Série Barracões: Querendo voos mais altos, Rocinha vem maior em 2018

Por Diogo Cesar Sampaio

Depois de superar as expectativas de muitos no carnaval passado, a Rocinha quer mais. Contando com o carnavalesco Marcus Ferreira, atual campeão da Série A pelo Império Serrano, a escola promete fazer um desfile maior em todos os sentidos, em comparação ao seu último carnaval.

rocinha_barracao18_1– O carnaval da Rocinha esse ano está maior. Eu uso mais esculturas, altura, o volume aumentou. Vimos essa necessidade de eu ter vindo campeão, da escola ter feito um carnaval muito bacana ano passado. Acabou sendo dois pesos. É claro que eu quero mostrar mais um grande trabalho. A gente vem também com dois carros com movimento, e a iluminação eu acho que o carnaval sempre necessita para ressaltar o trabalho de adereço, de efeito, o trabalho cênico nas alegorias. Vai ter muita iluminação, ressaltando principalmente os coloridos, que eu acredito ser uma marca do meu trabalho. Vem dois carros com movimento, o abre alas e o segundo carro – afirmou Marcus.

Mas quem espera um desfile tão clássico quanto o do ano anterior ou até mais, está equivocado. Em um ano repleto de adversidades e falta de verba, o carnavalesco trouxe soluções criativas, apelando a materiais mais alternativos e até incomuns se tratando de carnaval, porém bem corriqueiros do dia a dia.

– Tem um carro que vai ser decorado com utensílios domésticos, que é uma alegoria que retrata os retirantes, é uma grande carroça de boi. Fundo de latinha de cerveja, que eu estou fazendo as tachinhas do cangaço… E é claro, eu dei uma olhada no que tinha no almoxarifado da escola. Tudo para poder minimizar o custo e fazer um carnaval vistoso, grandioso e com uma estética apurada – disse Marcus Ferreira.

Sobre existir uma pressão pelo título do ano passado, Marcus admitiu que sim, mas afirmou estar tranquilo com o trabalho que vem realizando em sua nova casa.

rocinha_barracao18_2– Existe uma cobrança. Eu acho que esse carnaval da Rocinha está sendo o carnaval do meu reinvento mais uma vez. Eu fui campeão também com muita adversidade ano passado. É um carnaval que eu queria fazer já o tema. Então, tudo acaba ficando mais fácil em termos de criação e execução. Mas eu estou muito feliz com a Rocinha, com o carinho que a Rocinha tem com o profissional. Isso é uma coisa que vou levar para minha carreira. A escola apesar de ter vindo de um grande carnaval também ano passado, quer algo a mais esse ano, ir mais a frente. Então com a minha vinda a gente está conseguindo fazer um carnaval que eu estou muito feliz em realizar, e a escola está muito contente com o que a gente está colocando em prática – relatou.

Quando o assunto é a falta de verba, o carnaval de 2018 vai ficar marcado por ser um dos mais difíceis da história. Independente de grupo, a crise atingiu todas as agremiações da folia. A Série A vive o drama de só ter recebido o dinheiro da prefeitura faltando cerca de 20 dias para o carnaval, e com um corte de 50% no valor do ano anterior. Ao falar sobre o assunto, Marcus não negou a dificuldades, mas afirmou já está acostumado a trabalhar em condições similares.

rocinha_barracao18_3– É complicado. Acho que carnaval acima de tudo é planejamento. E há de se ter um investimento mínimo. A gente sabe fazer um espetáculo à altura da Série A com o oferecimento pouco. Mas eu to utilizando esse ano a minha experiência de Série A, já são oito anos, para poder driblar essa parte financeira que não se teve esse ano principalmente. Com a subvenção do ano passado já era difícil. Mas assim, com planejamento, com dedicação, eu e a Rocinha conseguimos fazer um carnaval vistoso, maior que o do ano passado. Apesar de todas as dificuldades de tempo, ano passado no Império Serrano essa época do ano eu estava terminando o último carro, e esse ano a gente está digamos no terceiro carro da escola. Um pequeno atraso comparado ao meu trabalho do ano passado. Mas a gente está lutando, a gente não está desesperado, estamos focados em terminar o carnaval da Rocinha – afirmou.

Se não bastasse os problemas com a prefeitura, a Rocinha ainda viveu o drama de ter de fechar a sua quadra devido a guerra do tráfico no morro. A decisão afetou os cofres da agremiação, que tinha a quadra como parte da sua receita.

