‘Surdo Um faz festa’ e Mangueira arrebata Sapucaí com desfile inesquecível

 

Esqueça tudo o que aconteceu até agora no Carnaval 2012 no Rio de Janeiro. Nada será mais comentado do que o desfile da Mangueira. Talvez não só até a apuração da quarta-feira de cinzas, mas pelos próximos anos. O que a Verde e Rosa fez na Sapucaí, neste domingo, foi inovador, histórico, empolgante, emocionante… Faltam adjetivos para classificar a apresentação da bateria "Surdo Um", que conforme diz a letra do samba-enredo, fez uma verdadeira festa no Sambódromo. Com uma paradona de uma passagem inteira do samba a cada módulo de jurados, ela abriu caminho para o casal de mestre-sala e porta-bandeira, que vinham escondidos, e para uma surpreendente roda de samba comandada por ícones do Cacique de Ramos e pelos cantores Xande de Pilares, Dudu Nobre e Alcione. Um verdadeiro espetáculo.

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A reação do público, é claro, não poderia ser outra: êxtase total. Aplausos, canto forte dos refrões e gritos de "é campeã" foram ouvidos durante boa parte da apresentação. Resta saber, no entanto, o quanto isso foi positivo para os jurados. Por exemplo: no ano passado, a Surdo Um também inovou com uma "paradona", emocionou a Sapucaí e perdeu pontos. Isso pode piorar neste Carnaval, já que o tempo em que os ritmistas ficarem sem tocar foi muito grande. Além disso, por muitas vezes, os intérpretes pararam de cantar e deixaram somente componentes e público levarem o samba – outra manobra arriscada e que levantou a galera, porém pode não ser tão bem vista por quem classifica as escolas ao final do desfile.

Fazendo uma analogia com o futebol, que tem tudo a ver com o samba, a Mangueira poderá ser comparada a dois dos maiores times de todos os tempos no esporte. Se for julgada de forma positiva, pode se tornar um Barcelona de Lionel Messi: encantador e vencedor. Se isso não acontecer, não tem problema: ela acabará na história do mesmo jeito. Como o Brasil de 1982. Zico e companhia deram espetáculo, mas não conquistaram a Copa. "Azar da Copa". E azar do Carnaval se a Mangueira não for premiada, no mínimo, com um retorno no sábado das campeãs.

Nem somente da curiosa manobra em que um "outro carro de som" e um casal de mestre-sala e porta-bandeira viveu o desfile mangueirense. A escola apresentou seu enredo em homenagem ao Cacique de Ramos, um dos maiores blocos carnavalescos do mundo, de maneira muito correta, com alegorias e fantasias adequadas – apesar de não muito luxuosas. O desenvolver do tema foi muito bom, com destaque para o belo abre-alas, que trouxe o nome da escola e um índio, simbolizando o Cacique de Ramos, tocando um surdo, e para a bem bolada última alegoria, com a Mangueira levando o samba até Marte.

Raphael e Marcella Alves brilharam muito como mestre-sala e porta-bandeira. Ele representava o índio símbolo do Cacique de Ramos e ela era a onça, do rival Bafo da Onça. Os dois deram um show de interpretação. A dupla já foi ovacionada por surgir "do nada" no meio da bateria e aplaudida ainda mais após se apresentarem. Com fantasias muito bonitas e uma coreografia bem desenvolvida, os dois se exibiram de forma irretocável. Um detalhe interessante: o segundo casal, no último módulo até o terceiro, veio na frente do principal, para ajudar no disfarce.

A comissão de frente, no entanto, não foi das mais criativas. Descrita apenas como "surpresa" no guia dos desfiles oficial do Carnaval, ela causou expectativa, porém inovou muito pouco. Trouxe orixás fazendo um ritual em cima de um tripé, que tinha como destaques as presenças de Jorge Aragão e Beth Carvalho. Além disso, alguns carros alegóricos aparentaram pequenos problemas de acabamento – no quarto, por exemplo, era possível ver rodas e tomadas penduradas na parte inferior.

Confira abaixo a análise do desfile cabine por cabine:

Cabine 1 – As arquibancadas dos setores 2 e 3 vieram abaixo em três momentos: quando a escola foi anunciada, quando Beth Carvalho apareceu na comissão de frente e, claro, na hora da impressionante manobra feita pela bateria "Surdo Um", que foi anunciada pelo presidente Ivo Meirelles. Vestido de cacique, ele se virou para os jurados, fez uma reverência e apontou para a bateria e depois para o seu olho, como quem dissesse: "vejam a Mangueira entrar para a história".

