Sambistas da Depressão: Blog da Ieiê – 1988, O ano que a Vila venceu o carnaval sem fantasia

1987 começou como um ano de crise financeira, depois da entrada definitiva do país na democracia, as coisas estavam tão caras que eu tive que deixar de comer em restaurantes para comer em praça de alimentação. Tudo parecia que ia fracassar nos barracões, devido a problemas de custos por conta da inflação. Quando um belo dia, próximo ao carnaval, fui visitar o barracão da Mocidade, convidada pelo querido supremo Castor de Andrade, fui sequestrada por um diretor de uma escola rival, me prenderam em uma casa fechada e tive que ficar lá até o fim do carnaval. 

Eu estaria linda nos patins de Fernando Pinto em Tupinicópolis e renderia a vitória para a Mocidade, porém a campeã do ano foi a Mangueira. Fui liberada e ameaçada de desfilar em uma escola aí. Além da crise, 1987 foi marcado pela perda de dois gênios do carnaval: Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto. Triste, fui ao maracanã assistir um jogo, convidada pelo meu amigo Jão (Joãosinho Trinta) Perto dali, estava deflagrada pela perda do supremo criador Max Lopes, a pequena escola Vila Isabel (A grande Rio dos anos 80), recebi o convite de desfile, mas estava dividida, seria o primeiro ano da minha Tradição na elite e Nesinho pediu uma força para ajudar João Nogueira na composição do samba “O Melhor da raça, o melhor do Carnaval”. Entre os enredos do ano tínhamos críticas sociais, críticas à uma emissora de TV muito poderosa e críticas ao preconceito racial. Percebi que 1988 seria poderoso e tudo isso por eu estar mais presente já que sumi em 1987.

A entrada da Tradição na elite do carnaval, fez com que a diretoria da Portela me chamasse para conversar, um dos diretores da Portela me pediu pra eu enrolar a bandeira da Tradição e voltar a fundir as escolas. Porém, ainda chateada com o ocorrido em 1984 eu abracei o diretor e disse “Eu quero briga, cuidado com o abraço do Jacaré” (Jacaré faz referência ao jogo do bicho, já que a tradição é situada na intendente Magalhães, 160). No dia seguinte a Portela divulgou seu samba enredo. Passada as tensões do pré-carnaval, chegou a hora dos desfiles! 

Domingo começou com o retorno da unidos da Tijuca à elite, a escola tinha sido rebaixada e retornava ao especial sob o comando do Portuga, a Tijuca fez um excelente desfile sobre conversa de bar, os componentes levaram tão a sério o enredo que ficaram fervendo no “balança mas não cai” antes do desfile. A Mocidade passou tão fria que nem vi, quando olhei já era a Ilha. A escola que mais sofreu no pré-carnaval (incluindo assalto, incêndio e tiroteio na quadra), pediu uma ajuda de um famoso pai de santo e juntos fizeram um trabalhinho antes de entrar na avenida. Esse descarrego feito na concentração, carregou a Imperatriz que fez uma tragédia completa no desfile e estourou em 12 minutos. 

São Clemente veio encarando a emissora do Booooooooooooooni, seu samba era um afronto direto ao canal e depois veio a Estácio, logo de início vi um tumulto na concentração, era Dominguinhos discutindo com o coordenador da Riotur, mas em seguida reparei, DISCUTIRAM AO VIVO NA GLOBO na frente da repórter. O Salgueiro passou e eu estava indo pela beira da Sapucaí desejar boa sorte à Portela, sou dessas que ri da inimiga antes da tragédia e depois do desfile da Portela e das polêmicas da concentração, acabou o domingo e fui pro barracão da Tradição ver a retirada das alegorias do barracão, deu um orgulho sabe? Primeiro ano do meu condor na avenida, ia ficar mais 20 anos o mesmo condor lá. Uma coisa a mídia não podia negar, a Tradição tinha mais portelenses que a Portela, até a águia queria desfilar aqui (eu que não deixei). 

Depois da estreia da tradição, fui para a concentração me preparar para meu desfile na Vila isabel, cheguei lá Renato Lage estava encerrando o desfile da Caprichosos com aquele sorriso encantador dele e em seguida viria Jão que muito nervoso estaria na beija-flor e me fez jurar de pé junto que eu desfilaria na Beija-Flor em 1989, aceitei e fiquei na concentração esperando Cabuçu e Ponte passar para entrar com a Vila Isabel. 

Cheguei na concentração da Vila e vi uma escola pobre, sem muito recursos, com fantasias de baixo custo, eu tinha que melhorar aquilo. Comecei a tirar a roupa de todo mundo e gritar “BOTA ESSA NEGRITUDE PRA FORA” e agitou todos e todos entraram com garra. Chegando na concentração chamei Martinho pra tomar um café, Martinho disse que ele deveria voltar correndo para desfilar na Mangueira, onde seria homenageado, convenci Martinho de tomar café comigo e coloquei um liquidozinho que o fez dormir, Martinho não voltou pela Mangueira e eu assisti a tudo com meu riso maléfico. No dia seguinte, convenci Martinho que ele na verdade se perdeu das pessoas que iam leva-lo para concentração.

Na apuração, minha travessura deu certo, mangueira perdeu por 1 ponto, justamente pela não presença de Martinho na comissão de frente (E a partir daí começou a fama de “homenageado que não vai”). Assim, Vila Isabel conquistou seu primeiro campeonato, a Tradição ficou em 8º, a Imperatriz foi rebaixada, depois não foi, depois foi, depois não foi e ficou na elite e eu provei a todos que sou boa no que faço.