Série Barracões: Com esculturas com movimento e força de enredo afro, Império da Tijuca promete surpreender

Por Diogo Cesar Sampaio

Após dois carnavais não tão bem sucedidos, onde a escola amargou o sétimo lugar, o Império da Tijuca busca na sua identificação com a temática africana, o seu reencontro com os bons resultados. O enredo “Olubajé – Um banquete para o rei” é desenvolvido pela dupla de carnavalescos Jorge Caribé e Sandro Gomes, que conversou com o site CARNAVALESCO sobre o enredo e contou como surgiu a ideia.

it_barracao_2018_1– Primeiro, a gente conseguiu entrar no Império da Tijuca. E era a nossa vontade porque a escola já tem o perfil de fazer carnaval com a temática africana. Já está habituada, gosta de fazer isso, gosta de representar. É uma comunidade de 70% a 80% de negros. Não é algo novo que a gente está trazendo. Eles estão habituados a dançar, pular, eles têm garra, ensaiam com muita força. Sambas-enredo também históricos daqui, maravilhosos. Quando a gente lançou a quadra inteira gritou. Todo mundo ficou super feliz, gente chorando, super aliviada. Foi muito mais confortável do que a gente ter que convencer um presidente ou uma comunidade sobre um enredo desses. E a escola aceitou de braços abertos. É um assunto que a gente milita o ano todo, que a gente tem casa de Candomblé… Enfim, seria super prazeroso, nós ganhamos e com certeza está sendo prazeroso falar de Olubajé – afirmou Jorge Caribé.

– O legal é que quando anunciaram a gente como carnavalescos, os componentes pediram: “Faz enredo afro”. A gente naquelas possibilidades de enredo, umas três possibilidades que tínhamos, já estávamos até desenhando aqui no barracão toda estrutura, todo o projeto mesmo antes da escolha. A gente estava torcendo muito que fosse o enredo afro, que era a nossa vontade de fazer. Graças a Deus e a Obaluaê conseguimos – disse Sandro Gomes.

Questionado sobre o motivo de falar de Olubajé, a festa para Omolu, Jorge Caribé foi direto e afirmou a relevância desse orixá, ainda é pouco explorada no carnaval.

– Xangô, Iansã, Iemanjá, Oxum, Ogum isso passa várias vezes na avenida. E parece que existe um preconceito maior, rejeição ou medo das pessoas falarem desse orixá. A gente escolheu falar dele por ser uma coisa assim que não é comum. São histórias maravilhosas, é um orixá que trabalha com palha da costa, materiais alternativos maravilhosos, que já houve esse carnaval no passado, há muitos anos atrás. A gente escolheu para prestar essa homenagem ao orixá da cura, da intolerância… É tudo que a gente está vivendo hoje – defendeu Caribé.

O carnavalesco ainda negou que tenha pensado nessa história de forma proposital ao momento que o carnaval e a cultura negra está passando atualmente.

it_barracao_2018_2– Acho que nada acontece à toa. E a história desse orixá na África, como existe em casas de culto no Brasil, as pessoas mesmo que tenham condição financeira, para se iniciarem nesse orixá, elas tem de esmolar. E não foi diferente para fazer o carnaval da Série A. A gente repetiu a história de Omolu esmolando, aceitando a ajuda de outras escolas, dos amigos, aceitando doação. Foi sem querer aconteceu o casamento perfeito: problema com prefeitura, com dinheiro, com falta de ajuda, de patrocínio… Nada que Obaluaê, que é um orixá tão misericordioso, para olhar pela gente. E graças a Deus, parece que deu certo – declarou Caribé.

A dupla de carnavalescos também comentou o drama vivido pelo carnaval do Rio, e, principalmente, pelas escolas da Série A, que só receberam a verba para o carnaval faltando cerca de 20 dias para o desfile, e com um corte de 50% comparado ao ano anterior.

– Eu já estou conhecido como o reciclador, por trabalhar com lixo. Nunca foi diferente. Todos os anos, com dinheiro ou sem dinheiro, sempre foi essa história de que não tem para comprar. A gente não ficou esperando esse chororô que o prefeito ia dar, que não ia dar. A gente caiu para dentro e fez o carnaval. Com muita coisa reciclada e transformando: o que é azul vira amarelo, o que é amarelo vira vermelho e deu certo. Estou muito feliz, mais uma vez, vou poder mostrar um trabalho que eu gosto de fazer. A gente praticamente já está fechando o barracão. Aí vai ficar só na bijuteria. A gente está com o carnaval pronto. Pra quem almejava nem de desfilar, porque não sabia se ia ter dinheiro, se ia assinar contrato, se ia liberar o Sambódromo… Mas o Império da Tijuca está trabalhando desde maio, não tivemos medo hora nenhuma. Ninguém teve nenhum dia de crise de dizer: ‘Vamos parar, não vamos fazer…’ – afirmou Caribé.

