‘Se não fosse o samba estaria na cadeia’, afirma Wander Pires em entrevista ao CARNAVALESCO

Wander Pires está nas manchetes do mundo do carnaval. Sua vida deu uma guinada de 180 graus desde o fim do carnaval 2014, quando deixou a Imperatriz Leopoldinense. Uma grave doença o fez perder peso, ele foi contratado pela Portela, deixou a escola recentemente, realizou o sonho de ser campeão de samba-enredo na Mocidade e vai defender as cores da Estácio de sá na avenida em 2016.

* OUÇA AQUI O SAMBA DA MOCIDADE PARA 2016

Wander conversou com a reportagem do CARNAVALESCO e enfatizou que não sabe como seria sua vida, caso não tivesse vencido na carreira de intérprete. – O samba me deu tudo que tenho. Existe um acordo com a escola que estamos defendendo, um salário. E as disputas me dão a possibilidade de fazer outros tipos de acordo, entre eu e os compositores. Carro, imoveis e até pensões alimentícias. Já fui preso duas vezes e estaria lá até hoje se não fosse o pagamento dos compositores – afirma Wander Pires.

Um dos intérpretes mais consagrados da avenida, Wander tem uma forte relação com a Mocidade, onde começou em 1994 e entre idas e vindas já defendeu por nove carnavais a escola. E em 2016 a escola de seu coração vai cantar na avenida um samba de sua autoria. – Representa muito para mim esta conquista. São anos de luta, não só como compositor. Já tive em outras disputas, mas como intérprete e toda minha história dentro da escola, acho que um novo ciclo que se dá início. Sou reconhecido como cantor, mas não como compositor. Estou fascinado e extasiado com esse presente da Mocidade. Estou doido para ouvir meu samba no CD, na voz do intérprete – derrete-se. 

Contando com a inédita conquista na Mocidade, onde defendeu a própria obra, Wander Pires sagrou-se vencedor como intérprete em seis disputas no Grupo Especial e Série A. Ele conta que em janeiro já começa a procura dos compositores para contar com ele. – Quem chega primeiro tem exclusividade. Até maio tenho todo o planejamento fechado. Brinco que hoje sou colega dos compositores, pois entrei nesta seara também. Não me comparo aos grandes nomes, como Lequinho, Samir Trindade, André Diniz, Claudio Russo. Eu me tornei pé-quente nessas disputas graças mais a eles, que me possibilitaram defender grandes sambas e acreditaram em mim – afirma.

Sobre a saída da Portela, Wander enfatiza que ela nada tem a ver com a disputa de samba da Mocidade. – Conversei com o Falcon e ele me autorizou a concorrer. Ano passado quando fui contratado eu já estava na final da Mocidade. Logo que pude este ano, pedi permissão. Se ele não permitisse eu não iria concorrer. Tive liberação para faltar várias sextas de eliminatórias na Portela para cantar sambas em outras escolas – explica Wander, sem declarar o real motivo que motivou sua saída.

'Ninguém tem a presença do Wander dentro da Mocidade', afirma compositor Jefinho

O compositor Jefinho Rodrigues conquistou seu oitavo samba-enredo dentro da Mocidade. Mesmo sendo um dos grandes vencedores da história da escola, Jefinho afirma à reportagem do CARNAVALESCO que a entrada de Wander Pires na parceria conferiu grande força ao samba. – Não há o que questionar com relação à força do Wander dentro da escola. Ele já cantava sambas para minha parceria há algum tempo. Ano passado veio como compositor. Eu e Marquinho Índio decidimos convidá-lo esse ano. Acho que deu muito certo – exalta Jefinho.

Jefinho ainda não perdeu o brilho nos olhos e a ansiedade pela vitória, mesmo com tantas conquistas dentro da Mocidade. – Muita gente fala comigo, eu já ganhei muito samba, mas cada ano é sempre diferente. Esse foi muito especial, pois tive alguns problemas. Foi marcante pois passei por problemas particulares – explica o compositor.

Para o vitorioso poeta o dinheiro ganho com mais uma conquista quase não supre os gastos com todo o concurso. – Nos primeiros sambas que ganhei deu um dinheirinho, pois não se investia tanto. Ia com a torcida da comunidade. Hoje em dia não tem jeito. Ou você gasta muito ou perde o samba. Gastamos algo em torno de R$ 115 mil. Sem investidor fica muito complicado. Hoje quase nada se ganha – disparou.

Wander e Jefinho: 'As mudanças foram para melhor'

A Mocidade Independente de Padre Miguel, tal qual fez em 2015, fez consideráveis mudanças no samba em relação à obra vencedora. Para Jefinho Rodrigues as alterações deixaram a obra ainda melhor. – Foram mexidas pontuais para ajustes na letra e eu gostei bastante. O samba é da escola e ela tem direito de fazê-las – pondera Jefinho.

Wander concorda com o parceiro, mas considera que nem sempre isso ocorre. – Tem escola que mexe e descaracteriza o samba campeão. Se a obra venceu foi porque com aquelas características conquistou as pessoas. Aí mexem e parece um outro samba. Neste caso eu não concordo. Sei que o samba é da escola e pensam no melhor para a agremiação. Mas às vezes desvalorizam – opinou.

O intérprete e compositor explica porque acredita que o samba merece a nota 10 no desfile. – Temos um samba que é a cara da Mocidade. A mente de quem é Padre Migual, Estrela Guia. Completa qualquer componente da escola. Deixa as pessoas emocionadas. Samba é emoção. Por isso merece a nota 10 – diz.

Jefinho Rodrigues faz coro com a opinião do parceiro. – Temos uma melodia tocante. Refrão que exalta a emoção da escola e retrata bem o que o enredo expressa. Com certeza é nota 10 – declarou Jefinho.