Tantos outros carnavais

Vida de quem gosta de carnaval é mesmo muito dura.

Mal acabou a folia e lá estava eu no Teatro Rival assistindo a biografia musical de Haroldo Lobo.

Mas quem é esse cara? Muitos de vocês, tal como minha filha, devem estar perguntando: Haroldo Lobo? Vamos ver… como é que vou explicar … é mais ou menos o seguinte.
É assim como se fossemos falar da literatura brasileira e citássemos Guimarães Rosa e Machado de Assis deixando de fora Graciliano Ramos. Ou se falássemos de Pelé e Zizinho e não falássemos de Garrincha. Donga e João da Baiana deixando Pixinguinha de fora, certo?
Falando de carnaval é como se citássemos Lamartine Babo e Braguinha e não citássemos Haroldo Lobo. Pois é assim. Sergio Cabral, pai, resume. A santíssima trindade dos carnavais cariocas: Lamartine Babo,
Braguinha e Haroldo Lobo.

E lá estava eu, cercado de pessoas queridas, vendo e ouvindo aquilo tudo. E não pude evitar a auto provocação: qual seria a santíssima trindade dos sambas-enredo? Mas isto é papo para outro dia.

Na verdade eu já havia assistido a estréia do espetáculo. Ali era a segunda de muitas outras vezes, espero.

Ouvi uma, duas, três marchinhas e baixou em mim um sentimento assim meio de tristeza, sei lá… alguma coisa muito parecida com isto. Eu, na verdade, estava mesmo é me perguntando: como pudemos ter sido assim um dia?
Ficava ali imaginando a nossa cidade, capital de um país ainda indefinido, buscando sua identidade e seus caminhos.

Era um carnaval de compositores-cronistas, de observadores do cotidiano que despejavam em fevereiro um resumo da vida social e política daquele país que engatinhava. Cantava-se a própria vida, ria-se e expunha-se a vida da cidade, da capital, espelhando o espírito daquele momento, uma cidade quase de brinquedo, comparada com hoje.

O poder era aqui, pertinho de nosso nariz, diante de nossa cara. A Câmara dos Deputados era ali na esquina, o Senado Federal do outro lado. Não havia ninguém escondido tão distante naquele planalto central. Cada deputado federal, cada senador era nosso vizinho, menos
ou mais distante.

A impressão que tenho é que era preciso muito mais peito para pôr dinheiro na meia ou na cueca; muito mais coragem para tanta cara de pau e cinismo que vemos hoje de tão longe.

O funcionalismo público, aqui concentrado, aproveitava o tempo disponível para a produção de um inesgotável arsenal de piadas até hoje ainda contadas.

O país hiper, super subdesenvolvido, a cidade com favelas por todo lado; tempos em que a violência urbana tinha apenas dois canos de uma "garrucha" e a lâmina afiada das navalhas. Atravessar ruas era a coisa mais fácil do mundo.

No futebol já botávamos nossos pezinhos de fora depois da Copa de 38: quase chegamos lá, contam os mais cascudos. E na de 50 que acabou virando tragédia.

Cada pai, cada avô contou de sua maneira. Só mesmo o carnaval daqueles anos para descontar tanta tristeza.

E descontavam mesmo, aqueles outros carnavais.

 Fico imaginando os maiores artistas brasileiros deste nosso tempo envolvidos com o carnaval, tal como era naquele tempo de nossos pais e avós: Francisco Alves, Orlando Silva, Dalva, Dircinha e Linda Batista cantando as músicas, os sambas e as marchinhas que aquela geração deixou para cantarmos no Bola Preta, a cada carnaval.

O Bola é a história de nossas alegrias colorindo a velha Avenida Central que não vimos.

O carnaval era tudo, era o máximo, o maior momento cultural de um país tão inocente, uma gente trabalhadora, tão otimista, bem humorada, alto astral: tão cheia de esperança.

Hoje sabemos que muita gente, sempre eles, de inocente não tinha nada, nunca tiveram.

E eu ali no Teatro Rival pensando: como pudemos ter sido assim um dia?

E ia ouvindo, ouvindo. Conhecendo tanta coisa de Haroldo Lobo que eu nem sabia que era dele.

Braguinha era o rei, Lamartine tanto quanto ele, mas Haroldo Lobo fez sua parte. Ora relatando o dia a dia, ora destilando seu humor:

"A história da maçã É pura fantasia Maçã igual aquela
O papai também comia".

