Seminário reúne Rosa Magalhães e Renato Lage no CCBB

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Simplesmente os maiores campeões da Marquês de Sapucaí. Renato Lage, com quatro, e Rosa Magalhães, com cinco títulos, foram os convidados do primeiro dia de palestras do seminário “Carnaval, que festa é essa?”, promovido pelo jornalista Aydano André Mota, que aconteceu na noite desta terça-feira no Centro Cultural Banco do Brasil.

Com a plateia lotada e mediação do pesquisador e escritor Felipe Ferreira, os carnavalescos falaram sobre diversos temas, como a produção do carnaval e a estrutura das escolas de samba por onde passaram. A continuidade do trabalho dentro de uma agremiação, o tamanho das alegorias, desenvolvimento de enredos e inovação do carnaval também não ficaram de fora.

O seminário começou com a apresentação dos convidados pelo mediador e com Rosa Magalhães mostrando que estava em mais uma noite inspirada, como as últimas palestras em que se apresentou recentemente. Os dois convidados concordaram que a cada ano que passa dentro do barracão, o carnavalesco tem que aprender a se adaptar aos fatores novos e particulares de cada agremiação. Os dois destacaram que a continuidade no trabalho dentro das escolas de samba é muito importante e que o carnavalesco que vive trocando de uma para outra acaba perdendo sua identidade artística.

Rosa e Renato se mostraram saudosistas da época em que os barracões ficavam fora da Cidade do Samba. Se por um lado as melhorias na estrutura são gritantes, perdeu-se a surpresa e o impacto que o trabalho causava quando chegava na Marquês de Sapucaí. Porém, a construção da Cidade do Samba acabou unindo as pessoas que trabalham dentro dos barracões. Sempre que um precisa, o outro ajuda, deixando a rivalidade apenas para o dia do desfile oficial.

Conhecidos por serem dois carnavalesco à moda antiga, ou seja, aquele que cria todos os setores do desfile, desde a ideia do enredo, passando pela sinópse, desenhos de fantasias, alegorias e produção do desfile, os palestrantes afirmaram que não existe problema em uma agremiação possuir uma comissão de carnaval, mas que preferem liderar as pessoas que trabalham junto com eles na concepção do desfile.

– Comissão é possível. Quando o Fernando Pamplona juntou, Arlindo Rodrigues, Lícia Lacerda, Joãozinho Trinta, eu e Maria Augusta ninguém brigou com ninguém. Cada um fazia seu trabalho e se preocupava com seu setor específico. Já havia o Laíla, como diretor de carnaval, que focava no desfile. O Pamplona se apegava mais a música, e assim cada um fazia o seu. Portanto, comissão de carnaval é algo possível. Na Tradição éramos seis. O João Nogueira fazia o samba e aí começava o carnaval. Era muito simples – disse Rosa.

Renato Lage afirmou que formar uma comissão de carnaval é algo válido, mas que tem que saber fazer para que não se perca a mão do desenvolvimento do desfile.

– O carnavalesco é que tem que dar o tom do desenvolvimento. Mesmo tendo outras pessoas, como a Márcia, que trabalham comigo, você tem que saber orientá-las para que não se perca o desenvolvimento desejado. Eu sou um profissional que gosta de dar o tom do trabalho – concluiu o carnavalesco do Salgueiro.

Rosa Magalhães frisou que o profissional que trabalha em uma agremiação precisa ser um pouco mais valorizado, pois existe um preconceito contra o figurinista de escola de samba que tenta fazer um trabalho fora do carnaval. A maior campeã da Passarela do Samba afirmou que o trabalhador enfrenta muita dificuldade para se colocar no mercado de trabalho que não seja nas escolas de samba.

Um dos momentos que mais arrancou aplausos do público se deu quando o mediador pediu para os palestrantes opinarem sobre os jurados. Em uma sacada genial, Rosa Magalhães disse que seu pai foi jurado do primeiro concurso, vencido pela Mangueira. Já Renato Lage preferiu não entrar em detalhes sobre o julgamento.

Renato lembrou as dificuldades enfrentadas pelo Salgueiro no desfile de 2011, onde um problema para tirar as alegorias da Passarela, fez a escola estourar o tempo em dez minutos e tirou suas possibilidades de brigar pelo campeonato.

