Série Quesito a Quesito: como é o julgamento de Alegorias e Adereços

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Por Thiago Barros

aguia_redentora_portela2015Só um quesito no Carnaval começa a gerar expectativa já nas primeiras horas dos dias dos desfiles: alegorias e adereços. Se você gosta do maior espetáculo da Terra desde pequeno, e sua família também, provavelmente já foi para a Avenida Presidente Vargas ver os carros alegóricos das escolas nas manhãs de sexta, sábado, domingo e/ou segunda de Carnaval. Ou até como desfilante, quis passear por eles antes de entrar na Avenida e ver os detalhes destas verdadeiras obras de arte carnavalescas.

O Egito da Mangueira em 2003, o DNA da Tijuca em 2004, os tambores do Salgueiro em 2009, o gigante acordando na Portela em 2014… Exemplos de alegorias históricas que passaram pela Sapucaí nos últimos anos não faltam. Sem falar nos clássicos carros cheios de estrelas da Mocidade nos anos 90, do Cristo Proibido da Beija-Flor em 89, as águias da Portela, as coroas da Imperatriz… Mas o que torna um conjunto de alegorias nota 10?

Confira em mais este capítulo da série Quesito a Quesito:

Barracão

O primeiro ponto é entender como funcionam os barracões das escolas de samba, no que chamamos de Fábrica dos Sonhos do Carnaval, a Cidade do Samba. O trabalho de construção das alegorias é muito intenso e começa muito antes deste período do Carnaval. São dezenas de pessoas envolvidas no processo, que é cansativo, porém recompensador no final. No Salgueiro, por exemplo, ele é contínuo e dura o ano inteiro.

algoria_barracao1– O Salgueiro é uma empresa, que tem inclusive funcionários registrados em carteiras, que trabalham o ano todo. Definimos o enredo com o carnavalesco por volta em maio, junho, e mais ou menos em agosto ele nos entrega os projetos. Aí começamos a parte de criar a ferragem dos carros. Depois vem a carpintaria, para fazer os pisos, queijos, com madeira. Trabalhamos as vezes também em conjunto estes dois aspectos, porque o Renato trabalha muito em cima disso. Logo depois começamos os adereços, que é a decoração dos carros. Acaba o Carnaval e uma semana depois já começamos entrega de fantasias e duas, três semanas depois fazemos a desmontagem dos carros. É um processo legal, como se fosse uma indústria do Carnaval. Começamos no início do Carnaval com 20 pessoas e no auge trabalhamos com 300 pessoas no Barracão. Terminando, ficamos com 100, 150, varia bastante de acordo com o que estamos fazendo. Mas não paramos. O Carnaval do Salgueiro é durante o ano todo – explicou Alexandre Couto, diretor de carnaval da escola.

alexandre_couto_salgueiro2017É muito legal visitar a Cidade do Samba em meses diferentes do ano. Logo no começo dos preparativos, no início do terceiro trimestre, em dezembro e depois às vésperas do desfile. Você vai notar a evolução do trabalho – e também como as agremiações fazem de tudo para manter o segredo dos seus principais carros. Além disso, é a hora de fazer os ajustes que se mostrem necessários. Por isso, terminar o projeto o quanto antes é fundamental.

– O barracão estar pronto cedo é uma grande vantagem, porque reparamos em detalhes. Nosso objetivo é a perfeição de uma alegoria, de uma fantasia, no dia do desfile. Então quando planejamos e preparamos tudo antes, observamos mais estes detalhes. O Carnaval é decidido nos detalhes. E quanto menos detalhes desfavoráveis tivermos, melhor. Sou diretor de Carnaval há menos de um ano, mas já trabalho no barracão há quatro anos e venho observando essa adequação de terminar tudo antes para sempre estarmos ligados nos mínimos detalhes. Passo no barracão o tempo todo. Hoje, por exemplo, já estou vendo detalhes de alegorias e fantasias que possamos melhorar para não ter problemas na Avenida. Essa é a grande diferença – completou Alexandre Couto.

joao_vitor_rocinha2017Na Série A, a situação acaba sendo diferente por diversos questões, especialmente a limitação de espaço para criação e custos. João Vitor Araújo, carnavalesco que estreia na Rocinha em 2017, explica que muitos profissionais do Acesso têm que criar os seus carros baseando-se nas estruturas já existentes de carnavais anteriores.