Quando os ritmistas pararam de tocar e abriram caminho para a roda de samba e o casal de mestre-sala e porta-bandeira, a reação foi de surpresa e muita, muita euforia. Mas um problema no carro de som, que deveria trocar o áudio para o do "tripé" onde vinham os cantores e integrantes do Cacique de Ramos, acabou tirando o som da apresentação para alguns setores da Sapucaí. A comunidade e o público, no entanto, trataram de resolver o problema, cantando forte e "firmando na palma da mão".

* Coreógrafo da Mangueira elogia o desempenho da comissão de frente

Cabine 2 – A comissão de frente da Mangueira, que vinha num tripé que representava o terreiro que, mais tarde, virou o cacique de ramos. usou uma coreografia simples, que não impressionou.

Mestre-sala e porta-bandeira da escola continuaram a bela apresentação do módulo 1. Dançando e dramatizando, o entrosado casal teve uma preformance impecável.

A bateria do mestre Aílton fez o paradão bem em frente à cabine de jurados. Quando voltou a tocar, levantou as arquibancadas. Porém, na passagem dos ritmistas pelo módulo anterior, as alas adiante, que passavam em frente à segunda cabine, atravessaram o samba e, ao perceber isso, pararm de cantar por um momento.

Pôde-se notar que a quinta alegoria tinha problemas de acabamento em sua lateral. As fantasias, apesar de fugir do enredo em alguns momentos ou possuir informações repetidas, numa visão geral estavam simples, mas de fácil entendimento e respeitando o roteiro do desfile.

A evolução da Estação Primeira ficou um pouco comprometida pelo tempo parado para apresentações e, na harmonia, apesar dos componentes cantarem muito o samba, os paradões fizeram a cantoria ficar atravessada.

* Veja a entrevista com o mestre de bateria da Mangueira

Cabine 3 – Os dançarinos da comissão de frente se apresentaram para os jurados deste módulo com uma coreografia executada inteiramente no tripé.

Raphael e Marcella, que se apresentaram depois do segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mangueira, mantiveram a qualidade e beleza de suas apresentações anteriores. Os dois, muito bem ensaiados com a bateria.

A bateria foi apresentada pelo presidente da escola, junto com o mestre e a rainha de bateria. O jurado, no entanto, só olhava para os ritmistas e não esboçou resposta alguma aos cumprimentos. O julgador do quesito analisou as bossas e a coreografia apresentada pela bateria diante do módulo.

Duas alegorias passaram apresentando falhas. O abre-alas tinha um grande buraco na parte de trás e a sétima alegoria tinha problemas de acabamento nas esculturas de sua lateral direita. Destaque para o último carro, que trazia o mestre Delegado e diversos baluartes da escola. Entre as fantasias, erros vistos somente na ala 25, que tinha o chifre de diversas cabeças quebradas.

As belezas e os problemas de evolução, harmonia e conjunto se mantiveram. Era fácil notar vários componentes da escola que passavam chorando de tanta emoção, mas o canto dos integrantes atravessavam durante os paradões e, quando a bateria voltava a tocar, muita gente se pegava cantando fora do trecho do samba e que os intérpretes retomam o comando da cantoria.

Cabine 4 – A reação foi semelhante a do início do desfile. E não poderia ser diferente. A apresentação feita por bateria, casal e intérpretes deu um ânimo incrível aos setores 10 e 11, além das arquibancadas populares. A comissão de frente, que havia se apresentado sem erros no primeiro módulo de jurados, repetiu sua exibição no último, mas a escola encontrou pequenos problemas de evolução no final da Sapucaí.

A Mangueira ficou um bom tempo parada e a grande quantidade de pessoas se movimentando pelas laterais da Marquês também atrapalhou. As alegorias e fantasias passaram sem problemas e o enredo pareceu desenvolvido de forma clara. O entendimento foi fácil, o que também ajudou no resultado final. Alguns componentes chegaram a correr no finalzinho, porém a Verde e Rosa encerrou o desfile sem atrasos.

Na dispersão, nova festa. A bateria não parou de tocar, o samba seguiu firme, mas misturada à letra, dois novos elementos no canto de muitos componentes e torcedores: lágrimas e gritos de "é campeã".

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