Pode, uma coisa dessas, u´a mente dessas? Ou captando o mais lírico espírito do carnaval:
Guardo ainda bem guardada a serpentina
Que ela jogou
Ela era uma linda Colombina

E eu um pobre Pierrot. Pode, tanto lirismo?
E captando a mais fina galhofa carioca:

Por um carinho seu minha cabrocha
Eu vou a pé a Irajá
Que me importa que a mula manque
Eu quero é rosetar
E os dramas populares: Chora palhaço
Chora que passa
Pimenta nos olhos dos outros é refresco
Acho-te uma graça
Sem deixar nunca de lado as memoráveis batalhas de amor: Você não é
Mais meu amor Porque vive a chorar? Prá seu governo
Já tenho outra
Em seu lugar.

E assim que nestes nossos tempos medíocres, belicosos, de tanta intolerância, egoísmo e mau humor fico a perguntar se o pobre Salman
Rushdie estivesse escrito hoje a marchinha Alá-lá-ô ao invés de seus "Versos Satânicos"? Que reação teria causado ao então Aiatolá Khomeini:
Alah! Alah! Alah! Meu bom Alah!
Mande água pra Ioiô Mande água pra Iaiá Alah, meu bom Alah!
Mas que calor, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô ô ô ô

E é assim que o emérito Portelense Carlos Monte, engenheiro de profissão, carioca e folião apaixonado, traz emocionadamente ao palco a energia, o humor e talento do "Sururu na Roda",
e com eles toda a magia e o encanto daqueles carnavais.

E vai buscar sambas de Haroldo Lobo com Wilson Batista para mostrar ao final dois exemplos opostos dos conflitos da boemia de então, trazendo discussões tão modernas e tão
carnavalescas das relações homem-mulher, tal com as de Colombina, ora com o Pierrot ora com
o Arlequim que trazemos escondidos em nossas almas.
No clássico "Emília" a busca é pelo amor racional, caseiro, acomodado e tão modernamente "condenado": Quero uma mulher
Que saiba lavar e cozinhar
Que de manhã cedo
Me acorde na hora de trabalhar
Só existe uma e sem ela não vivo em paz

Emília, Emília, Emília
Eu não posso mais.

Já em outro clássico – "Sambei 24 Horas" – o quadro se inverte e é ela, a mulher, que absolutamente independente cai no samba e chega à casa altas horas da madrugada. Absolutamente sedutora, "suplica" que o malandro lhe abra a porta de casa para que possa enfim
descansar da folia.

Tempos de sandálias de prata, sapatos de duas cores, amores tórridos e muita folia. Que maravilha:
Sambei 24 horas, sambei
Sambei tanto que a sandália furou
Ele me viu de madrugada Pulando na calçada Quando voltei não quis Abrir a porta do chatô.

Ai, ai, ai, amor
Não deixe sua pretinha no sereno
Que ela vai se resfriar
Ai, pretinho
Eu venho de Madureira
Tô cansada quero descansar.

Aqueles eram os anos 40/50. Tempos contados e cantados, encantados no palco. Nossa alma foliã ali exposta; nosso humor, nossa picardia, nossas alegrias; dramas e amores urbanos e momescos. Histórias desfiladas de nossa gente, de nossos pais, nossos avós: nossa ancestralidade carnavalesca. Tempos em que, parece, todos eram mais puros, mais felizes, muito mais cariocas do que somos hoje. Quantos de nós somos hoje tão tristes… Ou será que o nome disto não é tristeza? Quem sabe uma saudade doída de um tempo que não vivemos e que vivemos para buscá-lo.

Quando dei conta o espetáculo terminava e eu ali, com aquele sentimento indefinido, perdido nas imagens do tempo
sonoro daqueles sambas e marchinhas imortais. Querendo saber, procurando respostas: como pudemos ter sido assim um dia? Querendo saber, enfim, o que fizeram de nós…

Sugestão para ouvir agora:

Samba: "Sambei 24 horas", de Haroldo Lobo e Wilson Batista; Voz: Cristina Buarque;
CD: Ganha-se Pouco Mas É Divertido; Faixa nº 1;
Gravadora: JAM  Music ;
Produção: Hermínio Bello de Carvalho.