Série Barracões: Dupla de carnavalescos do Cubango prepara homenagem para Bispo do Rosário

Por Amanda Rocha

Em meio a essa terrível crise que o carnaval carioca vem enfrentando, onde as coisas não parecem muito favoráveis às agremiações, a Acadêmicos do Cubango está caminhando bem e se mostra preparada para o desfile. Com o enredo “O Rei Que Bordou o Mundo”, a escola homenageará o artista Arthur Bispo do Rosário. Leonardo Bora, que divide o posto de carnavalesco com Gabriel Haddad, contou ao site CARNAVALESCO como surgiu a ideia do enredo.

cubango_barracao2018_– A vontade de fazer um enredo sobre a vida e a obra de Arthur Bispo do Rosário é antiga, eu pesquiso a obra do Bispo desde 2008, e em 2012 quando ele foi o artista homenageado da Bienal de Arte de São Paulo, eu e o Gabriel Haddad, que na época fazíamos parte da Comissão de Carnaval da Mocidade Unida do Santa Marta, vimos essa grande montagem com as obras do Bispo e começamos a pensar um fio condutor para uma narrativa de enredo que tratasse da obra dele. Quando surgiu o convite da Acadêmicos do Cubango, a primeira ideia que a gente teve foi: ‘vamos tirar esse enredo da gaveta e levar a obra do Bispo para a Sapucaí’. Quando nós assinamos com a escola ainda era com a diretoria anterior, que tinha um enredo que seria patrocinado por Nova Friburgo, depois houve uma mudança, uma eleição e a nova diretoria desistiu daquele enredo e pediu que apresentássemos uma proposta autoral, que dialogasse com a identidade da escola, que é uma escola que se identifica muito com temas ligados a afro brasilidade. Nós apresentamos o Bispo e felizmente foi aceito com muita alegria, entusiasmo, e acredito que a escola entende a dimensão desse enredo, a profundidade que é a obra do Arthur Bispo do Rosário – disse.

Entre as inúmeras pesquisas sobre Bispo, Leonardo destacou aquilo de mais interessante que encontrou e comparou a capacidade de recriação do homenageado com o trabalho desenvolvido pelos carnavalescos.

– Eu acredito que é a capacidade que o Bispo teve de construir uma obra muito vasta, ainda não há um número exato de quantas obras ele produziu, esse levantamento está sendo feito aos poucos pelo Museu Bispo do Rosário Arte Contemporâneo. Ele recria um universo em miniaturas, nos bordados, a partir do precário, a partir dos materiais mais simples de que ele dispunha dentro do manicômio. Mal comparando, mas é um pouco o exercício do carnavalesco, tanto mais nesses momentos de crise, quando a gente precisa reutilizar estruturas e fazer uma espécie de garimpo para encontrar dentro das limitações o máximo. Buscando sempre a potencialidade máxima das coisas. Acho que essa capacidade é incrível. E, além disso, algumas imagens da obra dele são muito fortes, muito sintéticas, eu penso que são interessantes para levar para a avenida. Como a série dos navios que são impactantes, o carrossel, o próprio manto da apresentação – citou

A escola contou com um apoio da prefeitura de Niterói, que fez diferença na produção do desfile para 2018.

– Esse auxilio possibilitou que não reduzíssemos o projeto. Quando surgiu o impasse com a Prefeitura do Rio, começou uma discussão, acredito, entre todas as escolas se diminuiria os projetos do carnaval ou não. Nós optamos por manter o projeto original. Se no Grupo Especial algumas estão enfrentando dificuldades, que dirá no Acesso, a realidade é muito difícil, não é discurso vazio. É um exercício de recriação o tempo todo, de reutilização de estruturas e ressignificação desses elementos, desses materiais. No nosso caso acho que há um fator positivo, se é que se pode chamar assim, é que seria incoerente a gente desenvolver uma narrativa visual, fantasias e carros alegóricos sobre o Bispo do Rosário utilizando o máximo do luxo, essa linguagem do luxo tradicional carnavalesco, não cabe nesse enredo. Com esse espirito a gente conseguiu driblar bastante as dificuldades financeiras. Fantasias de anos anteriores, por exemplo, foram desmontadas e partes dos tecidos são utilizadas nas alegorias. É uma coisa pequena, mas que no todo, no montante de trabalho de uma escola de samba, faz a diferença.

carro-detalhe-4Leonardo acredita que o trunfo do desfile seja a união de todas as unidades da escola. Ele citou o bom desempenho da comissão de frente nos ensaios técnicos de rua.