– Sabíamos do tamanho dos nossos carros. Por isso a presidente contratou quarenta pessoas para tirar a escola da Avenida. No dia do desfile tinham quinze e, mesmo assim, quando chegamos lá, o motorista que devia estar no carro alegórico não estava. Outras pessoas sumiram. Enfim, é complicado você saber exatamente o que aconteceu – disse Lage

Os artistas comentaram o crescimento das alegorias e afirmaram não fazer parte de seus planos desenvolver carnaval fora do Rio de Janeiro. Os dois concordaram que o próprio carnaval de São Paulo chega a ficar feio pela grandiosidade dos carros alegóricos que fica desproporcional em relação ao restante do desfile. Responsáveis por grandes enredos apresentados na Marquês da Sapucaí, ambos disseram que não se sentiriam bem sendo enredo de alguma escola de samba menor. Renato comentou que foi homenageado por uma agremiação chamada Gato de Bonsucesso (escola de samba atualmente no Grupo de Acesso D), mas por estar envolvido no carnaval salgueirense não pôde acompanhar de perto o desenvolvimento do desfile.

Com o enredo sobre Angola já anunciado para o próximo carnaval, Rosa Magalhães afirmou que será um novo desafio fazer um enredo afro novamente (o último foi “Festa para um Rei Negro”, no Salgueiro em 1971).

Momentos marcantes

É muito difícil falar de Renato Lage sem falar de Mocidade Independente de Padre Miguel e vice-versa. O carnavalesco revelou que não achava que a parceria entre os dois poderia dar certo quando assumiu a escola da Vila Vintém.

– Sem dúvida nenhuma meu momento mais marcante foi o primeiro ano na Mocidade. Eu não achava que as coisas fossem dar certo como deram. Ainda mais depois que a escola foi penalizada em cinco pontos e se recuperou com as notas dez em todos os quesitos. Na apuração, víamos que as outras escolas iam perdendo pontos e a Mocidade ia subindo na classificação. Foi uma virada literalmente e em todos os sentidos -disse Renato.

Para Rosa Magalhães o momento mais marcante foi a primeira vez que assistiu aos desfiles de escola de samba, pois havia ajudado a produzir o carnaval do Salgueiro sem saber o que era a festa.

– A minha maior emoção foi a primeira vez que assisti ao desfile de escola de samba. Havia ajudado a fazer o carnaval do Salgueiro sem nunca ter assistido esse espetáculo. Ajudei a colocar a escola na Avenida e subi para a arquibancada, da qual tinha comprado um ingresso, para poder ver o que tinha feito. Quando vi o trabalho que ajudei a fazer na pista foi muito emocionante – afirmou Rosa.

Ousadia no carnaval

Rosa Magalhães chamou a atenção para o conceito de ousadia. A carnavalesca disse que é preciso ter mais atenção com o que se leva para a Avenida, pois, é preciso ter cuidado para que a inovação não se torne algo que não acrescente nada ao desfile da escola de samba.

– Existe ousadia e ousadia. Tem ousadia que é boa como a do Joãozinho Trinta que revolucionou o conceito de carnaval no primeiro ano dele na Beija-Flor. Aquela ousadia foi boa e acabou criando uma linha de seguidores. Mas tem a ousadia que não é legal, como o homem voador na Avenida. Foi primeira página de jornal, mas aquele homem apitando e passando de um lado para o outro acabou sendo uma ousadia que não foi interessante – afirmou a carnavalesca da Vila Isabel.

Renato Lage lembrou os preconceitos que enfrentou quando começou a trazer novos elementos para os desfiles de escola de samba, quando estava na Mocidade Independente.

– Tudo que vai à contramão daquilo que o pessoal está acostumado é polêmico. Hoje o trabalho do Paulo (Barros, carnavalesco da Unidos da Tijuca) é uma ousadia e acaba sendo polêmico. Eu passei por isso na Mocidade. A ousadia no carnaval é boa, pois, se todos fossem iguais o carnaval seria muito chato. A ousadia faz bem para as pessoas que estão assistindo – concluiu Renato.

Aproveitando o gancho da ousadia, o mediador indagou os entrevistados sobre a colocação de alegorias humanas nos desfiles atuais. Nenhum dos dois palestrantes se mostrou muito a vontade para utilizar desse artefato, mas fizeram questão de frisar que quando começaram, o número de composições das alegorias eram bem menores. Mesmo diminuindo o número de destaques no último carnaval, Renato Lage disse que o Salgueiro desfilou com mais de trezentas composições de alegoria.

No fim do encontro Rosa e Renato lembraram que a comissão de frente é um grande aperitivo para um desfile bem feito e que o trabalho desenvolvido pelos coreógrafos acabou facilitando a vida do carnavalesco. Ambos agradeceram a oportunidade de falar sobre a nossa festa maior e destacaram a participação daqueles que são apaixonados por Carnaval e fazem de tudo para defender a memória do que é a maior expressão cultural popular do Brasil.

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