Sambódromo 30 anos: histórias do desfile da Portela de 1984

 

 

O carnaval de 1984 é muito lembrado pelo ''sacode'' dado pela Estação Primeira de Mangueira, aclamada supercampeã numa estrutura de julgamento única até os dias de hoje, mas uma outra gigante da folia também levou o caneco naquele ano. Maior detentora de títulos, a Portela conquistou a 21ª e última estrela bordada em seu pavilhão até então. É fato que o destaque da Verde e Rosa ofuscou um pouco o brilho do desfile portelense naquele ano. Isso fica claro na pontinha de mágoa velada que integrantes da Azul e Branco carregam na fala ao lembrarem o ano, mas uma coisa daquele desfile não vive as lamúrias do esquecimento.

Experimente cantarolar os versos ''Okê, okê, Oxóssi'' numa roda de amigos. Certamente a saudação ao orixá será completada com a sequencia que forma um dos refrões mais cantados da história do carnaval. A obra composta por Norival Reis e Dedé da Portela entrou para a história ao exprimir de forma perfeita o enredo assinado pelos carnavalescos Edmundo Braga e Paulino Espírito Santo. Uma espécie de sincretismo ''sambístico-religioso'' entre os orixás e três dos principais nomes da agremiação: Natal, Paulo da Portela e Clara Nunes.

– O samba foi prontamente aceito pelos portelenses na quadra e fez muito sucesso na arquibancada da Sapucaí. Antes do desfile foi muito bem avaliado por todos também. Até hoje canto esse samba e vejo as pessoas emocionadas nos shows da Velha Guarda – afirmou Tia Surica, que já integrava a Velha Guarda portelense em 1984.

A baluarte considera injusto o desfile ''Contos de Areia'' não ser tão lembrado quanto mereça. Na visão dela, a Portela fez um desfile perfeito.

– Foi tudo novo naquele ano. Tinha a novidade do Sambódromo e ficamos com muita expectativa. Depois que inventaram esse negócio de supercampeonato, considero injusto não falarem tanto do título da Portela. Foi um desfile perfeito e também aclamado pelos julgadores.

O portelense, antropólogo e pesquisador Fábio Pavão lembrou o caráter transitório do Carnaval 1984 para opinar sobre o tema:

– Este carnaval é um carnaval de transição entre o modelo antigo e o que vigora até hoje. Ainda era o início e havia uma comissão julgadora para cada dia de desfile. Eram pessoas diferentes e parâmetros diferentes, o que não é o ideal. Até por isso, o carnaval teve duas campeãs. Já no supercampeonato, a comparação entre Portela e Mangueira não existiu, já que alguns quesitos plásticos não foram julgados no sábado seguinte. Por mais que a Portela tenha perdido pontos em alegorias e também em enredo, a comparação completa entre as duas não existiu – disse citando a ausência de julgamento dos quesitos alegorias, fantasias e enredo no supercampeonato.

– O samba é o principal daquele desfile. Até hoje é bastante tocado em todos os lugares e também o enredo, que toca os portelenses, cita as grandes referências da escola. Foi um carnaval muito representativo para todos, até pela novidade do Sambódromo. Tinha nove anos e lembro ter acordado pela manhã para assistir ao desfile da Portela – conclui Fábio Pavão.

À frente do departamento cultural da Portela, Luis Carlos Magalhães, que também é colunista do site CARNAVALESCO, traça um comparativo entre os dois desfiles. Na época, ele ainda não desfilava na Azul e Branco, mas assistiu ao desfile no recém-inaugurado Sambódromo.

– A Mangueira é como aquele chute de longe que pega na veia. Que julgador seria maluco de não apontá-la campeã depois daquele show do retorno na pista. E teve aquele samba que não era lá um grande samba, mas que virou um sambaço na voz do Jamelão. Mas a frustração é porque ali dava pra ganhar. E era uma vitória que ia chegar na hora certa, depois de tantos anos de jejum. Acho que entrou para o hall dos grandes desfiles por isso. Pela beleza do enredo, a facilidade de sua leitura, o samba que encantou e encanta até hoje. “O desfile que dava pra ganhar”. Do desfile a principal lembrança foi o samba da Portela. A Clara havia morrido há pouquíssimo tempo. Estava tudo na cabeça de todo mundo. E a homenagem a Paulo e Natal. O samba foi minha melhor lembrança. O arrepio. – disse o colunista, que lembrou também como fator positivo daquele carnaval o resultado obtido pela Unidos de Cabuçu, campeã do então Grupo 1B.

Sobre a inauguração do Sambódromo, Luis Carlos Magalhães contou alguns detalhes interessantes do palco máximo do carnaval carioca e também dos demais desfiles de 1984.

