma alegoria que exalta os árabes, turcos, sírios e libaneses, que comercializam iguarias típicas de suas raízes originárias. Muito legal, com tons em azul e dourado, lâmpadas e características típicas da Arábia, com uma escultura enorme na parte frontal.

estacio_desfile_2018_16-2“Estácio: exportação em um mundo digital” era o nome da quarta e última alegoria do desfile, mais futurista, mas também exaltando a tradição da escola, com diversos convidados celebrando os 90 anos da primeira escola de samba do país. Como diz o samba, “Na era da modernidade”, a agremiação é “tradição”, completando 90 anos.

Fantasias

O conjunto de fantasias da Estácio foi um dos melhores da noite – talvez o melhor. A exceção foi o último setor, que tinha algumas indumentárias que destoavam do resto, por serem bem mais simples e se aproximarem mais do que algumas outras escolas, como a Renascer, por exemplo, apresentaram nessa sexta-feira.

estacio_desfile_2018_46-1Mas o começo da escola foi incrível. As baianas estacianas foram as mais bonitas dessa noite. Com fantasias de Vendedoras de Flores, retratando-as com a delicadeza e beleza das flores, cheias de roxo e dourado. Dourado, aliás, muito presente nos dois primeiros setores, com destaque para as alas 5 (Mercado de Escravos) e 6 (Mercador de Ouro).

Havia diversas alas da Estácio retratando vendedores, inclusive: de tabaco, de aves, de açúcar, de ouro, de café e até de escravos. Sem falar em “personagens” muito famosos, como o “Manuel da Padaria” e as “Mamas Italianas” e fantasias inspiradas em nações de imigrantes que fazem parte do comércio brasileiro, como japoneses, chineses e sírios.

Destaque para a linda indumentária oriental dos Passistas, representando justamente os imigrantes chineses e japoneses. No geral, apresentação visual muito boa, tanto em sua beleza quanto em leitura do enredo. Foi fácil de identificar as várias facetas do comércio levadas pela escola para a Sapucaí.

Enredo

estacio_desfile_2018_73-8Uma curiosidade do desfile da Estácio é que a escola chegou a anunciar um enredo sobre Singapura para 2018. Mas o patrocínio acabou não dando certo e foi preciso escolher uma nova temática algumas semanas depois. Daí surgiu “No Pregão Da Folia, Sou Comerciante Da Alegria, E Com A Estácio Boto Banca Na Avenida”.

O Leão do São Carlos contou a história do comércio no Rio, desde os escambos entre índios e portugueses até o Saara. “Desta forma fascinante, as mãos produtivas do comerciante na lida diária, vamos exaltar. Reconhecendo a importância desse segmento na sociedade, com nossa Medalha de Ouro a eles vamos laurear”, diz a sinopse.

O desfile foi dividido em quatro setores: “Toma lá da cá”, “Mercado Colonial”, “Os imigrantes” e “Mercados Contemporâneos”. Tudo claramente explicado e detalhado, em mais um belo trabalho do carnavalesco Tarcísio Zanon. Méritos também, é claro, para o presidente Leziário e sua diretoria, que possibilitaram o bom desfile.

Casal de mestre-sala e porta-bandeira

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira veio com uma fantasia interessante: o Escambo. José Roberto é Estácio de Sá, fundador da cidade do Rio, e os produtos trocados com nativos. Já Alcione representa o encanto do índio pelo espelho. Estavam lindos, de vermelho, branco e efeitos de prata/metal.

Mas não foi só a fantasia que chamou a atenção. O bailado de Alcione e José chamou a atenção. Leveza, graça, conexão, sincronia. Um dos melhores da noite, com certeza. As apresentações não tiveram erros, foram bem executadas e tradicionais. Um dos pontos altos do desfile, sem dúvidas.

Comissão de frente

estacio_desfile_2018_16-3A comissão de frente, de Ariadne Lax, vem com 15 componentes, sendo 9 homens e 6 mulheres. Eram os Vendedores de Alegria, que de forma lúdica, representaram toda a evolução do comércio popular carioca. A apresentação foi bastante divertida e tinha a divisão em três atos.

Troca-troca primitivo, porta a porta colonial e a feira livre atual. Tudo explicado com muita clareza e diversão. Eram 15 “palhaços”, que começavam mostrando o português vindo ao Brasil, batalhando com o índio e “conquistando” a terra com os espelhos, depois os baús de venda porta a porta.

No fim, o destaque na feira livre atual. Uma brincadeira com todos abrindo bandeiras com datas erradas do aniversário da escola. No fim, saía um grande pavilhão com a celebração dos 90 anos da Estácio de Sá. Apresentações bem humoradas, executadas sem erros e aplaudidas pelo público nos quatro setores.

Melhor de Sexta?

A Estácio de Sá é sempre favorita na Série A. Nesse ano, fala-se muito mais nas escolas de sábado do que nas de sexta-feira. Mas, se há alguma consolação nisso, a Vermelha e Branco do São Carlos fez uma boa apresentação, que faz com que ela seja considerada, pelo menos, uma das melhores da noite – e, provavelmente, a melhor.

A bateria Medalha de Ouro, uma das mais tradicionais do Rio de Janeiro, foi outro ponto alto do desfile. O jovem Mestre Gaganja estreou à frente dos ritmistas com apresentação segura. Manteve a característica da escola, aprimorou algumas deficiências e fez bossas que levantaram o público.

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