Série Barracões: Cid Carvalho diz que Unidos de Bangu vai surpreender

Por Matheus Emanuel

A Unidos de Bangu abrirá os desfiles da Série A no Carnaval de 2018 com o enredo “A Travessia da Calunga Grande e a Nobreza Negra no Brasil” desenvolvido pelo carnavalesco Cid Carvalho. O site CARNAVALESCO entrevistou Cid para saber o que a Unidos de Bangu está preparando para o seu desfile nesta sexta-feira de carnaval. O artista desmembrou o enredo escolhido pela escola da Zona Oeste, deixando claro que vem para surpreender o público da Marquês de Sapucaí.

cid_bangu– Uma coisa que sempre me incomodava era quando eu lia que determinada pessoa era ser descendente de escravo. Uma coisa que me perturbava, pois ninguém nasceu escravo, nenhum negro nasceu escravo. Isso me incomodava um pouco e eu procurei entender porque isso me incomodava tanto. Me aprofundei na história e cheguei a conclusão que muitos dos chamados escravos que vieram pro Brasil eram reis, rainhas, príncipes, princesas, nós tínhamos aqui no Brasil colonial a nobreza negra muito presente. Acho que foi aí que deu o “estalo”, se eu tinha reis e rainhas, uma verdadeira nobreza negra aqui no Brasil, isso me ajudaria a desconstruir essa história de que fulano de tal era descendente de escravo, ele poderia muito bem ser descendente de um rei e de uma rainha. Eu pretendo exaltar essa nobreza negra que veio pro Brasil, com corpo escravizado, mas essa nobreza era tão poderosa que mesmo aqui com todo o sofrimento das senzalas, todo o açoite, eram tratados e reconhecidos pelos seus irmãos de cor como tal. A hierarquia que existia na África também se repetia aqui, ao ponto de essa nobreza liderar de certa forma todos os movimentos de libertação de escravo, inclusive, com a formação dos quilombos e posteriormente o ritual de coroação desses reis ganhou tamanha importância que passaram a acontecer dentro das igrejas. Eram símbolos do poder do Brasil colonial. Lógico que naturalmente aconteciam nas igrejas de santos negros, Nossa Senhora do Rosário e são Benedito quase sempre, essas coroações eram feitas diante do altar, somente depois de coroado rei e rainha que eles iam pra parte externa da igreja e aí a batucada comia solta. A gente pega depois a influência dessa coroação na nossa cultura. Ao ponto de eu defender que a cultura genuinamente brasileira só se deu depois da chegada dos negros. E aí a gente pode falar de congada, de coroação de reis e rainhas do maracatu, uma série de manifestações culturais onde a gente tem como ponto principal a coroação de um rei negro e de uma rainha negra. Eu achei muito interessante quando eu faço no setor da escravidão, a presença de reis que vieram da África, como Agotime e de outros reis que se tornaram reis aqui como Zumbi dos Palmares, mas você vê que há uma herança dessa nobreza – disse.

Cid enalteceu a diretoria da escola que segundo ele está proporcionando boas condições de trabalho para sua equipe. Ele também comentou sobre a sua escolha pouco comum para um carnavalesco com sua bagagem, assumir uma escola que está subindo para a Série A.

– O grande milagre desse ano é a diretoria da Unidos de Bangu. Não sei se é a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito que estão ajudando, mas a escola acabou de subir, num ano de extrema dificuldade, mas a diretoria da escola está se virando literalmente nos trinta e a gente vai fazer uma apresentação muito digna, certamente vai surpeeender muita gente. Lógico que a gente está usando material alternativo, modificando muita coisa, reciclando esculturas que foram usadas em escolas do Especial, tudo isso que a Série A já usa naturalmente por conta das dificuldades financeiras. Eu gosto de desafio, sou ariano, o desafio pra mim é como um fermento, uma injeção de ânimo, é uma força a mais para a gente se dedicar, buscarmos soluções, vejo pelo lado positivo, abrindo com um sambão e com um desfile bacana a gente tem a possibilidade de surpreender e não só ficar no grupo, como buscar uma colocação melhor – analisou.

Cid Carvalho relatou os motivos pelos quais acredita que Unidos de Bangu fará um bom desfile e também contou o modo em que a narrativa vai ser contada na Avenida.

– A força e proposta do enredo, o samba apontado como um dos melhores do grupo e essa diretoria que está trabalhando como nunca pra gente colocar esse carnaval na rua. Eu aposto na força do conjunto da escola. Penso que isso será o principal aliado para fazermos uma grande apresentação. Eu começo na África real, nobre, onde eu uso o alafim de oyó que é Xangô, não o orixá Xangô, mas o rei Xangô vivo em Oyó na África e a rainha Ginga de Matamba. Depois eu faço a travessia da calunga grande que é o próprio oceano atlântico e mostro ainda na sequência entre o abre-alas e o carro da própria travessia, uma África de clãs poderosos, de clãs ricos, guerreiros. Depois do carro três eu falo dos reis que chegaram da África escravizados e os reis que foram criados aqui, como Agotime, rainha que veio da África e fundou a casa das minas de São Luís do Maranhão e Zumbi dos Palmares, o carro é dedicado a Chico-Rei. Entre o terceiro e o quarto carro eu vou mostrar a influência da coroação desses reis na nossa cultura, reis e rainhas do maracatu, toda essas manifestações culturais que tem como base a coroação de um rei e de uma rainha negra dentro da sua apresentação. E acabo naturalmente com uma coroação de reis e rainhas do maracatu que é o último carro – concluiu.

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