Seminário discute novas formas de financiamento para o carnaval de rua

O carnaval de rua do Rio ganhou uma dimensão que não pode ser ignorada. Os números indicam a força da festa e uma transformação que ainda precisa ser compreendida. Esses e outros temas foram discutidos neste sábado durante a oitava edição do “Desenrolando a Serpentina” promovido pela Sebastiana, no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), no Flamengo, Zona Sul do Rio de Janeiro. 

Cresceu, e agora? Como financiar o carnaval de rua no Rio? Na mesa ‘Formas de financiamentos para carnaval de rua’, foram debatidas as possibilidades de financiamento público e patrocínios privados para o carnaval de rua. Compuseram a mesa Fabiana Scherer, subsecretária de Arte e Fomento da secretaria municipal de cultura do Rio de Janeiro, Marina Bay, professora do departamento de Arte em Produção Cultural e no programa de pós-graduação em Cultura e Territorialidades da UFF, Rodrigo Resende, presidente da liga Zé Pereira, Vagner Fernandes, presidente da liga Zonna B que representa os blocos da Zona Norte e Oeste e Emílio Rangel, experiências de crowndfunding (financiamento coletivo) e um dos fundadores do Bloco Toca Raul.

O debate serviu também para tentar entender o que se iniciou sem nenhum tipo de preocupação e que no ano de 2000 começou a tomar grandes proporções com as ocupações das ruas, além de pensar nos desafios dos organizadores para poder dar conta do crescimento. 

'É preciso ter um gancho muito forte para justificar o crowndfunfing'

Um dos fundadores do Bloco Toca Raul, Emílio Rangel, explicou o que é o crownfunding e citou o lado positivo e negativo de usar o financiamento coletivo. – Usamos o crowndfunding logo no início, no nascimento do bloco. Foi vitorioso, mas muito mais pelo lançamento e por fazer o bloco acontecer, e também por juntar muitas pessoas em torno do mesmo objetivo, do que pela questão financeira. Conseguimos arrecadar cerca de R$ 15 mil, mas com a colocação de prêmios diferenciados, tivemos gastos com logística, inclusive de entregars que fez com que acabássemos gastando parte do dinheiro arrecadado.

Emílio ressaltou a diferença entre os tipos de blocos, já que existem os blocos maiores, que arrastam multidões, e aqueles considerados bairristas, onde o gasto para que esse bloco desfile é baixo. – No Pede Passagem, que sai na Gávea, nós recolhíamos algumas colaborações nos bares e restaurantes da região. Usamos o crownfunding para um apelo maior, nos 10 anos do bloco, e o valor arrecadado serviu apenas para pagar o carro de som. Eu não vejo o financiamento coletivo como uma alternativa muito expressiva, a não ser que se tenha um gancho muito forte para justificar a arrecadação e colaboração de todos.

‘O apoio é muito difícil, e no fim nos deparamos com quatro tipos de problemas’

Fundador da ZONNA B (Zonas Oeste e Norte de Núcleo de Blocos), Vagner Fernandes ressaltou a importância da iniciativa dos debates. – Acho essa iniciativa fundamental para que possamos efetivamente tentar uma busca de algo concreto para reorganização do carnaval do Rio. Também fundador do bloco Timoneiros da Viola, que tem como conceito a preservação da memória e a prestação de homenagem a Paulinho da Viola, Vagner afirmou que a criação da ZONNA B foi para fazer uma pressão positiva no poder público e privado, para que pudessem ajudar de alguma forma, já que hoje é impossível fazer um bloco, que atraia mais de 50 mil pessoas, com recursos modestos. – O apoio é muito difícil, e no fim nos deparamos com quatro tipos de problemas. Um na esfera municipal, onde a prefeitura não apresenta nenhuma linha para apoio direto aos blocos. A segunda na esfera estadual, que está relacionada aos editais, onde existe uma linha de financiamento que vejo como excludente, uma vez que exige uma declaração de apoio de patrocínio, e sabemos que conseguir essa declaração é muito difícil, além do teto que ele definiram para apoio aos blocos que é de 50 mil. Hoje em dia não se consegue colocar um bloco que arraste mais de 60 mil pessoas com apenas R$ 50 mil. Em nível federal é a questão da Lei Rouanet, onde só conseguimos enquadrar os blocos no artigo 26, onde a empresa patrocinadora só pode abater 50% do valor investido no Imposto de Renda. E por último a esfera privada, que efetivamente não colabora com os blocos de rua através do patrocínio.

‘O fomento direto me parece o caminho mais viável’

O presidente da liga Zé Pereira, Rodrigo Resende, considera que o fomento direto é o caminho mais viável e correto para resolver a questão do financiamento para o carnaval de rua. – Muito se fala no caminho de contratação dos blocos, o que não acredito que seja o caminho ideal. Um caminho que poderia ser estudado é de uma estrutura comum a todos, mas acredito que seja difícil, uma vez que existem blocos com vários perfis. Me parece que o mais viável é o edital, o fomento direto. A prefeitura acertou nisso, na questão da distribuição de tarefas para a Guarda Municipal, CET-Rio, Limpeza, etc. O que falta para gente agora é buscarmos o financiamento público. Gostaria muito que hoje, esse debate, fosse um marco para começarmos a solucionar essa questão.

‘ Precisamos considerar a diversidade territorial e o impacto social’

Professora do departamento de Arte em Produção Cultural e no programa de pós-graduação em Cultura e Territorialidades da UFF, Marina Bay, após mapear 570 blocos entre os anos de 2013, 2014 e 2015, cruzar com os dados oficias e os extraoficiais, detectou que sua maioria foi criada após o ano 2000. Entre eles 20% saem no Centro e 28% na Zona Sul. O que faz salientar que não se deve pensar no carnaval de rua só na questão do financiamento, mas também na questão da homogeneização uniforme e na questão territorial. – Temos que considerar a diversidade territorial e de impacto social. A sustentabilidade do bloco para além do período carnavalesco. Não pensar só na regulação, mas no planejamento mais amplo que envolve todas as esferas. E também nos limites da valorização da identidade dos blocos, formas específicas de brincar carnaval e até onde vale a pena ir para conseguir esse dinheiro.

‘Não temos uma lei voltada para o carnaval’

A subsecretária de Arte e Fomento da secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Fabiana Scherer, ressaltou que não acredita que a produção cultural se torne autosustentável, sempre haverá uma dependência do poder público, mas acredita que é preciso encontrar uma contrapartida. – Os blocos cresceram geometricamente e aritmeticamente não. Infelizmente não temos uma lei voltada para o carnaval de rua. Temos editais que os blocos podem se escrever, como os de festas populares e eventos de rua. Acredito que vocês, como representantes deste nicho podem e devem se aproximar mais da secretaria, mostrar projeto, planejamento que também possam ser transformados em uma política pública. Acredito nos blocos, temos que transformar a festa em uma manifestação cultural. As pessoas precisam entender isso como movimento cultural e pensar na festa de forma diferenciada.

A presidente da Sebastiana, Rita Fernandes, encerrou a mesa afirmando que a conversa precisa ultrapassar as barreiras do auditório. – Precisamos entender que tamanho nós temos, as formas de financiamento direto e desburocratizar os editais. Porque nem todos sabem chegar até vocês (poder público). Prometam que vocês vão se esforçar junto as suas secretarias, para criar uma agenda, porque precisamos começar de alguma forma.