Simplicidade e mistura de cores marcam o desfile da Cubango, que homenageou Bispo do Rosário

Por Marina Magalhães

bispodorosarioO verde e o branco do Acadêmicos do Cubango cedeu espaço a um intenso colorido que costurou o espetáculo que deu vida ao enredo o “O Rei Que Bordou o Mundo”, uma homenagem dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora ao Bispo do Rosário.

A escola deu boas-vindas ao público com a comissão de frente “Senhores do Labirinto”. Mesclando os tons preto e vermelho, o figurino representa Exú, o Orixá africano da comunicação e do movimento, que, conforme o desenrolar do enredo, dava espaço à imagem do Bispo. A capa, composta por babados vermelhos com estampas e lantejoulas em preto, era o segredo do movimento: ao ser virada do avesso, ela mostrava o manto de Rosário.

Apresentando o Bispo, a comissão abriu o caminho para o primeiro setor, Ode Marítima, uma referência ao poema de Álvaro de Campos. De acordo com os carnavalescos, a proposta foi abordar o amor de um marinheiro pelo mar e todas as tempestades que ele enfrenta, fazendo alusão aos dias de luta que Rosário passou no Colônia Juliano Moreira, manicômio em Jacarepaguá.

Assim, representando o mar de Ode Marítima, o carro abre-alas da escola de Niterói, intitulado “Nau dos Insensatos”, levou para a Avenida uma das peças mais famosas do Bispo – O Grande Veleiro. A alegoria mesclou o branco e o verde das águas do mar, e cavalos marítimos de acetato enfeitaram a frente do carro. Na parte inferior, “Rosário”, em verde e brilhos prateados, reforçava a homenagem ao Bispo.

cubango_desfile_2018_31-2O carro abre-las abriu os caminhos para o setor da peregrinação, composto por sete alas que representaram a Igreja de Santo Inácio e São Miguel Arcanjo, em dourado e azul, O Palácio do Catete, também em dourado, amarelo e laranja, o Outeiro da Glória, a Igreja de São José, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, a Igreja da Candelária, e o Mosteiro de São Bento, respectivamente.

Representando a áurea azul de Rosário, o carro “Revelação: da riqueza do mosteiro à crueza de manicômio”, sintetiza o final da peregrinação feita pelo Bispo na véspera do Natal de 1938, quando o barroco do Mosteiro de São Bento deu lugar ao horror das celas dos manicômios. A segunda alegoria da escola apostou no dourado, que contrastava com a batina azul vestida pelo ator Izak Dahora.

– Apesar de já desfilar há alguns anos, é a primeira vez que cruzo a Sapucaí na incumbência de um personagem, do início ao fim. O carro representa as primeiras manifestações dos delírios do Bispo do Rosário em público, quando ele sai de Botafogo e anda em peregrinação até o Mosteiro de São Bento se apresentando como Jesus Cristo, julgando os bons e os maus. Nesse momento, ele dá início à catalogação das mais de 800 obras que ele produziu nas celas da Colônia Juliano Moreira, onde foi internado e passou mais de 50 anos – explicou Izak.

cubango_desfile_2018_83Além de destacar os pontos do carro, Izak também destacou a importância de representar a aura azul de Rosário.

– É uma honra enorme, porque o Bispo era negro, pobre, nordestino e louco. Ele carregava muitos estigmas. Eu busquei sentir todo esse turbilhão de sentimentos que ele presenciou dentro de si e tentei dividir isso com o público da arquibancada. No fundo, acho que era isso que ele queria: dividir com todos os seus pensamentos, que, para ele, eram verdade – ressaltou.

Com o nome “Inventário”, a Cubango apresentou as obras do Bispo do Rosário no terceiro setor, novamente investindo no colorido e nas sucatas, a fim de retratar os subsídios que o artista utilizava para produzir suas peças. Com poucos recursos, ele utilizava os materiais descartados pela Colônia para elaborar suas obras.

Já o quarto e último setor, “Marujos da Chegança”, ficou por conta de narrar as recordações dos festejos populares que marcaram a infância do Bispo de Rosário. Com o fundo dourado e detalhes em verde, o último carro do desfile entrou na Avenida com imagens de santos católicos. Na traseira, uma mensagem: “manicômio nunca mais”, acompanhando três estátuas azuis e idênticas que se assemelhavam a LEGO e representavam o libertar dos estigmas e preconceitos que o Bispo sofreu durante mais da metade da vida.