– É um trabalhão, ainda mais na situação completamente adversa das escolas da Série A. É bem mais cuidadoso por causa de vários fatores. Espaço menor, altura e largura menores por causa dos barracões… E você precisa criar em cima do que já existe. Dificilmente colocamos uma alegoria abaixo. Independente do enredo, tem que pensar e construir algo naquela estrutura e formato. Você modifica uma coisa ou outra, mas geralmente aproveitamos 80% do que já existe. A partir daí que é o boom da criação, se vai ter fada, sereia, cachorro, arabesco, coluna… Precisamos nos adequar a esse esquema. É muito caro você refazer a estrutura de um carro para se adequar ao seu projeto. Criamos em cima do que existe, porque o lógico seria você desenhar para depois começar a montar. Aí a partir daí que surge a estética, o que vou colocar de escultura, posição, cor… Todos os elementos correspondentes ao enredo – contou.

O trabalho é longo, e mesmo com o Carnaval tão próximo, ainda é possível ver quase todas as escolas fazendo ajustes nas alegorias.

Criatividade

edson_pereira_unidos_padre_miguel_2017O processo de criação das alegorias também é exaustivo. Tudo varia de ano para ano, conforme o enredo, mas os carnavalescos têm um trabalho de pesquisa apurado para transformarem suas ideias em realidade. Estrutura, materiais, identidade visual, a fácil leitura… E tudo começa com o abre-alas para Edson Pereira, sua primeira obra após a confirmação do enredo.

– Tudo inicia-se no processo do enredo. Na Unidos da Padre Miguel, já é o meu quinto enredo autoral seguido. A escola aprovando, dividimos em setores, que são quatro, e primeiro crio o abre-alas. Faço uma síntese de tudo o que estou falando na sinopse, geralmente, neste carro. Depois, então, começo a divisão mesmo, para explicar melhor o enredo. Isso é o processo mais demorado, até do que a criação, porque você tem que pesquisar e fundamentar tudo, então é a parte mais complicada. O trabalho está sendo feito e estamos pelo menos com 80% pronto. Agora nesta reta final é só fazer alguns ajustes, acabamento finais, mas acredito que nesta semana estaremos entregando o barracão e as fantasias também.

jaime_cezarioA águia da Portela, a coroa da Imperatriz, o Tigre da Porto da Pedra… Como não ter na mente estes símbolos de cada escola todo ano? Como não ficar na expectativa para ver como eles serão inseridos em seus enredos? Esta é uma das partes mais aguardadas dos desfiles. E sabe a história de ir ver os carros no dia do desfile à tarde? Tinha carnavalesco que ia também…

– O abre-alas é importante não só para uma escola com um símbolo como o Tigre, como para as outras também. Ele é o cartão de visitas das alegorias. Uma escola de samba, se você começa bem e termina bem o desfile, está bem encaminhado. Claro que não pode esquecer dos outros carros, mas o abre-alas é fundamental. Sou ainda de uma época em que eu adorava sair de folião nas escolas e sempre tinha expectativa de ver se a escola vinha para ganhar e íamos às concentrações, na tarde do desfile, para ver as alegorias e fazer um balanço. E quando você passa essa mensagem de um conjunto de alegorias forte, o componente se empolga – recordou Jaime Cezário, da Porto da Pedra, que também contou um pouco de sua preparação para 2017.

– O processo é pesquisa de enredo, elaboração de sinopse, depois divisão em alas e alegorias, produção dos desenhos das alas, desenhos das alegorias… Em junho, julho e agosto, mais ou menos, fazemos essa produção. Nesse ano, comecei a pesquisa em abril e maio. Eu gosto de começar e terminar. Não gosto de parar. Pego uma linha e sigo. Quando começo a produção de desenhos, só paro quando finalizo tudo. Geralmente, meu prazo máximo é final de setembro, início de outubro – completou.

destaque_desfile1Destaques

Um ponto que muitas pessoas não necessariamente valorizam nas alegorias, mas que também é julgado é como os integrantes da escola que vêm sobre ela são exibidos e a forma como eles desfilam. Animação, samba na ponta da língua e fantasias bem feitas, conversando com os carros, são essenciais.