– É uma escola que vem passando por um processo de reestruturação e essa reestruturação vem perpassando todos os elementos do desfile. Nós temos uma comissão de frente muito forte coreografada pelo Sérgio Lobato que nos ensaios de rua já vem causando uma boa impressão, um impacto inicial, o casal Diogo Jesus e Thais Romi, dispensa apresentações, temos uma grande bateria, temos um samba considerado por muitos um dos melhores do Acesso no ano, e que acredito que conseguiu captar bem a poeticidade do enredo. Eu penso que o conjunto vai ser bastante interessante, pelo menos é o que eu e o Gabriel Haddad mais projetamos nesse desfile, e a nossa contribuição que são as fantasias e as alegorias, além do enredo, claro, a gene pensa que isso vem só coroar, só emoldurar esse todo da escola.

Bora e Haddad são carnavalescos jovens que já estão enfrentando uma grande crise econômica que está afetando todas as escolas. Leandro contou como é possível encontrar vontade de fazer carnaval.

– A palavra ‘crise’ sempre caminhou perto do carnaval, o carnaval nunca foi um mar tranquilo. A vontade vem de enxergar todo esse potencial criativo que existe dentro da escola de samba. Os sem fins de saberes e a capacidade sempre que a comunidade de uma escola tem de se reinventar e de traduzir uma narrativa, um enredo, uma história tão forte como a do Bispo de Rosário na Sapucaí. Eu acho que essa capacidade só as escolas de samba têm e é isso que mantem elas vivas. Enquanto elas se entenderem enquanto um corpo social e um emaranhado de saberes, de tradições, de ensinamentos que são passados de geração em geração, o samba vai continuar existindo e penso que é disso que eu tiro a maior alegria, a maior realização para seguir enquanto carnavalesco e continuar o projeto.

O Cubango trocou de presidente para 2018 e começou no negativo, Bora contou o que precisou ser feito no barracão para que a escola pudesse começar a montar seu desfile.

– O barracão passou por algumas obras, o Gabriel foi rearranjado para que os trabalhos começassem com mais tranquilidade. O bbarracão é bastante grande. Por exemplo, 80% do material do almoxarifado está sendo utilizado nesse carnaval de alguma forma. A escola também conseguiu uma série de trocas de material com outras agremiações e isso deu uma dinamizada.

A escola contará com quatro alegorias, 20 alas e 1.800 componentes. Conheça os setores do desfile do Cubango.

PRIMEIRO SETOR

“Foi intitulado Ode Marítima que é o nome de um poema do Álvaro de Campos, que a gente utiliza na sinopse um trechinho, e que fala do amor de um marinheiro pelo mar e de todas as tempestades que ele enfrenta nessa relação dele com o mar. Nós utilizamos essa ideia na abertura porque ela é um convite pra que todos embarquem na Nau dos Insensatos que é um navio que realmente existia na Idade Média. No nosso desfile é o grande veleiro do Bispo do Rosário. Nessa abertura nós temos a comissão de frente, o primeiro casal, os guardiões do casal e uma ala de abertura, além do abre alas”.

SEGUNDO SETOR

A gente fala da peregrinação que levou o Bispo ao manicômio. Essa peregrinação ocorreu durante 48 horas na véspera do natal de 1938, quando guiado por 7 anjos, ele caminhou de Botafogo até o Mosteiro de São Bento parando em inúmeros lugares. Nós selecionamos os sete principais lugares, os lugares que mais aparecem nos bordados dele e cada um desses lugares nós traduzimos em fantasias como um dos anjos que guiou ele nesse cortejo místico. A segunda alegoria, portanto, é essa travessia do Mosteiro de São Bento a internação no manicômio, é um carro que vai mostrar esse contraste.

TERCEIRO SETOR

Se chama Inventário, ou seja, o Bispo já aprisionado passou cerca de 50 anos internado na Colônia Juliano Moreira, produz a sua obra. Essa obra movida pelas vozes que ele ouvia dos anjos e do próprio Criador, cujo objetivo final era inventariar tudo que existia na fase da Terra para o dia do juízo final entregar a Deus. Nós mostramos nesse setor quais são os principais temas dessa obra. A terceira alegoria é uma visão do que seria na mentalidade do Bispo a cela forte onde ele vivia, que era uma grande oficina, mas também um castelo medieval. A gente mistura alguns elementos do jogo de xadrez com as vitrines que ele produziu.

 

QUARTO SETOR

Fala das obras em que o Bispo relembra a sua infância. É uma visão a partir das festas de como seria esse reinado do rei dos reis que era o modo como ele se nomeava. Mostra o que seria na visão do Bispo esse mundo a ser recriado, muito próximo desses festejos populares.