Superação para coroar o primeiro título da História

 

 

Depois de praticamente uma década de enredos patrocinados a Acadêmicos do Grande Rio vai buscar inspiração em seu próprio exemplo de superação para voltar a ter um tema autoral no Carnaval 2012. 'Eu acredito em você. E você? – Histórias de Superação' será o enredo que a Tricolor de Caxias vai levar para a Marquês de Sapucaí. Desenvolvido pelo carnavalesco Cahê Rodrigues, o desfile não ficará preso apenas ao drama vivido pela escola com o incêndio de fevereiro do ano passado. Muito pelo contrário, a ideia é mostrar os mais diversos exemplos de superação da história humanidade.
 
– O enredo foi dividido em seis setores. Ele nasceu após a nossa história de superação da tragédia do ano passado. Construímos um carnaval em 24 dias e convivemos diariamente com essa dificuldade. No primeiro setor vamos falar da superação através da fé. Todo ser humano que passa por algum problema, algum grande desafio na vida, o primeiro mover dele é acreditar em algo sobrenatural. É acreditar que algo dos céus vai descer e ajudar a enfrentar sua adversidade. Esse contexto de fé será tratado logo no primeiro setor – explica Cahê Rodrigues.


No segundo setor será a vez de mostrar os grandes gigantes internos que precisam ser superados. Os medos, as doenças, as drogas. Já no terceiro setor, Cahê Rodrigues trará para a Avenida alguns dos nomes de maior notoriedade em casos de superação na história da humanidade: Bethoven, maestro João Carlos Martins, Frida Khalo, Grande Otelo, Mercedes Batista e alguns outros que se tornaram símbolos por terem vencido suas adversidades.


Na sequência uma das maiores apostas de Cahê. O carnavalesco promete que cada setor do desfile da Grande Rio irá trazer algo emocionante, uma surpresa que mexa com as pessoas, mas ele também não esconde que a homenagem aos atletas paraolímpicos tem tudo para ser o ponto alto da passagem da Tricolor de Caxias pela Avenida. Neste setor, será abordada a superação através dos limites do corpo. Vários atletas paraolímpicos como Clodoaldo da Silva já confirmaram presença.
 
– O quinto setor vai falar da reconstrução através do amor. A superação através do coletivo. Mostraremos a reconstrução do Japão, após as bombas de Hiroshima e Nagasaki, as vítimas do Haiti, o povo Judeu, o Apartheid com Nélson Mandela. Este setor é voltado para a reconstrução de povos e nações – revela ele.
 
O lema 'Eu sou brasileiro e não desisto nunca' estará presente no sexto e último setor do desfile da Grande Rio. Ele dá nome a parte do desfile que abordará a luta diária do povo brasileiro por uma vida melhor. Tudo isso será contado com seis alegorias e quatro elementos alegóricos. Cahê Rodrigues afirma que não teve dificuldade para desenvolver o tema, mas precisou tomar cuidado para o enredo não perder o sentido carnavalesco.


– Não tivemos nenhuma dificuldade para condensar essa pesquisa. O nosso desafio foi construir um enredo em cima de histórias tristes, mas com finais felizes. Toda história de superação começa com um fato triste, depois é que se dá boas gargalhadas do problema. O carnaval foi todo construído em cima disso. É um desfile alegre, colorido e com alegorias incríveis. Em momento nenhum as pessoas ficarão tensas com o nosso desfile. Mesmo falando de problemas, mostraremos alegria.


 

A pesquisa foi feita em cima de livros de superação e nos próprios exemplos de superação que a Grande Rio teve dentro do seu próprio barracão, que recebeu muitos voluntários após o incêndio de fevereiro de 2011. Outro ponto positivo apontado pelo carnavalesco é o samba da escola, criticado em algumas enquetes e pesquisas de opinião. Para ele, a obra serve perfeitamente ao enredo.
 
– O samba que ganhou foi construído bem em cima da sinopse, os compositores foram muito felizes e criativos. Tudo o que a gente queria construir o samba foi bem direto. É claro que fizemos pequenos ajustes, mas nada que tivesse que mudar o projeto por causa do samba. Na verdade, enriquecemos de detalhes as alegorias para que as pessoas ligassem automaticamente ao samba.


