Seminário exalta irreverência da União da Ilha, Caprichosos de Pilares e São Clemente

Ícones dos desfiles irreverentes, soltos e críticos nos anos 70 e 80, Caprichosos de Pilares, São Clemente e União da Ilha foram o tema do oitavo seminário Escola de Inovação, realizado na noite desta sexta-feira, na Finep, Zona Sul do Rio. O evento teve a organização do jornalista Fábio Fabato, que indagou logo no início do bate-papo: – É possível transmitir para o carnaval atual a maneira que essas agremiações desfilavam nas épocas citadas? Para responder, um seleto time de convidados. Maria Augusta, carnavalesca da União da Ilha na década de 70 e grande nome do nosso carnaval. Luiz Fernando Reis, que já foi carnavalesco das três escolas e atualmente é comentarista da Radio Tupi. Vicente Datoli, assessor de imprensa da Liesa, filho de Próspero Datoli – ex-vice-presidente da Caprichosos – e torcedor fanático da azul e branco. Fábio Ricardo, atual carnavalesco da São Clemente e apontado por muitos como um sopro de criatividade no carnaval contemporâneo. Roberto Gomes, vice—presidente da São Clemente e participante ativo da história da agremiação. Carlinhos Fuzil, compositor multivencedor da União da Ilha. E Anderson Baltar, jornalista, torcedor da Tricolor Insulana e responsável pela manutenção de grande parte do acervo histórico da agremiação.

Antes de o tema ser colocado em discussão, um vídeo produzido pelo próprio Fabato emocionou os presentes. Ele mostrava imagens históricas de desfiles e trechos de reportagens que evidenciavam o motivo da homenagem. Anderson Baltar chegou às lágrimas e pediu que as escolas mantivessem as suas respectivas identidades.

– A Ilha tem que ser a Ilha. O Insulano gosta dessa história de botar molho inglês na feijoada. O bububú no bobobó é cara da São Clemente. Elas não precisam se violar para chegarem ao título. A história diz que todas as vezes que elas tentaram seguir um caminho diferente de suas identidades não foram felizes.

Já a carnavalesca Maria Augusta lembrou saudosa os antigos carnavais irreverentes.

– Tenho muita saudade dessa alegria no carnaval. Isso está cada vez mais pesado para mim. O nosso carnaval ficou sério demais, de uma maneira bastante perigosa. O carnaval foi feito para você sair do cotidiano, é uma efervescência. Acho muito importante, encontros como este aqui para que possamos debater isso.

Para Vicente Datoli, um detalhe muito importante ao longo da história pode ter influenciado bastante na atual conjuntura dos desfiles. Ele citou o desfile da Caprichosos em 1985, e classificou como injusto o resultado daquele ano.

– Será que se tivessem tido coragem de dar o título para a Caprichosos em 85 as coisas teriam tomado o rumo que tomaram? Desculpe-me as escolas que foram para o desfile das campeãs naquele ano, mas o público não viu a melhor escola passar na Avenida. Foi a única vez que um político teve coragem para dizer que o resultado do carnaval tinha sido errado. O Marcelo Alencar disse, na época, que a Caprichosos merecia ser a campeã. E a Prefeitura nos convidou para desfilar na Sapucaí, no sábado seguinte, mas nós dissemos não. O nosso desfile das campeãs foi em Pilares, no mesmo dia e horário do da Sapucaí. Lembro que a Globo mandou o mesmo número de pessoas que estavam cobrindo o desfile na Avenida, para cobrir o nosso desfile em Pilares.

Muito aplaudido pelas suas sacadas bem-humoradas e inteligentes, Luiz Fernando Reis citou uma alegoria do desfile de 1985 da Caprichosos de Pilares para exemplificar como era feito o carnaval na época.

– A alegoria foi feita com frutas e legumes reais de uma feira. Nós fizemos amizade com o Sindicato dos Feirantes e eles nos venderam. Ao final do desfile, demos para o público da arquibancada. Duas horas antes de entrarmos na Avenida, as frutas ainda não tinham chegado e eu estava ficando desesperado(risos)… O carro se não tivesse as frutas e legumes era só madeira.

