Série Barracões: Alex de Souza segue no caminho da Vila Isabel porta-voz da Kizomba e da causa negra

0 Flares 0 Flares ×

Desde o último título da Unidos de Vila Isabel em 2013, quando cantou a pluralidade do homem do campo, a escola teve seus altos e baixos nos carnavais seguintes. Em seu último desfile, apesar de ter sido muito criticada no pré-carnaval, surpreendeu a todos com um belo desfile desenvolvido pelo carnavalesco Alex de Souza. Indo para seu segundo ano consecutivo assinando o carnaval da Vila, Alex de Souza abriu o barracão da azul e branca e confidenciou alguns detalhes do próximo carnaval para o site CARNAVALESCO. Segundo ele, o enredo é muito mais do que a menção aos ritmos musicais que tiveram influência negra, mas também é um grito de alerta a intolerância que está cada dia mais evidente.

vila1– Essa é uma ideia que tenho há bastante tempo. A cultura negra é mencionada volta e meia em desfiles, afinal, toda escola de samba tem herança africana. Como a presença negra no Brasil é extremamente forte isso já serviu de enredo muitas vezes. Ao lembrar de Louis Armstrong, Stevie Wonder e até mesmo o próprio Michael Jackson, pensei porque não ampliar essa importância que o negro tem no nosso país? Precisamos ampliar essa importância que o negro tem no Brasil, lembrando não só dos intérpretes e compositores, mas dos ritmos que foram criados por escravos e seus antecedentes séculos atrás. O Brasil foi o país que mais recebeu negros escravos durante os séculos, nossa herança é enorme em diversas áreas – explica.

Ainda sobre o seu processo criativo, o artista ampliou a leitura do enredo para que toda influência negra não ficasse de fora.

vila3– O enredo trata da herança musical, os ritmos, a dança, o que virou legado dessa presença negra no novo mundo. Um apanhado histórico cultural de várias regiões do continente americano onde houve presença negra no trabalho escravo, resultando positivamente em termos musicais. Nasceram ritmos e gêneros musicais passaram pela influência da cultura espanhola, ameríndia, mudando o tempo todo.Isso tudo influenciou a forma da vivência negra, com músicas que expressam tristeza, fé e alegria. São três ingredientes que vão motivar o surgimento de gêneros musicais em qualquer circunstância em qualquer um desses lugares.

Nos dias de hoje vivemos a retomada de um certo espírito reacionário contra a intolerância de toda ordem seja racial, sexual, religioso. Um dos desfiles históricos da escola e que seu samba onde quer que seja cantado é aclamado é “Kizomba – Festa da Raça”. Ciente disso, Alex garante que “Kizomba” fará parte do desfile, e tem a responsabilidade de emocionar o componente no último setor.

vila4– O encerramento do enredo vai chegando no samba carioca, que vem do recôncavo baiano. Chega nas fundação das escolas, do samba-enredo, e pra chegar nas escolas não poderíamos deixar de falar naturalmente de “Kizomba”. Esse enredo tem muitos significados, é emblemático. Primeiro porque é um dos sambas mais conhecidos e consagrados, calhou de ser exatamente no ano do centenário da abolição da escravatura, e é a própria Vila. A escola tem característica de ser porta-voz dos movimentos sociais e da causa negra. Isso não podia terminar melhor, fazendo uma homenagem a escola através desse enredo. Tem um lado muito raiz da escola, afetivo, resgatar 88 que é importante para o mundo e ainda mais para a Vila. Se Kizomba é a festa da raça, encerraremos muito bem. Espero que sensibilizem com isso, que possam realmente dar valor e mérito a esse enredo que eu modéstia parte acho excelente – ressalta.

Num enredo onde a negritude é aclamada, diversos pontos chamaram atenção do carnavalesco. Um grande fato que aconteceu em 1988 e também acontecerá em 2017, será a participação do histórico “Jongo da Serrinha” no desfile da Vila.

– Cada hora é uma descoberta, naturalmente pesquisei muito em livros e internet. Conversando com as pessoas do movimento negro vamos descobrindo histórias importantíssimas, uma delas que colocaremos nesse desfile é a presença do Jongo da Serrinha. Porque é o ritmo que muitos consideram como pai do samba, através daquelas últimas levas de escravos. Já com a proibição do tráfico negreiro, os negros chegavam de forma clandestina, como se fossem contrabandeados como mercadoria. Com a fuga de alguns para os quilombos, o jongo foi desenvolvido. Inicialmente no interior do Rio de Janeiro, tomando conta das favelas. Era um ritmo comum antes do samba, com o tempo e a morte dos grandes mestres jongueiros, foi desaparecendo. Então o Jongo da Serrinha surge como forma de resistência para manter tradições culturais. Fez parte em 88 e fará também nesse ano. Acaba sendo uma homenagem estendida ao Império Serrano, ao jongo e a Clementina de Jesus que era uma grande jongueira – garante.