– Já fui destaque da União da Ilha e eu adoro destaques, valorizo demais. São pessoas que amam a escola, se dedicam, é um custo exorbitante que eles gastam para defender as suas fantasias. Semana retrasada, um destaque meu aqui, o Santinho, perguntou para mim a importância do destaque, porque ele acha que está acabando isso, que muitas escolas não valorizam. Eu falei: olha, enquanto eu for carnavalesco isso não vai acontecer. O destaque complementa o carro alegórico. Eu defendo essas fantasias com o mesmo carinho que defendo as minhas alas – disse João Vitor.

destaque_desfile2Além disso, desde o carro do DNA de Paulo Barros na Unidos da Tijuca, as “alegorias vivas” ganharam muito espaço no Carnaval. Não só nos desfiles dele, como na Águia Redentora da Portela em 2015, mas também nos trabalhos de outros carnavalescos – gerando mais um efeito interessante e criativo no quesito Alegorias e Adereços.

– É um recurso. Acredito que quando é bem encaixado, fica muito bom. Mas fazer por fazer, porque os outros estão fazendo, e que isso é modernidade, não concordo. Tudo tem o seu momento e seu propósito – opiniou Jaime Cezário, da Porto da Pedra.

Julgamento

O quesito é bem simples: “estão em julgamento as Alegorias (entendendo-se, como tal, qualquer elemento cenográfico que esteja sobre rodas, incluindo os tripés) e os Adereços (entendendo-se, como tal, qualquer elemento cenográfico que não esteja sobre rodas), exceto os utilizados para a realização das Comissões de Frente, que serão avaliados pelos julgadores daquele quesito”.

Para julgá-lo, porém, é preciso considerar dois aspectos: concepção e realização. Cada um tem o mesmo peso: de 4,5 a 5,0 pontos. No primeiro, avalia-se “a concepção e a adequação das Alegorias e dos Adereços ao Enredo que devem cumprir a função de representar as diversas partes do conteúdo desse Enredo” e “a criatividade, mas devendo, necessariamente, possuir significado dentro do Enredo”.

destaque_desfile3– Coerência é fundamental no que você propõe, clareza, porque o jurado não gosta muito daquela poluição, excesso de informação, e o acabamento, porque independente de qualquer dificuldade que se enfrente no Barracão, mesmo com recursos menores como na Série A, é importante. O principal é isso: coerência, acabamento e clareza. – comenta João Vitor.

No segundo, observa-se três pontos: “a impressão causada pelas formas e pelo entrosamento, utilização, exploração e distribuição de materiais e cores”, “os acabamentos e cuidados na confecção e decoração, no que se refere ao resultado visual, inclusive das partes traseiras e geradores” e “que os destaques e figuras de composição, com suas respectivas fantasias, devem ser julgados como partes integrantes e complementares das Alegorias”.

destaque_desfile4– A plástica é importante, sim, mas é importante a linguagem, a leitura da alegoria, independente da arte final. Há várias soluções para se criar uma alegoria, com materiais alternativos, por exemplo. Mas o mais importante, ao meu ver, é passar essa visão clara do que está sendo abordado – destacou Edson Pereira.

Além disso, os julgadores são orientados a penalizar “a exposição de pedaços de Fantasias, escadas, caixas, isopores ou qualquer outro tipo de objeto estranho ao significado das Alegorias e/ou Adereços apresentados em desfile” e “a eventual passagem de geradores integrando as alegorias, sem que estejam embutidos ou decorados”.

Ou seja, cada mínimo detalhe importa neste julgamento. Do dedinho de uma escultura descascando a uma escada aparecendo no lugar errado, décimos preciosos podem ser perdidos. Em compensação, um belo trabalho visual, criativo, impactante e de leitura fácil, pode tornar um desfile histórico.

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