Sambistas analisam o ano de 2011 para o carnaval

O ano de 2011 vai embora e para os amantes do carnaval carioca ficam lembranças não tão agradáveis assim. Apesar de alguns acontecimentos positivos, é inegável que as cenas do trágico incêndio ocorrido em fevereiro, na Cidade do Samba, pautarão as conversas todas as vezes que alguém lembrar deste ano. O acontecimento rendeu um carnaval incomum, quando três escolas não puderam ser julgadas, e um pré-carnaval 2012 conturbado, em que Renascer, Portela e União da Ilha precisam se adequar às instalações ainda incompletas de seus barracões enquanto produzem o desfile do ano que vai chegar.

Esse ano marcou também o 12º título da história da Beija-Flor, cada vez mais Deusa da Passarela, mais um desfile memorável de Paulo Barros, o surgimento de uma safra de primeiro nível no Grupo Especial – para 2012 -, e a partida do 'gênio João'. Escolhemos algumas personalidades protagonistas do mundo do samba nesta temporada para falar sobre o ano que vai embora.

Laíla – diretor de carnaval da Beija-Flor

Podem falar o que for da personalidade dele, mas é consenso no carnaval que o principal responsável pela potência que a Beija-Flor é hoje chama-se Luiz Fernando do Carmo, o Laíla. Em 2011, ele apostou numa novo estilo de carnaval: roupas mais leves que deram à Beija-Flor um rendimento ainda melhor nos quesitos de chão. A aposta deu certo e a agremiação de Nilópolis tornou-se a maior vencedora da Marquês de Sapucaí – conquistou sete de seus 12 títulos no Sambódromo -, ultrapassando a Imperatriz.
 
– É um ano de crescimento profissional. Conseguimos aquilo que pretendíamos sem contar com nenhum medalhão. Hoje, temos uma escola unida. Posso dizer que chego no final do ano muito feliz e com o sentimento do dever cumprido. Ganhamos um carnaval como escola de samba. Foram vários bons momentos e apenas um muito triste. A morte do João foi uma pancada forte e nós queríamos homenageá-lo em vida no desfile, mas infelizmente papai do céu o levou. Resolvemos fazer uma coisa linda no setor dele no nosso desfile de 2012 e tenho certeza que vamos fazer a Sapucaí se emocionar bastante.

Priscila Motta e Rodrigo Negri – coreógrafos da comissão de frente da Unidos da Tijuca

O assunto mais comentado do período pré-carnaval 2011 foi, sem sombra de dúvidas, o que a comissão de frente da Unidos da Tijuca traria para a Avenida. Depois do assombro que o grupo causou em 2010, quando a agremiação do Borel voltou a ser campeã depois de 74 anos, a proposta de 2011 causou mais uma vez frisson no público, que aplaudiu a comissão tijucana em todos os setores do Sambódromo.
     
– Foi um ano onde todos tinham uma expectativa enorme em cima de nós e conseguimos correspondê-la, isso foi ótimo. Criamos a nossa marca, a comissão de frente da Tijuca tem uma identidade. Este ano viajamos para Recife, Manaus e alguns outros lugares levando a comissão e a repercussão é algo que ainda nos impressiona. Só lamento o incêndio na Cidade do Samba. Por mais que a Tijuca não tenha sido afetada, temos amigos em outras escolas e sofremos junto com todos aqueles que viram seus trabalhos queimarem. O resultado do carnaval não nos chateou tanto quanto o incêndio. Encaramos o vice como um aprendizado – afirmou Rodrigo.
     
– Esse ano teve cara de alívio. Criaram muita expectativa em torno daquilo que levaríamos e fomos felizes mais uma vez. O público já nos aguarda e isso só dá mais motivação para levar coisas novas para a Sapucaí. Unimos ainda mais o nosso grupo de trabalho e acho que vamos ganhar ainda mais com isso. O incêndio foi o ponto fraco do ano. Fiquei muito triste, me senti penalizada – disse Priscila.


     
Mestre Aílton – diretor de bateria da Mangueira


O cenário parecia nada animador para ele. Há 40 dias do carnaval, Aílton assumia uma das baterias mais tradicionais do carnaval carioca. O dia do desfile chegou e a Surdo Um, comandada pelo estreante, foi a bateria que mais emocionou o Sambódromo. Seja pela brilhante paradona, que mostrou a ousadia e o conhecimento musical de quem começou a desfilar na ala com apenas 13 anos, ou pelo ritmo contagiante dos seus comandados, Aílton estreou com o pé direito num lugar que tem capacidade para se manter durante muito tempo. Nem mesmo a lamentável nota nove, dada pelo julgador Pinduca, é capaz de estragar o ano do diretor de bateria mangueirense.
     
– Foi um ano bem produtivo, apesar de muito corrido. Tive um ganho de responsabilidade muito grande ao assumir a bateria da Mangueira e agora temos o dever de, pelo menos, manter o nível, mas o desejo é melhorar. Acho que o trabalho que conseguimos fazer em pouco mais de um mês pode ser ainda melhor com mais tempo para o aprimoramento e o samba nos ajuda bastante. A minha família sempre participou da escola, sou criado na Mangueira e acho que está no sangue. Ao longo da minha vida fui me aprimorando e aprendendo ainda mais. A nota nove não estraga o ano, principalmente depois de ter lido a justificativa. Acho que o Pinduca estava muito desinformado sobre a bateria da Mangueira, o que é algo que lamento profundamente.