Os dois carnavalescos ficaram impressionados com a quantidade de filhos de Omolu que abraçaram a ideia, e ergueram as mangas para ajudar na confecção do espetáculo.

it_barracao_2018_4– Uma das coisas que me encantou também foi à procura de devotos. Eu como já participei aqui da escola dez anos atrás, eu fiz o enredo São Jorge, e a gente tomou aquela proporção de devotos também. Quando a gente lançou o enredo, conseguimos rapidamente encher todos os destaques, que vieram à procura porque são devotos do santo, do orixá e isso me encantou também, a procura dos fies, dos devotos, dos adeptos a religião. Todo mundo está procurando o Império da Tijuca para desfilar com a gente – relatou Sandro Gomes.

Sobre os pontos de destaque e as surpresas que preparam, ambos não revelaram muito e mantiveram mistério.

– Eu aposto no conjunto todo. O enredo é uma grande aposta. Uma história muito bonita, que emociona, que deixa qualquer um apaixonado. Então eu acho que a nossa grande aposta é o enredo. Os carros estão com uma plástica, tudo na medida do possível, com muito sacrifício, mas a gente está conseguindo colocar um belíssimo e grandioso carnaval na avenida. E a gente tem um conjunto: tem comissão de frente, tem aqueles pontos assim que o conjunto vai ser o grande diferencial na avenida – assegurou Sandro Gomes.

– Temos figuras confirmadíssimas como Selminha Sorriso, que vem no nosso abre alas vestida de Iemanjá. Ela é uma pessoa iluminada, uma pessoa maravilhosa, super do bem, que a gente já ama de paixão há vários anos. A gente tem também o Nando Cunha (ator do MultShow), temos ex-bbbs… A gente vai trazer um monte de surpresa. Eu acho que vai agradar bastante. Vamos ser segunda escola a desfilar, tem a história de ainda estar fria a Sapucaí e tal, mas acho que só com o calor de Omolu mesmo para levantar essa galera – confidenciou Caribé.

O Império da Tijuca vem com quatro alegorias, sendo o abre alas acoplado, e uma média de 2500 componentes. Segundo os carnavalescos, as esculturas da escola chegam há até 10 metros de altura, tendo movimentos e efeitos de Parintins em todas as alegorias. O desfile do Império da Tijuca vem organizado da seguinte forma, segundo Jorge Caribé:

it_barracao_2018_3– A gente dividiu em quatro partes. Começamos com o nascimento de Omolu, cercado com todo esse misticismo de vida e de morte. Temos Nanã parindo essa criança; ele é entregue a Iemanjá, pra que ela criasse e cuidasse dessa criança especial, que Nanã ficou muito traumatizada quando viu. Então no nosso primeiro setor a gente fala sobre nascimento, sobre o calor da vida e a morte e vêm as águas sagradas de Olokun, onde Iemanjá cria ele nos seios do oceano. A gente abre o segundo setor com o calor do Sol e da Terra, com as doenças endêmicas. A gente fala sobre os vários tipos de calor: o da morte, o da doença, o da varíola, o da peste. A terra rachada de Omolu, a grande casa de Omolu. O terceiro setor fala desse orixá, por exclusão própria, ele escolhe aqueles que ele queria em volta dele, então ele cria a família Sapaktá. Omolu não anda sozinho, ele tem uma família. Ele tem um resgate com a mãe Nanã, ele tem Oxumaré que é seu irmão, ele tem Ossain que é seu curandeiro, Irokô seu companheiro e Ewá sua esposa. Aí depois que a família já está formada, ele já é grande, curado e feliz, já não se cobre mais para esconder as feridas e sim o brilho do sol, a gente vem com o último setor. Um grande banquete, a grande festa do perdão, da consagração, do congraçamento, onde os orixás vão fazer essa festa em homenagem a Omolu, e a gente vem com toda festa do Olubajé, um banquete de bebidas, comidas e iguarias. Até que chega o último carro que é a grande apoteose do nosso carnaval, que é a casa de Omolu. E a gente fecha o carnaval com os ventos sagrados de Iansã para levar para bem longe da vida da gente, do Império da Tijuca e do Sambódromo as mazelas, as doenças, o olho grande, a inveja, a ruína, os desabamentos de alegoria, as porta bandeiras que despencam, e os ventos de Iansã vão levar isso para bem longe, quiçá, se Deus quiser, para casa do Crivella – finalizou Caribé.

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