São Clemente começa bem, mas ensaio cai de produção

A julgar pelo início de seu ensaio na noite deste sábado, na Marquês de Sapucaí, a São Clemente parecia que faria uma apresentação que dela se espera: repleta de alegria e vibração, mas a impressão deixada pela Preto e Amarelo da Zona Sul não foi exatamente essa. Com um grande contingente, a agremiação exibiu canto e evolução bastante irregulares ao longo dos 62 minutos de treino e mostrou que precisa trabalhar em cima de alguns quesitos para que o chão possa acompanhar a beleza plástica que deverá levar para a Avenida neste carnaval. Destaque positivo para o intérprete Igor Sorriso. Seu desempenho em 2011, nos eventos do mundo do samba e nesta noite, provam que a São Clemente não tem mais uma promessa, mas um cantor com C maiúsculo, que leva no nome uma das principais características da escola.
 

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Mesmo com mais de duas horas de atraso em relação ao horário previsto, Igor Sorriso mostrou logo de cara uma de suas características mais marcantes: o carisma. Brincou com o público dos setores 1 e 3, pedindo que os espectadores acompanhassem com as mãos para o alto e o grito de Buuu, um verso da primeira parte do samba da escola. O pedido foi prontamente atendido e o início do ensaio da São Clemente foi muito bom. A escola levou um tripé inicial com o nome do enredo e colocou algumas musas para marcar os locais das alegorias. Além disso, Kombis amarelas também marcavam o espaço físico das alegorias. Em cima de uma delas, Milton Cunha, ex-carnavalesco da São Clemente, no melhor estilo "Priscila, a Rainha do Deserto", roubou a cena e mexeu bastante com o público.
 

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– A São Clemente está mudando, mas sem perder a alegria. E os componentes estão incorporando essa mudança da escola. Estamos trabalhando para acabar com essa fama de escola ioiô. Na verdade, isso já faz parte do passado da São Clemente. Temos um samba que revive a São Clemente dos anos 80 e 90, o Igor Sorriso passa por um momento muito bom, então a gente está feliz com tudo isso – disse o presidente Renatinho.

Harmonia
Pena que a escola não tenha conseguido manter a pegada dos 15 minutos iniciais. Os dois primeiros setores passaram com os componentes cantando bem o samba, mas o mesmo não pôde ser visto a partir do terceiro setor, justamente o setor em que fica a bateria Fiel Clementiana. De maneira geral, os componentes que mais cantam o samba são os que desfilam perto da bateria, mas, estranhamente, isso não aconteceu neste ensaio da São Clemente. A ala atrás das passistas foi a que menos cantou. Com exceção da ala de passistas e da própria bateria, as alas desse setor participaram muito pouco do canto. O mesmo se viu nos dois setores seguintes, quando era possível perceber apenas alguns integrantes das alas cantando, outros conversavam ou simplesmente observavam as obras da Marquês de Sapucaí. A situação voltou a melhorar nos dois últimos setores, onde o rendimento foi bem parecido com os dois primeiros. Destaque para uma ala formada em sua maioria por meninas adolescentes, foi a que mais cantou em todo o ensaio.

Evolução
Assim como a harmonia, a evolução também teve seu destaque na passagem dos dois primeiros módulos, onde as alas mostraram a cara que a São Clemente tem. Muita alegria e espontaneidade, mas sem perder a organização. Logo depois, o cenário foi mudando completamente. A impressão que deu foi de falta de atenção dos diretores de harmonia principalmente no preenchimento da pista de desfile. É válido e louvável deixar o componente solto dentro da ala, mas é necessário ter o mínimo de organização nas extremidades e na distribuição do componente dentro da ala. Não foi raro ver aglomerados de componentes em determinado canto da ala, enquanto que no outro não havia praticamente ninguém. A entrada da bateria no segundo recuo também apresentou problema. A ala da frente não parou e abriu-se um pequeno buraco até que a ala de trás da bateria conseguisse alcançar a da frente. A exemplo da harmonia, a evolução ganhou em qualidade com os dois últimos setores do ensaio. Ressalva apenas para a sequência de três alas coreografadas no final da escola.

Bateria
A bateria da São Clemente também apresentou altos e baixos. Tocou num andamento um pouco mais acelerado que o comum e as bossas parecem encaixar bem no samba. De negativo a falta de uniformidade na batida das caixas, algo bem perceptível, e a também falta de uniformidade na afinação do surdo de 2ª, pelo menos três tonalidades diferentes puderam ser percebidas. Os tamborins também merecem destaque pela precisão e pelo desenho rítmico, simples, mas perfeito para o samba. Outro ponto que os mestres Gil e Caliquinho precisam ter atenção é na retomada da bossa que o violino toca sozinho. A virada das caixas apresentou falta de precisão.

– Trouxemos 240 ritmistas, dos 250 que estarão desfilando no dia oficial. Como não temos oportunidade de ensaiarmos em movimento, hoje foi o nosso verdadeiro teste e deu tudo certo, foi como eu esperava. Nossa carga horária de ensaios aumentou agora na reta final e estamos praticamente prontos para o desfile. Dentro dos próximos dias entregaremos as fantasias, vamos representar os violinistas. Executamos três bossas que irão para o desfile oficial. Duas na cabeça do samba e outra no meio. Uma delas, o violino toca sozinho, em outra fazemos o som do violino com os surdos e na outra fazemos uma coreografia junto com a bossa – explicou mestre Caliquinho.

Comissão de Frente
O grupo de bailarinos, formado por homens e mulheres, e coreografados pela estreante Cláudia Motta mostrou muito bom humor. Em dado momento, eles puxavam pessoas que estavam na pista para participar da coreografia. O público reagiu com vibração. Ressalva para o momento de início da apresentação. Mesmo não se tratando da coreografia oficial, houve certa hesitação para iniciar a exibição nas cabines.

– A gente fez uma coreografia especial em homenagem ao público que veio prestigiar o nosso ensaio técnico e que é composto, em sua maioria, por pessoas que não podem assistir ao desfile oficial. Mesmo não sendo a coreografia oficial, acho que o trabalho foi proveitoso. A comissão está ensaiando de segunda a sábado, em média, quatro horas por dia – afirmou a coreógrafa.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira  
Bira e Denadir mostraram que podem formar um belo casal. A expressão corporal de ambos é bastante semelhante: viril e clássica. E isso ficou bem claro na apresentação deles. Ela empunhou o pavilhão clementiano muito bem, deixando-o sempre esticado e ele a cortejou com bastante elegância. Faltou trazer mais coreografia para incrementar ainda mais a apresentação.

Samba-Enredo e Carro de Som
Pelo apelativo ‘Bububú no Bobobó’ esperava-se um rendimento melhor do samba. Mesmo com a belíssima interpretação de Igor Sorriso e seus auxiliares, alguns componentes clementianos pareceram não entrar no ritmo do espírito da agremiação. Talvez o atraso para começar tenha influenciado nisso, mas o fato é que a interação imaginada com a arquibancada também não aconteceu. No carro de som da escola, o violino esteve presente e foi bastante usado em bossas e arranjos durante o samba. Inclusive uma das bossas tem a participação solo do instrumento.
 

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