Acostumada a ser sempre uma das primeiras escolas a terminar a confecção de seu carnaval. A Grande Rio passa por um ano atípico. Não poderia ser diferente, pois além de todas as fantasias e alegorias, perdeu todo o seu maquinário no ano passado. Isso acabou rendendo uma diferença de um mês no cronograma da escola, como revela Cahê Rodrigues. O carnavalesco garante, porém, que, apesar do problema, o trabalho não está atrasado, e todas as alegorias e fantasias ficarão prontas em tempo hábil.


Com todo o drama vivido pela Grande Rio em 2011 e a dificuldade para fazer o Carnaval 2012, um fato parece ter sido positivo. É visível a maior proximidade entre comunidade e diretoria. Tal cenário pode ser bastante benéfico para a agremiação, já que os 4.000 componentes da Grande Rio já mostraram que podem fazer a diferença no canto e somar para que a escola alcance o seu primeiro título. O símbolo maior dessa aproximação com os componentes, talvez seja o relacionamento de Cahê Rodrigues com a comunidade.
 
– Eu sou muito próximo da comunidade. Faço questão de ir aos ensaios e tenho um relacionamento muito bom com a escola. Acho que isso faz com que as pessoas tenham um carinho grande por mim. Faço por prazer, não faço por obrigação. Acho que uma escola sem comunidade não acontece. Quanto mais eu puder trazer a comunidade para perto vou fazer. Este ano não fizemos festa de protótipos e nos ensaios técnicos de quadra passei a explicar como era a fantasia de cada ala, explicando o significado. A reação das pessoas foi muito positiva. A comunidade cobra a presença do carnavalesco e eu nunca deixo de atendê-los. Quando você os trata com amor, carinho e respeito, recebe em troca toda essa manifestação.


Outro fato que pode comprovar essa mudança de postura da escola é o próprio enredo. Depois de muitos temas patrocinados, alguns que obrigaram o próprio Cahê e seus auxiliares a, literalmente, rebolarem para construir uma argumentação plausível, o enredo deste ano é autoral. O próprio carnavalesco nos conta como a diretoria lidou com isso.
 
– É uma novidade. Estamos apostando num tema autoral que não tem patrocínio. O Jaider resolveu juntar todos os empresários e apoiadores que a escola sempre teve e disse que havia chegado a hora de eles nos ajudarem. A Grande Rio abre as portas para as empresas e as coloca em primeiro plano, então chegou a hora de a escola ser vista de uma outra forma. É o momento da Grande Rio ser campeã, de falar sobre superação, e estamos construindo um carnaval sem patrocínio, com as ajudas desses amigos. Eu sou um profissional do samba. Depois que você é contratado tem que fazer aquilo que te oferecem. Ainda mais na Grande Rio, que é uma escola que sempre tem patrocínio. A Grande Rio sempre tem empresas, estados e pessoas que chegam aqui e oferecem patrocínio. É complicado disputar com cinco, seis milhões, mesmo que você tenha ideias incríveis. É o preço que você paga. Estou dentro de uma escola que me dá toda estrutura para trabalhar, mas é uma escola de negócios. A Grande Rio não faz só carnaval. Precisa produzir dinheiro para manter os eventos que organiza durante o ano inteiro. Já vim para cá sabendo disso. É claro que não deixo isso atrapalhar o carnaval. Quando a proposta não é legal, sou o primeiro a avisar aos presidentes.


Para os que torcem o nariz e apontam o enredo da Grande Rio como um tema de auto-ajuda, Cahê Rodrigues mostra serenidade. Ele prefere apostar na mensagem de esperança que pretende passar.
 
– Quem critica esse enredo é uma pessoa sem sensibilidade. Quem nunca passou por um momento de dificuldade e conseguiu se recuperar? Todos nós já vivemos situações assim e existem pessoas que precisam receber essa mensagem. Não ligo para quem critica o enredo. Peço que vejam o desfile primeiro para depois terem uma posição.


Buscando o primeiro título de sua história no Grupo Especial, a Grande Rio será sexta escola a desfilar na segunda-feira de carnaval. 

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