Sossego faz ritual animado, mas pouco inspirado visualmente

Por Thiago Barros

sossego_desfile_2018_81-3Acadêmicos do Sossego, terceira escola da Série A na Sapucaí em 2018, nesta sexta-feira, se apresentou com um samba-enredo diferenciado e elogiado, canto da comunidade justo, evolução com poucas falhas, mas erros notórios em diversos quesitos. Principalmente, nas alegorias e fantasias, com problemas de desenvolvimento e acabamento. Uma pena.

Campeã da Série B em 2016, a Acadêmicos do Sossego fez um bom desfile em 2017, com o enredo sobre Zezé Motta, e garantiu-se, tranquilamente, na Série A em 2018. Mas nesse ano as dificuldades foram maiores. Especialmente na parte visual. A escola levou somente três alegorias pra Avenida – e elas não impressionaram.

Assim como a comissão de frente, que apresentou uma coreografia simples e de difícil compreensão (além de falhas de execução), e o casal de mestre-sala e porta-bandeira que não teve uma noite inspirada. Até agora, disputa acirrada com a Unidos de Bangu, na parte de baixo da tabela.

Harmonia

sossego_desfile_2018_52O intérprete da escola foi Nêgo, que voltou ao Carnaval do Rio de Janeiro. Suas últimas apresentações foram em 2015, pela Imperatriz, e 2016, quando retornou à Leão de Nova Iguaçu na Intendente Magalhães. E ele honrou o nome, com uma apresentação segura e que empolgou a Sapucaí na entrada da escola.

O polêmico samba-enredo sem verbos fez a comunidade cantar forte no começo da sua apresentação. Infelizmente, foi possível notar altos e baixos no rendimento do canto dos componentes durante o desfile. Do terceiro módulo de julgadores em diante, já não dava pra sentir mais a mesma empolgação.

O desempenho das alas foi variando de acordo com um grupo e outro. Por exemplo, a Ala 7 (Inquisição) cantava forte, assim como a 13 (O Iluminar das Velas) e também 15 (Oferendas). Já as alas 9 (Maias e Astecas) e 8 (Grandes Navegações) tinham muitas pessoas caladas. Até a Velha Guarda cantou mais.

Evolução

sossego_desfile_2018_55A evolução da Acadêmicos do Sossego não teve grandes problemas. Houve detalhes a se considerar, como algumas alas muito espaçadas nas fileiras internas, caso notado especialmente na ala 14 (Os Ogãs), e outras deixando pequenos buracos (mas nada de grave) entre um grupo e outro (9 e 10).

Mas os componentes, no geral, brincaram Carnaval da maneira como se de fazer, não houve grandes problemas de atraso, correria ou escola muito tempo parada. Então foi positiva a avaliação do quesito no desfile da Azul e Branco.

Samba-Enredo

sossego_desfile_2018_70Há duas razões para o samba não ter verbos: uma é que o “eu” dá lugar ao “todos” em um ritual. Por isso, não pode haver mais conjugações. “Passamos a ser o próprio “Todo” e não mais indivíduos”, diz a justificativa oficial da escola. Faz sentido, e pode ser algo interessante para os julgadores levarem em consideração.

A outra é que, segundo os autores, “a sociedade clama por mudanças na estrutura estética do gênero samba-enredo”. Eles defendem que “há outras maneiras” de contar um enredo sem ficar presos aos verbos, “que por muitas vezes nos conduzem aos chamados clichês”.

Essa segunda justificativa, no entanto, parece um pouco vaga demais. Até porque, na Sapucaí, o samba rendeu corretamente, mas a sua letra pode ser interpretada como confusa por muita gente. Afinal, os verbos são fundamentais para o desenvolvimento de frases. Resta aguardar a Quarta-Feira de Cinzas.

Enredo

sossego_desfile_2018_75Nesse ano, a Sossego trouxe o enredo Ritualis, do carnavalesco Petterson Alves, que aborda os mais diferentes rituais da humanidade, em uma viagem multifacetada ao longo dos anos. E o trabalho do carnavalesco foi bem bacana em termos de contar a história que ele propunha.

O desfile foi dividido em quatro setores: “Nos acordes da Lira… O Santuário da Vida”, “Os antigos rituais da Humanidade”, “Os rituais do Novo Mundo” e “Os rituais do povo brasileiro”, mas com apenas três alegorias. Tudo de muito fácil leitura e com o tema bem desenvolvido para qualquer um que assistia.

O único problema foi que as fantasias e as alegorias não estavam com um nível alto de qualidade. Talvez por questões financeiras, já que o ano não está fácil para ninguém. O desenvolvimento do enredo, porém, não foi afetado por isso. Era possível compreender claramente toda a proposta apresentada.