– Assim, a quadra gerava uma receita para o barracão, para o carnaval. Isso foi o maior impacto. É claro também para os ensaios. A gente começou a ensaiar agora em dezembro, por questões de segurança dos componentes que descem a comunidade para ir para quadra. Então, o que pude conversar com a diretoria da Rocinha foi isso. A quadra era movimentada todo final de semana, tinha bailes na quadra, eventos, e isso foi minimizado por questão de segurança. Eu acho que esse foi o maior impacto que a escola recebeu esse ano – alegou o carnavalesco.

rocinha_barracao18_4Assinando mais um tema autoral em sua carreira, Marcus Ferreira conta como surgiu à ideia, a apresentação do tema para a escola e a escolha do mesmo como enredo do carnaval de 2018 da Rocinha. Além disso, o carnavalesco também confidenciou sua apreciação pelo trabalho de J. Borges e admiração pela cultura popular pernambucana.

– Então, eu já tinha esse enredo em mente. Eu levei três propostas para diretoria, e esse já era o que eu mais gostava dos três. O presidente Ronaldo (Oliveira, presidente da escola) escolheu o enredo “Madeira Matriz” que achou mais a cara da Rocinha, mais popular, mais fácil de desenvolver. O que me encanta nesse enredo é a relação de tantos temas que a obra de J Borges compõe. Foi difícil escolher os temas para representar em alas e carros, porque ele tem milhares de xilogravuras gravadas. E a riqueza cultural do estado de Pernambuco também, isso é algo que eu já conhecia, porque o estado é muito rico culturalmente. Talvez seja o estado mais rico, ao meu ver, em termos de artista popular. Ceramistas, tecedores, fazedores de máscaras, artesãos. Esse foi meu principal ponto, que eu enxerguei que o enredo da Rocinha se torna culturalmente tão forte – declarou Marcus.

Quando perguntado sobre a sua grande aposta para o desfile, Marcus Ferreira ressaltou a força do conjunto, além do casamento do preto e branco da xilogravura com as pitadas de cores, tão características de seus trabalhos.

rocinha_barracao18_5– Eu acho que o conjunto da escola está muito acertado. Talvez eu não tenha um ponto que eu colocasse como peso. É um carnaval que eu projetei para que se criasse um conjunto e uma identidade do início ao fim. Principalmente por conta do uso da estampa da Xilogravura: das sigmas, das estrelinhas, das listras, das bolinhas. Como era retratado tudo que o J Borges via na cidade de Bezerros. Então eu estampei a Rocinha, do início ao fim: o primeiro setor são bolinhas, o segundo setor são quadrados, o terceiro setor são estrelinhas e o último setor são listras. Tudo para poder dar uma unidade bacana e diferente para o desfile. E as fantasias também eu acredito que o conjunto está bem acertado. As bases são preto e branco, com o colorido para ressaltar os elementos das xilogravuras. Que é uma coisa que o J Borges me explicou que em si, a xilogravura é preta e branca, mas as mulheres ao irem ao ateliê dele pediam: “Poxa, bota um colorido aqui no girassol”… Então, ele acabou acentuando as cores naquilo que ele queria. Eu levei esse conceito para todo o desfile da Rocinha: o cortador de cana, a cana é verde; a fruta de palma, é verde e laranja. Mas tem a estampa da xilogravura em preto e branco. Então esse pode ser um diferencial em termos de conjunto, ao meu ver – ressaltou.

Apesar de ter a xilogravura em todo seu desfile, o cordel que é tão associado a esse tipo de arte, só vai aparecer no início da apresentação da escola.

– Eu faço uma pequena citação no meu início de desfile. O início do desfile da Rocinha fala sobre o primeiro contado do J Borges com a xilogravura, que foi através de cordel na feira. Mas é somente essa associação. Como capa do cordel. Existe essa referência aos folheteiros no início de desfile e só. Dali para trás, é xilogravura – garantiu Marcus.

Marcus Ferreira também confidenciou que J. Borges, o grande homenageado do enredo, preparou um trabalho especialmente para esse desfile da Rocinha.

– Ele fez uma gravura da borboleta encantada. Da borboleta encantada ele fez algumas matrizes de borboleta para poder estampar algumas das fantasias da Rocinha. Um presente que ele me deu – assegurou Marcus.

Relação entre Marcus Ferreira e Império Serrano

Após um fim de casamento um tanto quanto conturbado, Marcus Ferreira confidenciou se guardou mágoas da escola do Morro da Serrinha.