     
Igor Sorriso – intérprete da São Clemente


Quem viu e ouviu o desempenho de Igor Sorriso, pela primeira vez como intérprete oficial do Grupo Especial, este ano na São Clemente, pode ter testemunhado o surgimento de um dos monstros sagrados do carnaval do futuro. De temperamento calmo e sorriso fácil, o jovem cantor não esconde a timidez com os elogios, mas sabe que 2011 representou sua afirmação como intérprete no mundo samba.
     
– Este foi o ano mais produtivo da minha curta carreira. Me saí bem numa experiência nova, que era cantar no Grupo Especial e consegui firmar o meu nome. Não tive nada de improdutivo. Só tenho a agradecer o carinho de todos e a confiança da diretoria da São Clemente. Vou amadurecer ainda mais e levar isso comigo para o resto da vida.

Nilo Figueiredo – presidente da Portela

Não existe ninguém no mundo do samba que tenha conhecido os dois lados da moeda de maneira tão intensa quanto o dirigente portelense em 2011. Não bastasse o sofrimento com o incêndio no barracão da Azul e Branco, em fevereiro, o dirigente chegou a ser acusado de omitir o que a escola havia perdido no incidente. Houve também um momento interno conturbado na vida política da Portela em meados do ano, que quase culminou com a saída do dirigente. O tempo passou e o destino reservou um samba maravilhoso na trajetória portelense. A escolha acertada de Nilo durante a disputa e o novo astral do comandante trouxeram um novo ambiente à relação dele com os fanáticos torcedores da escola.
 
– Essas coisas acontecem na vida de qualquer um. Só posso dizer que o incêndio foi um infortúnio muito grande, um desastre na vida Portela, e esse belo samba veio para substituir essa tristeza. Ele tem feito os portelenses sentirem o orgulho mais aflorado e isso nos enche de determinação para trabalhar corretamente, fazer um grande carnaval, e rezar para que tudo dê certo no desfile. Não acho que esse tenha sido o meu melhor ano na presidência. Em outros anos ocorreram menos coisas desagradáveis. A minha impressão com o incêndio foi a de ver um filho ir embora. Tínhamos uma grande estrutura administrativa e somos determinados para montá-la de novo.

Luizinho Andanças – Intérprete da Mocidade

Desde que surgiu para o grande público, em 2003, cantando na Santa Cruz, Luizinho Andanças deixou boa impressão pela potência de sua voz e pela facilidade para interpretar obras de gosto duvidoso. Com o passar dos anos, o intérprete foi se aperfeiçoando ainda mais e, enfim, alcançou o microfone de uma das maiores escolas do carnaval carioca: a Mocidade Independente de Padre Miguel. Num ano quase perfeito para Andanças, apenas a perdoa de uma pessoa bem próxima deixa uma pontinha de tristeza.
 
– 2011 foi um ano de muitas realizações, coisas novas e a vinda para a Mocidade. Não posso me queixar de nada. Graças a Deus a recepção tem sido maravilhosa e pelos ensaios de comunidade já posso prever que o samba renderá muito bem na Avenida. Costumo dizer que se o desfile fosse hoje a Mocidade já estaria preparada. A única coisa triste para mim este ano foi o falecimento do meu pai, que foi embora no mês de setembro.

Olivier Luciano (Pelé) – Presidente da Cubango

Excêntrico e bem-humorado, o simpático Pelé preside a Verde e Branco de Niterói há uma década e viu sua escola no Carnaval 2011 fazer um desfile bem acima das demais postulantes ao título do Grupo de Acesso. Apesar do bom rendimento cubanguense, a escola não passou de um quarto lugar que acabou revoltando o dirigente. Depois de chiar, com muita razão, vale o registro, Pelé garante que 2011 deixou um aprendizado em sua vida.
 
– Eu aprendi que você fazer um grande carnaval não lhe garante o título. É frustrante. Esperei e fiz por onde conquistar um título que não veio. Em 2012, vamos fazer aquela festa bonita de novo, mas sem esperar o título. Fico feliz pela recuperação da minha comunidade, que aos poucos se regenera da tragédia no Bumba. Depois da tristeza, vimos eles sorrindo com o carnaval da Cubango.

Severo Luzardo – carnavalesco do Império da Tijuca

Quando se acha que todas as propostas plásticas do carnaval já se esgotaram, surge o artesão trabalho de Severo Luzardo no ótimo desfile do Império da Tijuca para nos impressionar. De fala mansa e personalidade avessa às badalações do mundo do samba, o gaúcho Severo Luzardo, ao lado do presidente Tê, colocaram o Império da Tijuca mais uma vez entre as principais postulantes a uma vaga no Grupo Especial. Pena que o mesmo julgamento que deu o quarto lugar à Cubango, castigou a escola do morro da Formiga com um inexplicável sétimo lugar.
 
– Esse carnaval foi a consagração da minha carreira. Ganhei um estandarte de ouro e a escola foi premiada 17 vezes pelo desfile. Foi uma espécie de certificado de qualidade do meu trabalho. Não penso tanto no resultado. Melhor é ter o reconhecimento de pessoas que entendam, são dignas de você ouvir o que elas estão falando, pois têm conhecimento de causa para analisar o seu trabalho. Sou um carnavalesco que busca a perfeição, estudo, testo várias coisas, isso cansa, mas quando vem o reconhecimento te dá mais força para prosseguir. Fora do carnaval também foi um ano ótimo: ganhei 12 prêmios como figurinista, entre eles um EMI Internacional com a novela Laços de Sangue, quando integrei a equipe de criação, melhor figurino com Cordel Encantado e o Jayme Monjardim me chamou para assinar os figurinos da minissérie 'O tempo e vento'. Só tenho a agradecer.

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