Alegorias e Adereços

sossego_desfile_2018_81-3A Sossego foi para a Avenida com apenas três alegorias. O Abre-Alas, “Nos Acordes da Lira, o Santuário da Vida”, relacionava a Lira da escola com os rituais de magia da Era Primitiva. Era o carro de mais impacto visual, bem afro, com marrom, preto, palha, mas tinha problemas de acabamento na escultura principal e nas laterais.

A segunda alegoria trazia o combate efetuado pela Inquisição na Espanha contra antigos rituais. “Entre a cruz e a espada, Sabbath, bruxaria!” era o nome do carro alegórico, que era um pouco confuso – apesar da fácil leitura. Muitas cores, elementos misturados, e se as caveiras com olhos piscando eram interessantes, o acabamento das esculturas com as bruxas nas laterais deixou a desejar.

A última alegoria foi “Ritual de Iniciação: Súplica de Esperança: a Mensagem de Olorum”, que trazia um Yaô – o Rio de Janeiro – que, ao render-se ao culto africano, se inicia para Oxossi, o Grande Caçador, São Sebastião, padroeiro do Estado. Foi um carro apagado, com muitas falhas de acabamento no pescoço e na “saia” da escultura principal.

sossego_desfile_2018_44Fantasias

As indumentárias da Acadêmicos do Sossego não chamaram a atenção. Nem mesmo em alas tradicionais, como Baianas e Passistas. Por outro lado, a leitura não poderia ser mais simples. O primeiro setor é um grande exemplo dessa antítese entre o visual abaixo da média e a compreensão do enredo.

As alas eram Egípcios (2), Celtas (3), Brit Mila (4), Muçulmanos (5) e Cristãos (6). Tudo super claro. Especialmente a Brit Mila, das Baianas, claramente em referência a Israel. Porém, as fantasias eram super simples. A tendência se repetiu durante todo o desfile. Mas, claro, houve exceções.

Destaques positivos ficam para as alas 12, Ewe Fon – Raízes Voduns, com uma roupa principal preta e detalhes em dourado bem chamativos, e a Velha Guarda, com um tom de azul bem diferente e elegante. O oposto das alas 14 e 17 – com as vestimentas que pareciam roupas comuns, somente calça, camisa e pequenos chapéus.

sossego_desfile_2018_25Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Wesley Cherry e Naninha Fidelis, primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Sossego, estavam deslumbrantes. A fantasia, predominantemente dourada com detalhes em preto, rosa e laranja, representava a Fertilidade e o simbolismo existente no ato inicial de toda a existência: a vida.

Entretanto, a apresentação deles não foi das mais inspiradas. O casal parecia sofrer com problemas de entrosamento. Movimentos sem muita leveza, pouca conexão de olhares e alguns deslizes, principalmente nos momentos da darem as mãos após girarem, e até na hora de ele pegar a bandeira.

Não houve nenhuma falha grave, porém também não foi uma apresentação de saltar aos olhos. Vale destacar positivamente também a maquiagem. Ambos com rostos pintados, e dando um toque especial à coreografia, que tinha alguns passos bem coreografados com a letra do samba.

sossego_desfile_2018_10Comissão de Frente

A comissão de frente do Acadêmicos do Sossego prometia uma viagem no tempo para os primeiros rituais. O bailar coreografado representava as caças e colheitas no mundo invernal. Porém, ao contrário do restante do desfile, isso não era de fácil compreensão. Eram 14 homens e uma mulher no grupo coreografado por Thiago Manhães.

Ela era a caça, enquanto elas a caçavam. Até aí, tudo certo. Porém, a coreografia tinha momentos confusos. Em alguns momentos ela era levantada. No que seria o ápice da dança, ela trocava de roupa, mas sem muita explicação do que estava acontecendo. E, em paralelo, um homem cuspia fogo.

Além da dificuldade de leitura, também houve falhas técnicas. A apresentação da mulher no terceiro módulo pareceu menos inspirada, talvez por cansaço, com ela não fazendo a entrada da coreografia como fez nos dois anteriores. No segundo, o efeito do fogo teve problemas. O isqueiro não acendeu o bastão e o homem cuspiu só álcool.

sossego_desfile_2018_63Paradinha com cordas

Assim como a Unidos de Bangu, a Acadêmicos do Sossego apresentou surpresas bem bacanas na bateria. Mestre Átila comandou uma paradinha bem interessante, em que os instrumentos paravam, dava-se destaque às cordas e os componentes cantavam bem alto, antes de entrar no refrão principal.

Vale ressaltar também a presença de muita gente com camisa de diretoria na frente da escola. Em muitos casos, isso atrapalha, mas na Sossego ajudou. Todos estavam bem empolgados, cantando o samba, batendo palmas e acabaram mexendo com o público, que veio junto.