SOS escolas do acesso

Longe dos holofotes da Marquês de Sapucaí e da atenção destinada pelo poder público às grandes escolas está o Carandiru, local já conhecido pelos amantes do carnaval carioca e que serve de barracão para diversas escolas dos Grupos de Acesso B, C, D e E. O CARNAVALESCO esteve presente no local pouco antes do Carnaval(veja vídeo da situação do Carandiru no início do ano) 2011 e, agora, cerca de seis meses depois, constata que nada mudou no insalubre posto de trabalho. Para piorar a situação, as escolas ainda vivem um dilema que parece sem solução: a qualquer momento podem ser despejadas, já que o terreno do Carandiru foi vendido pela União ao consórcio responsável pelas obras de restruturação da Zona Portuária do Rio.

Na primeira semana de julho, guardas municipais, policiais militares, três oficiais de justiça e representantes do CDURP – Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto – estiveram no local para cumprir a ordem de reintegração de posse, mas, devido ao grande número de alegorias presente no local e o apelo das escolas e entidades que organizam os grupos de acesso, além das cerca de 30 famílias que vivem no local, a ação foi adiada.

O assessor chefe de projetos especiais da CDURP, Daniel Van Raemdonck de Lima, revelou que a empresa não tem gerência direta sobre o assunto.

– Quem está responsável por isso é a União. Nós apenas damos o suporte solicitado. Me parece que eles já estão em contato com a Riotur buscando esse entendimento para que ninguém seja prejudicado.

Ainda insegura com a situação, Regina Passaes, diretora de carnaval da Unidos de Vila Santa Tereza, recém chegada ao Grupo B, pede mais consideração com as escolas menores.
 
– Os responsáveis pela cidade precisam olhar o carnaval de uma maneira diferente. As escolas de samba dos grupos de acesso estão largadas. Aqui é cada um por si. Não pode ser assim. Fazemos carnaval com dificuldade e somos parte da cultura carioca. Cultura esta que rende milhões a cada ano aos cofres públicos. Faltou sensibilidade ao vender esse terreno sem antes perceber que aqui é construído o carnaval de diversas escolas com muita importância – desabafou Regina.

Apontado pela Prefeitura como uma das opções para abrigar as escolas despejadas, um terreno na Avenida Brasil, na altura do bairro do Caju, parece também impossibilitado de abrigar as agremiações momentaneamente. Procurada pela reportagem do CARNAVALESCO, a Riotur respondeu através de sua assessoria que ''no final tudo terminará bem''. Além disso, o órgão não soube informar o motivo de a mudança das escolas para o terreno no Caju não ter acontecido.

Enquanto isso, as escolas continuam largadas à própria sorte. A declaração de Regina Passaes dá a dimensão da indefinição.
 
– Hoje eu não sei nem se poderíamos tirar os carros para o desfile, porque teríamos que passar obrigatoriamente pela área onde a obra já começou. Todos os dias, os caras vem aqui e medem de lá e de cá. Estamos ficando ilhados. Tenho certeza que se nós sairmos do barracão eles ocupam. O espaço aqui é muito grande. Era uma questão de organizar melhor e estruturar esses barracões, que não oferecem nenhuma condição de trabalho.
 
Já citado em outras matérias do CARNAVALESCO, o ambiente inóspito salta aos olhos de quem chega ao local. Logo na entrada, pequenos lagartos e grandes ratazanas dão as boas vindas, além da enorme quantidade de mosquitos que, de acordo com os trabalhadores do local, triplica durante a noite, tornando insuportável a permanência no Carandiru.
 
Outra questão que preocupa é o estado enferrujado das vigas de sustentação do teto, repleto de furos, o que ocasiona verdadeiras enchentes no galpão e aumenta os focos de dengue e de doenças como a leptospirose. Ainda de acordo com funcionários que trabalham no Carandiru, a Prefeitura disponibiliza apenas uma vez por ano um caminhão para retirar os restos de alegorias no local.
 
Além de seis escolas do Grupo de Acesso B e da Renascer de Jacarepaguá, que está no Grupo Especial e produz as alegorias no local até a liberação de seu barracão na Cidade do Samba, diversas escolas dos Grupos C, D e E ocupam espaço no Carandiru. Quem também já recebeu o comunicado de reintegração de posse foram Santa Cruz e Viradouro, que não estão no Carandiru, mas, assim como tantas outras que ainda não receberam a notificação, têm os seus barracões situados na Zona Portuária.