Selminha e Nilce Fran dizem que o sambista é mal remunerado

“Como curador, eu poderia mediar qualquer uma das mesas, mas eu escolhi essa ”, disse o jornalista Aydano André Motta, na abertura do terceiro encontro do evento “Carnaval, que festa é essa?”, que aconteceu no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil). Assim como, o próprio intitulou, foi uma mesa “de respeito”, tendo como convidadas Selminha Sorriso (porta-bandeira da Beija-Flor) e Nilce Fran (passista da Portela), que discursaram sobre o tema “O chão do samba”.

Muito se fala sobre o tratamento dado ao sambista, e esse foi o primeiro ponto destacado pelo mediador, que direcionou a pergunta para Nilce Fran:

– Nós viemos de uma época muito complicada em se tratando de ala de passistas. Só que eu adoro dizer que, juntamente com Walcyr Pelé (passista masculino da azul-e-branco de Madureira), somos privilegiados. Hoje nós  temos, modéstia à parte, a melhor ala de passistas do samba. E, dentro da escola, temos livre arbítrio para trabalharmos. Então, nós podemos dizer que estamos sendo muito bem tratados na Portela. Posso dizer também que, vendo esse sucesso e trabalho da nossa ala, as outras escolas estão dando mais atenção as suas – ressaltou.

Em seguida, foi a vez de Selminha falar sobre o tratamento no samba:

– Não me recordo o ano agora, mas aconteceu. O jeito como trataram um mestre-sala consagrado na Estácio me entristeceu muito. Isso me motivou a sair de lá. Na época, as pessoas acharam que, por ser a Beija-Flor,  eu estava saindo por questão financeira, e não foi. O tratamento leva as pessoas a mudarem de local. Na época, eu vi o mestre-sala sendo humilhado na minha frente e, nesse momento, eu falei para dentro de mim mesma que não continuaria ali. E, alguns meses depois, o Laíla (diretor de carnaval da Beija-flor) me convidou, junto com o Claudinho. Sou bem tratada e respeitada na minha escola, porém o tratamento ao sambista ainda está longe do ideal – frisou.

Depois da primeira pergunta e das considerações das convidadas, o assunto abordado foi a remuneração. Nilce Fran foi categórica e sincera:

– Com certeza, o sambista é mal remunerado. Eu comecei a trabalhar e me dedicar ao samba foi com show de mulatas do “Plataforma 1” (famosa boate da década de 80). Desde lá você já começa a ver a discriminação. Não importa o lugar, o sambista é sempre o discriminado. Se o cachê é “Y”, o do sambista é um “X” lá embaixo. Até você conseguir provar sua qualidade, o sambista é o pior remunerado – resumiu.

Em cima da fala da convidada, Aydano citou seu ponto de vista, dizendo que a dança, que é o samba, deveria ser valorizada assim como qualquer outra, como o próprio ballet.

No meio do evento, Selminha contou uma curiosidade: o seu começo como passista.

– A minha primeira viagem representando uma escola foi no Império Serrano, para o carnaval em Nice, na França. Houve uma seleção com algumas passistas. Eu estava chegando ao Império e a Maria Augusta escolhia as duas moças para ir. E uma dessas eu fui eleita. Foi muito bom, fiquei muito encantada. Mas eu sempre tive um sonho, que era ser porta-bandeira, até a hora que me convidaram. Eu me inscrevi, porque antigamente a seleção era através de concurso. Tive que esquecer tudo que tinha aprendido como passista. Deveria estar toda vestida. Barriguinha de fora, nem pensar – disse.

Em seguida, o jornalista perguntou para Nilce, em tom de brincadeira, se ela tinha aprendido a sambar:

– Eu e Selminha começamos na contramão, porque o sonho do meu pai (o sambista Vanderley Pires), foi um grande bailarino e o tinha um sonho de ter uma porta-bandeira em casa. Em 1976, eu entrei na Avenida como porta-bandeira. Mas, ao contrário dela, eu queria liberdade para me exibir sozinha e não pegar na mão do camarada quando ele quisesse. Um monte de roupa em cima do meu corpo. Meu mestre-sala era até o gari Renato Sorriso. Enfim, meu pai montou uma escola de samba, que é a Rosas de Ouro. Todos que chegavam à escola e não sabiam sambar ele me pedia para ensinar. Desde pequena isso acontecia, não tinha mais vida. Na época do ginásio, ganhei uma bolsa e fui estudar dança e, depois disso, aperfeiçoei o jeito de ensinar o bailado. – ressaltou, aos risos.

Uma das perguntas feitas à Selminha foi sobre a responsabilidade da nota dos casais, por serem apenas duas pessoas buscando a nota máxima para a escola:

– Isso e complicado. Em 2007, tive uma dor de barriga na concentração. Foi complicado. Ainda bem que, no desfile, nada aconteceu. Eu sofro com o desfile de 2011 até hoje. Sorri com o título, mas por dentro eu estava triste. Nós fomos atacados muitas vezes. Tive problemas com a confecção da roupa e isso se estendeu até a concentração, por isso tivemos o atraso. Toda vez que toco neste assunto, eu choro por dentro, porque qualquer coisa que acontecesse na Avenida ia cair em cima de mim e do Claudinho, e ninguém ia querer saber de verdade o que tinha acontecido com a roupa. Depois vem a responsabilidade de cantar, sorrir, dançar e mais o óleo na pista. Foi muito difícil – confessou.

O próximo encontro no Centro Cultural Banco do Brasil está marcado para o dia 20 de setembro, às 18h30min. Na ocasião, o tema a ser abordado será “ Samba como economia e cultura”. Os palestrantes serão o presidente da Liesa, Jorge Castanheira,  o economista Carlos Lessa e o mediador e também economista Sérgio Besserman.