Ele fez duras críticas ao julgamento atual do carnaval. Em sua opinião, o corpo de jurados está viciado em um modelo e isso acaba afetando a manutenção da identidade de algumas escolas.

– Se alguém fizer isso hoje está frito. Vejo escolas entrarem na Avenida com 9,7 como nota máxima, como é o caso da São Clemente. A escola ganhou notas no último carnaval que são uma vergonha. Tem julgador que está lá há 15 anos dando dez para a Beija-Flor. Não é possível, alguma coisa está errada. Não duvido que dos 15 anos ela não tenha merecido o dez em 12 anos, mas sempre dez é impossível. Isso inibe o diferente.

Anderson Baltar concordou e pediu respeito às diversidades de cada escola na hora da avaliação e Vicente Datoli opinou.

– Hoje é muito cômodo para o julgador fazer isso. A oitava colocada quer sempre fazer a mesma coisa que a terceira colocada. Essa atitude não é positiva para que os jurados entendam que deve haver essa diversidade de estilos.

Quem convive diretamente com esse dilema em sua função é Roberto Almeida, ele deu o seu testemunho sobre a questão.

– A competição te dá a impressão que é preciso fazer um desfile todo certinho, politicamente correto, mas nós já vimos que ficar no eixo não adianta muito. Não está dando certo. Então agora nós vamos sair do eixo (risos). Em 2012, a São Clemente vai ser assim. Depois que o Ivo de Almeida(fundador da escola) faleceu, a São Clemente foi tomada por uma vontade muito grande protestar, de mostrar aquilo que estava errado. Era um momento que o país passava por esse sentimento e os grandes responsáveis foram o Carlinhos de Andrade e o Roberto Costa. Nesse momento, a escola mostrou a sua cara irreverente.

Outro a emocionar o público com seu depoimento foi o compositor Carlinhos Fuzil. Ele disse que deve ao samba tudo o que tem hoje na vida e contou um pouco de sua história.

– Comecei no Boi da Ilha e lá tive contato com todos os mestres que compuseram sambas para a Ilha: Didi, Franco, Aroldo Melodia, Aurinho e etc… Convivendo com esses mestres eu aprendi o que significa fazer samba para a União da Ilha. Escola de samba é muito mais do que qualquer julgamento. É uma escola de vida. O samba foi o meu pai. Desde os oito anos de idade eu vivia largado na rua e o samba me deu casa, comida, minha mulher e minha família. A escola de samba aproxima as pessoas. Eu era fã de Aroldo Melodia e me vi anos depois fazendo samba ao dele. Isso é fantástico.

Apesar do tom nostálgico da conversa, Maria Augusta elogiou bastante o trabalho feito por São Clemente e União da Ilha. Ela falou sobre as fantasias da agremiação insulana.
 
– Melhor do que ela não vai ter. Igual pode ser, mas melhor é difícil. O trabalho do Alex está genial. É uma proposta diferente e que nos dá orgulho de ver e saber que a escola está nas mãos de alguém que tem a preocupação de fazer a Ilha como ela é. O Fábio Ricardo idem. O traço dele é diferente.
 
Alvo dos elogios de Maria Augusta, Fábio Ricardo aos poucos foi deixando a timidez de lado e mostrou-se alinhado ao que estava sendo debatido.
 
– Trabalhei dez anos como figurinista do Max e aprendi bastante com ele, além dos estilos do Renato Lage e da Rosa Magalhães, que me fascinam por diferentes motivos. Tenho o meu estilo, mas não posso impor nada. É uma conversa, tenho que estar de acordo com aquilo que a escola é. Tenho certeza que dá para fazer o politicamente incorreto, mas de uma forma mais moderna. É isso que vamos fazer em 2012 –  afirmou, adiantando que tem vontade de reeditar, dando uma outra abordagem, o enredo ‘Alice no Brasil das maravilhas’ (Beija-Flor 1991).
 
No fim, os intérpretes das três escolas homenageadas cantaram sambas antigos e o que cada um delas levará para a Avenida em 2012.

Comente: