Site CARNAVALESCO entrevista os autores do livro ‘Os Porões da Contravenção’

Lançado no fim de novembro, o livro "Os Porões da Contravenção", dos jornalistas Chico Otávio e Aly Jupiara, gera muitas discussões sobre as participações dos contraventores no mundo das escolas de samba. A obra aborda a relação de figuras importantes do carnaval carioca, como Capitão Guimarães, Anísio Abraão David, Luizinho Drumond e Castor de Andrade, com a ditadura militar, o crime organização e o trabalho nas agremiações e na Liesa. O site CARNAVALESCO entrevistou os dois autores, sendo um veículo especializado na cobertura do carnaval, o nosso interesse foi abordar assuntos ligados aos desfiles das escolas de samba. Confira abaixo a entrevista completa.

CARNAVALESCO – A partir de quando houve o interesse no carnaval? 

Aloy Jupiara: "As escolas de samba surgiram nas camadas mais pobres da população, com um forte sentimento comunitário. Sem recursos, passavam o livro de ouro entre comerciantes para arrecadar dinheiro para os desfiles. Naquela época, além de comerciantes, bicheiros contribuíam. Natal da Portela marca o momento em que um bicheiro fixa uma relação mais integrada e íntima com uma agremiação, mas ali existia uma relação familiar pré-existente envolvida. O que acontece nos anos 70 é que bicheiros como Anísio, Castor de Andrade e Luizinho Drumond percebem que as escolas de samba – que tinham virado o grande evento do carnaval do Rio, atraindo a classe média, artistas e turistas – podiam servir para marcar mais claramente seus territórios e para legitimá-los socialmente. Os contraventores, ao entrar nas escolas e passar a dominá-las, tentavam construir a imagem de mecenas. Nas quadras, recebiam personalidades, artistas etc. Os dois filhos do presidente João Figueiredo, o último do regime militar, desfilaram na Beija-Flor de Anísio". 

CARNAVALESCO – Na ditadura como os enredos eram vistos e os desfiles das escolas de samba pelos militares? 

Aloy Jupiara: "Uma reportagem do Jornal do Brasil, de outubro de 1970, relata a ida a Brasília do presidente da Associação das Escolas de Samba do Estado da Guanabara, Amaury Jório. O objetivo era pedir apoio para o desfile das agremiações. A resposta que ele obteve foi que a escolas deviam buscar temas com "sentido mais construtivo e voltado para a atualidade do país". Na primeira metade da década de 70, enredos ufanistas e de apoio ao regime foram apresentados por escolas como a Beija-Flor (então já nas mãos do Anísio). "O grande decênio", sobre as "realizações" dos dez anos do golpe militar, foi um desses enredos. Mas a Beija-Flor não foi a única escola a fazer isso. No livro, citamos diversos outros sambas da época que cantavam o Brasil grande, como uma propaganda do regime".

CARNAVALESCO – Pode contar alguma história que esteja no livro falando do uso das escolas de samba?

Chico Otávio: "Na Beija-Flor, o uso da escola pela família de Anísio para garantir o poder político em Nilópolis. Com as vitórias da escola, Anísio tornou-se popular e parentes dele foram eleitos prefeitos ou deputados, como Simão Sessim". No livro, relatamos a criação da Liesa, que acontece no momento em que o Brasil se redemocratizava. Com a fundação dela, os bicheiros passaram a ter um canal oficial de diálogo com o poder público. Também contamos que a Operação Furacão, desencadeada pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal em 2007, registra o uso do espaço da Liesa para reuniões dos bicheiros. As duas primeiras sentenças resultantes da Operação Furacão condenam a cúpula do bicho (Capitão Guimarães, Anísio e Turcão) por corrupção e lavagem de dinheiro.

CARNAVALESCO – O que vocês não contaram sobre o envolvimento no carnaval, mas não houve mais espaço?

Chico Otávio: "Contamos tudo que encontramos em nossas pesquisas sobre o assunto. Essas pesquisas envolveram entrevistas com personagens, inclusive militares que atuaram na repressão, estudo de documentos oficiais guardados em acervos como o do Arquivo Nacional, leitura de jornais da época etc. Certamente há muito mais por vir. Os arquivos dos centros de Informações do Exército e da Marinha não foram abertos até hoje (argumentam que os documentos foram destruídos). Além disso, há todo o período posterior à criação da Liesa e à privatização do desfile da escolas, já no regime democrático. Esse período está relatado no livro, mas merecia um livro à parte".

CARNAVALESCO – Para a maioria do mundo do samba, as pessoas citadas no livro são os grandes mecenas da festa. Hoje, como vocês analisam a participação deles nas escolas e importância para o sucesso do desfile?

Aloy Jupiara: "O desfile já era o grande acontecimento do carnaval carioca quando os bicheiros passaram a dominar escolas e controlar o desfile. O Sambódromo foi construído antes da fundação da Liesa, o que mostra que o desfile das escolas já era muito importante na economia e na cultura da cidade. As escolas de samba já eram um sucesso internacional. O jogo do bicho se aproveitou disso, se apropriou do negócio".

CARNAVALESCO – No livro vocês falam do período em que foram presos pela juíza Denise Frossard? O que isso representou para o carnaval? 

Chico Otávio: "A sentença da juíza Denise Frossard é um marco histórico que vai muito além do carnaval. Tem importância para toda a sociedade brasileira. O julgamento derrubou a ideia do "bom bicheiro". A condenação por formação de quadrilha mostrava para todos que se tratava de uma organização criminosa. No carnaval, eles deixaram por um momento de ficar sob a luz dos holofotes, mas mantiveram o controle. Assim como no jogo, que não parou por causa da prisão deles. De dentro da cadeia, continuaram mandando. O jogo de forças muda ao longo do tempo. Um que está mais forte hoje, perde a força amanhã. Certamente, durante um longo período, entre as décadas de 80 e 90, Castor de Andrade foi um protagonista na cúpula da contravenção. Na aliança entre agentes da repressão militar e o jogo do bicho, o papel de Capitão Guimarães foi destacado, provocando, por exemplo, a demarcação dos territórios.".

CARNAVALESCO – Vocês percebem lideranças nas escolas que possam substituir essas figuras? E acreditam que o modelo será diferente? 

Aloy Jupiara: "Há lideranças sim, sempre houve entre os sambistas. Mas os bicheiros montaram uma estrutura de poder que impede que essas lideranças se formem, se destaquem e passem a administrar as escolas e o desfile – a não ser que estejam alinhadas com eles. E há o medo. Para muitos sambistas, enfrentar a posição dos bicheiros, fazer oposição às suas decisões, é assumir riscos, como o de ser boicotados, até banidos dos desfiles".

CARNAVALESCO – Vocês são jornalistas premiados e respeitados. Em alguma momento houve receio de fazer o livro ou alguma ameaça?

Chico Otávio: "O livro é objetivo. Está todo baseado em documentos e relatos. É uma reportagem de fundo histórico, não um artigo opinativo. Por isso não tivemos receio de escrever o livro. Ele relata fatos". 

CARNAVALESCO – Vocês são apaixonados pelo carnaval. O que pensam sobre o futuro do desfile das escolas de samba? 

Aloy Jupiara: "Os sambistas, as Velhas Guardas, as baianas e os demais segmentos, são os protagonistas da festa, não os bicheiros. O futuro dos desfiles está e estará sempre na arte dos sambistas.