– O Brizola havia obrigado todas as empreiteiras a comprar um camarote para garantir casa cheia.  Eu trabalhava no governo e o Brizola obrigou a todos, até do terceiro escalão a comprar uma frisa, ou cadeira, sei lá. Só sei que comprei. Vi o desfile cercado de políticos. Minha atenção só se concentrou pra valer no desfile da Tijuca, que era sobre os árabes que sempre me fascinaram. Mas não foi um bom desfile. Gostei do enredo. E da Caprichosos, era o tempo do Luis Fernando Reis com a corda toda. Eu lembro que todo mundo parou de conversar para ver aquilo. Lembro também do visual do Salgueiro. Iluminou, parecia querer dizer como seria tudo depois. Outra lembrança forte que tenho é que eu trabalhava direto com Darcy Ribeiro. Ficava impressionado com seu brilhantismo e coragem ao enfrentar a burocracia do estado. Fui contra essa história de dois desfiles em dois dias para definir na outra semana. Eu tinha certeza que ia dar errado.

Quem também esteve presente no desfile daquele ano foi Jerônymo da Portela. Ele era diretor de evolução da Azul e Branco e responsável pela coreografia de toda a escola. Na opinião de Jerônymo a Mangueira foi superior a Portela e mereceu conquistar o supercampeonato de 1984.

– Na Avenida houve falha da harmonia. Tinham que ter parado a frente da escola na hora da bateria entrar no box para que as alas pudessem passar calmamente, sem deixar buraco. Vários buracos foram formados e foi tudo por água abaixo com um grande carnaval desperdiçado.

Jerônymo revelou alguns detalhes da escolha do belo samba de Norival Reis e Dedé da Portela.

– Foram inscritos mais de 50 sambas e o nível era muito bom. Só que esse samba desde o início despontou. Na final não teve jeito de escolher outro.

Portela-Tradição

Um fator histórico relevante na trajetória portelense em 1984 é a fundação da antiga Portela-Tradição, hoje a Tradição, que ocorreu em outubro daquele ano, mas que na época do desfile já deixava alguns resquícios de acordo com Jerônymo.

– Foi muito triste. Nunca pensávamos em uma separação, uma divisão. Houve uma reunião em que pessoas antigas tiveram que colocar a carteira da escola na mesa da reunião. Não tem como esquecer.

Já Tia Surica minimizou. Na opinião dela, a história das duas agremiações provam que a separação não gerou maiores efeitos na Portela. Na opinião de Fábio Pavão, o que aconteceu no desfile não teve muito a ver com a fundação da Portela-Tradição.

– Pelo que sei foi em razão do descontentamento de alguns diretores de ala e por questões políticas da escola – contou.

Em 1984, a Portela foi campeã do sábado de carnaval com 203,0 pontos, dois a frente do Império Serrano. Já no supercampeonato, ficou com o vice-campeonato, também dois pontos atrás da Estação Primeira de Mangueira.

Confira a ficha técnica do desfile da Portela de 1984
Enredo: ''Contos de Areia''
Ordem de desfile: 6ª escola a desfilar no sábado de carnaval, dia 03/03/1984 e 7ª escola a desfilar no sábado, dia 10/03/1984
Campeã no sábado com 203,0 pontos e vice-campeã no supercampeonato com 137,0 pontos
Carnavalescos: Edmundo Braga e Paulino Espírito Santo
Mestre Sala e Porta Bandeira: Paulo Roberto e Regina
Autores do Samba: Norival Reis e Dedé da Portela
Mestre de bateria: Mestre Marçal
Contingente: 4.500 componentes (estimativa)
Intérprete: Silvinho da Portela

Curiosidades do desfile/ano de 1984
 
– A comissão de frente da Portela em 1984 foi o símbolo de um tradição do carnaval. Todos os componentes da Portela de fraque e cartola
– A bateria de mestre Marçal tocou num andamento médio de 133 BPM (Batidas Por Minuto) no desfile. Ao contrário da maioria das baterias atualmente, a bateria da Portela não ''subia de três'' na cabeça do samba. Os surdos de marcação de primeira e segunda, do mesmo naipe, foram posicionados na mesma coluna da bateria. De um lado só surdos de primeira e do outro só surdos de segunda. A Tabajara do Samba também se apresentou com atabaques no meio da bateria
– A águia do abre-alas portelense sofreu críticas dos comentaristas da Manchete por estar com as asas fechadas. Ela apresentava movimentos na cabeça para ambos os lados.
– A escola apresentou fantasias volumosas e luxuosas com vários tons de azul diferentes.
– O som do Sambódromo apresentou-se muito precário durante o desfile da Portela e cavaquinho parecia extremamente desafinado
– A escola apresentou uma falha muito grande na evolução durante a entrada no segundo box
– Logo após a torre de tv, a Portela se desorganizou bastante, com carros parados e alas não obedecendo um bom padrão de evolução. Isso tudo antes da faixa de final de desfile. Os julgadores, porém, se concentraram na parte central da pista.
– Seguranças da Portela teriam agredido jornalistas na concentração.
– No caco ''Ê Bahia!'', feito pelo intérprete Silvinho da Portela, componentes davam um salto e jogavam as mãos para o alto
– A Portela apresentou uma segunda águia no último carro
– A cantora Elizeth Cardoso homenageou Clara Nunes no desfile.

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