– Meu sentimento é a de dever cumprido. É claro que todo artista que ganha um carnaval sonha em estrear no Grupo Especial. Ainda mais que dos meus amigos eu tenha sido um dos únicos poucos dos que subiram e não foram para o Especial. Não tenho mágoas não, acho que tudo na vida da gente tem um propósito, tem um destino certo. Sou um cara que trabalha muito, que dedico muito do meu tempo a qualquer escola de samba que eu estiver. Então assim, eu fiz o que pude pelo Império Serrano. Claro que esse campeonato me deixou muito feliz, mas passou. Desejo toda sorte a comunidade imperiana, que até hoje guarda um carinho muito grande de mim, e isso é inegável. Aonde eu vou, nas minhas redes sociais, os imperianos me abraçam, e eu que fico muito feliz de ter deixado, de ter dado um campeonato para escola depois de nove títulos. Um trabalho também muito árduo, que me deu a experiência de hoje, chegar à Rocinha mais amadurecido nesse ano de crise para todo mundo. Mais que ninguém, eu lutei muito para colocar a escola no Especial e a minha torcida é pela permanência da escola lá – confidenciou Marcus.

rocinha_barracao18_6Questionado se já se sente preparado para assinar um desfile no Grupo Especial, Marcus foi categórico.

– Eu acho que sim. A dificuldade de fazer a Série A é algo que, nesses oito anos, eu venho amadurecendo, me aperfeiçoando profissionalmente. Eu acredito que o carnaval da Rocinha é o carnaval que eu estou mais gostando de fazer. Um carnaval assim que me surpreende o que eu estou podendo fazer plasticamente. É claro que quero ir para o Especial! Trabalhar com dignidade, trabalhar em um lugar limpo, com a comodidade de se criar um projeto que na Série A é muito complicado. A gente não tem estrutura. E com certeza, se eu estiver ou no Especial ou na Série A, eu sempre vou fazer o meu melhor. E se eu chegar ao Especial eu vou fazer de tudo para realizar um grande carnaval novamente, um carnaval diferente, um carnaval com a minha estética, que procuro seguir um caminho diferente de tudo o que o carnaval propõe. Então, é claro que estou preparado, já estou pós-doutorado de Série A, vim da Intendente também crescendo, para depois chegar aqui. Eu estou preparado sim, acho que vou tirar de letra quando chegar ao Especial, porque claro tem dificuldades também, mas as dificuldades de fazer a Série A é dupla – assegurou.

O desfile da Rocinha em setores:

Setor 1

– Eu abro exatamente com esse contato do J Borges, como ele descobre a xilogravura, o que é xilogravura. Quando jovem ele trabalhava numa marcenaria, então ele já tinha esse contato com a arte de esculpir em madeira. E ele me falou que o único meio de comunicação que existia era o cordel, nas feiras ecológicas, ou para gente feiras livres. Então na feira ele teve o despertar de começar a fazer a xilogravura, que ele já trabalhava com carpintaria. O desfile da Rocinha dá justamente esse encontro dele com a feira e toda a atmosfera da feira com a cidade de Bezerros: o vendedor de bolas, os palhaços, o carrossel, os balões, o vendedor de balões, o vendedor de lápis de burana, que é a mesma madeira utilizada para gravar a xilogravura. Então eu faço esse apanhado e os vendedores de xilogravura nesse setor.

Setor 2

– O segundo setor da Rocinha são as xilogravuras que retratam a lida do agreste pernambucano. Tem a frutificação do fruto de palma, os cortadores de cana, a colheita do algodão, a quebra do milho, os colhedores de rosas… A questão dos retirantes também com dificuldades de vivência lá no agreste pernambucano, que fecha o segundo setor.

Setor 3

– O terceiro setor é um pouco da irreverência do nordestino, somada aos causos e a religiosidade do povo. Então, são as xilogravuras religiosas: o verdadeiro aviso de Frei Damião, a chegada da prostituta no céu, a moça que dançou depois de morta, o casamento do diabo, a charrete do diabo, a chegada de Lampião no inferno… Então é um pouco dessa questão cômica e religiosa do terceiro setor da Rocinha.

Setor 4

– O último setor são as festividades, que acontecem principalmente em uma localidade lá de Bezerros chamada Serra Negra, como se fosse uma espécie de Lapa carioca. É aonde há o encontro desses artistas e dessas manifestações folclóricas culturais do estado de Pernambuco. Então vêm os maracatus, os cavalos marinhos, as cirandas, o forró na Serra Negra, Xangô do agreste, que é uma espécie de candomblé que lá eles chamam assim. E o último carro da Rocinha que é o grupo folclórico dos Papambus. Eu tive lá em Bezerros, eu conheci o museu dos Papambus, que é uma espécie de bate-bola do sertão, eles dançam ao som do frevo, e que por coincidência, no museu eu vi muitas máscaras com borboletas pintadas nelas. São máscaras que eles fabricam durante o ano. E eu achei essa coincidência muito bacana. Ligar o carnaval da Rocinha com o carnaval de Bezerros.