Em tempos onde o preconceito e a intolerância tomam conta das redes sociais, Alex acha necessário, mais uma vez, a Vila reafirmar seu posicionamento diante de todo o cenário.

vila2– Toda a importância do enredo é uma grande mensagem. Nossa reafirmação da importância negra na cultura mundial, muito além do continente americano. Ainda hoje existem pessoas que acham que postar algo de conteúdo racista, homofóbico ou de injúria em relação a religião está certo. Pra mim, é um enredo que está no momento importante de ir contra tudo isso. É necessário aprender coisas novas que não são ensinadas na escola, de reconhecer esse valor que vai muito além da cor. Passa por um tom de pele mas na verdade é a humanidade.

Apesar da reclamação habitual de grande maioria dos carnavalescos a respeito da iluminação da passarela do samba, ele explica que iluminação nos carros alegóricos é essencial.

– Valorizo demais o trabalho de iluminação. Meu projeto já é pensado para que possa existir os efeitos da luz. O carnaval visto como espetáculo precisa como qualquer um outro de um bom trabalho de luz. Isso vai valorizar a alegoria, dramatizar, e até mesmo ajudar a contar a história. O que eu reclamo, e acho que todo carnavalesco já reclamou um dia é a iluminação da Sapucaí. Mata muitas possibilidades que gostaríamos de fazer e ficamos limitados. Acaba sendo realmente um milagre conseguir dar efeitos nos carros.

Mesmo com as diversas mudanças no regulamento da Liesa para 2017, Alex conta que não precisou mudar nada em seu projeto.

– Tudo acontece de novo nesse desfile. De tempos em tempos há um ‘reset’. Quando deixou de ser Marquês de Sapucaí com arquibancadas montáveis e virou Sambódromo criado por Oscar Niemeyer mudou completamente. No primeiro ano as escolas vieram com características que já vinham, no segundo e terceiro ano começaram a explorar larguras e alturas. A mudança no primeiro ano sempre serve como cobaia, tem escolas que vão passar na boa e pode ser que algumas possam ter problemas – finalizou.

Conheça o desfile da Unidos de Vila Isabel

Setor 1

“A chegada dos negros ao continente, desde a travessia do Atlântico”.

Setor 2

“Se inicia na América central, região das Antilhas, Caribe, com os ritmos cubanos, jamaicanos e outros”.

Setor 3

“Pegamos países da América do Sul com língua espanhola. Colômbia, Argentina, Uruguai, lugares onde tenha presença negra e que produziu algum tipo de música ou ritmo”.

Setor 4

“Sul dos Estados Unidos, plantação de algodão e o princípio do blues, jazz e gospel”.

Setor 5

“Música mais moderna, rock’n roll, soul, disco music, rap, hip-hop, techno music, o show. A música que vai para os palcos e grandes eventos em estádios e shows que rodam o mundo”.

Setor 6

“Viemos para o Brasil, onde mostramos o país colônia, o sincretismo religioso. O folclore com sua música, a música do interior e as regionais”.

Setor 7

“No Rio de Janeiro, no período da colônia e depois o Rio em na fase do império prestes a começar república. Coincidindo ser um ano após a abolição. Que muitos negros que vem de diversas partes do Brasil para o Rio de Janeiro. Começando toda revolução de novos ritmos e músicas. Um marco da gravação do primeiro samba, por telefone feito pelo Donga. Foi criado em 1916 mas gravado em 1917, estamos ainda nesse biênio do primeiro samba registrado. As escolas de samba, o gênero samba-enredo e encerrando com uma grande Kizomba”.

Ficha técnica:

Enredo: “O som da cor”
Quantas alas: 26
Quantas alegorias: 6
Quantos tripés: 2
Carnavalesco: Alex de Souza
Ateliê: Aquarela Carioca
Ferragem: Romário e equipe
Esculturas: Flavinho
Fibra: Renato
Parintins: Roci, Michel, Adson
Pintura de arte: Gilmar e Cássio
Carpintaria: Futica
Costura: Tia Tânia
Iluminação: Fabiano
Aderecistas: Delfim, Bruno, Wellington
Número de componentes previstos para desfilar: 3200
O que representam as baianas e quantas são: 80 – O campo de algodão
O que representa a bateria: A parte moderna da música – MCs

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×
0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×