Tijuca peca em alegorias, mas presta homenagem justa a Miguel Falabella

Por Thiago Barros

tijuca_desfile_2018_98-9Miguel Falabella é um dos nomes mais importantes da história recente da cultura nacional, e toda homenagem a ele é muito justa. Prova disso é o desfile da Unidos da Tijuca, primeira escola a se apresentar nesta segunda-feira de carnaval na Sapucaí. Contra todas as críticas que recebeu pelo enredo no pré-carnaval, a agremiação fez um desfile digno do seu retrospecto nos últimos anos (exceto em 2017, quando teve uma apresentação extremamente conturbada, claro).

O principal destaque foi a leitura do enredo. Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo fizeram um excelente trabalho de fantasias. O problema é que o nível das alegorias não repetiu esse sucesso. Os carros eram bem simples e com o padrão visual abaixo das principais escolas do Especial. Fora isso e alguns buracos, a escola pouco errou.

tijuca_desfile_2018_08A bateria Pura Cadência, do mestre Casagrande, novamente conduziu o desfile com maestria, assim como Tinga no carro de som e o canto dos componentes. Essa passagem da Tijuca pela Sapucaí serve para trazer de volta o orgulho dos componentes tijucanos após a tragédia do ano passado. Um retorno no sábado parece estar perto para a escola.

Enredo

O desfile da Unidos da Tijuca não poderia ser de leitura mais fácil para quem foi à Sapucaí nesta segunda. “Um Coração Urbano: Miguel, o Arcanjo das Artes, saúda o povo e pede passagem” foi o enredo de Annik Salmon, Hélcio Paim e Marcus Paulo para a escola do Borel em 2018.

tijuca_desfile_2018_27-2“Ator, autor, diretor, apresentador, um artista multimídia e um trabalhador incansável, de fé inabalável em sua religiosidade”, Miguel Falabella foi o grande homenageado. Segundo a sinopse do enredo, “falar da trajetória de Miguel Falabella significa abordar uma parte importante e representativa da cultura brasileira. Afinal, são 40 anos de teatro e mais de 30 dedicados a televisão”.

A escola abriu seu desfile com “Do Reino dos Mares, a inspiração”. Influenciado pelos livros “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, e “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, de Monteiro Lobato, o homenageado se imagina príncipe do seu próprio reino marinho, que é o bairro onde foi criado, a Ilha do Governador.

tijuca_desfile_2018_30Depois, vieram os setores que contam a trajetória de Miguel: O Tablado de Maria Clara Machado, Um Coração Urbano no Mundo das Palavras, Fenômenos de Audiência e “Musicais de tantas sensações”. Contando os sucessos dele em várias áreas. No fim, “Um toma lá, dá cá, de gente bamba”. Um baile carnavalesco, com diversos grupos formadores da folia, dá a “noção de espetáculo” da vida de Miguel unindo a sua vida ao dia a dia da Unidos da Tijuca.

Fantasias

O conjunto de fantasias da Tijuca apostava na fácil leitura e na simplicidade. É o estilo da escola há muitos anos, e foi mantido. Destaque para as indumentárias de programas de TV, como TV Pirata e Salsa e Merengue, além de Magda, madrinha da bateria (Marisa Orth) e Caco Antibes, de Sai De Baixo, os ritmistas.

tijuca_desfile_2018_48Samba-Enredo

As referências a esses clássicos estarão também no samba-enredo. Totonho, Mart’nália, Dudu, Marcelinho Moreira, Fadico assinam a obra, que tem referências a “Toma lá, dá cá”, “Pé na cova” e “Sai de baixo”. A obra, no pré-carnaval, teve uma polêmica.

O primeiro verso do refrão principal usa o termo “povo do samba”, totalmente identificado com a Unidos de Vila Isabel. Polêmica à parte, a obra rendeu de maneira razoável. A melodia do samba tinha a cara da Unidos da Tijuca e os setores da escola estavam bem descritos na obra.

tijuca_desfile_2018_70Harmonia

Uma das harmonias mais fortes do Grupo Especial, a Unidos da Tijuca fez bonito de novo. Não chegou a ser um sacode como em outros anos, mas certamente foi uma apresentação digna da tradição da agremiação no quesito. Tinga conduziu o samba de maneira correta, e os componentes cantaram bastante.

Destaque para as alas 6, 8 e 19, por exemplo, mas é até injusto apontar só uma ou outra, porque o desfile foi bem uniforme neste ponto.

tijuca_desfile_2018_45-13Evolução

A Unidos da Tijuca pecou em evolução. Não que os componentes não estivessem brincando ou tenham passado bagunçados. Pelo contrário. Nisso aí, tudo certo. Só que houve buracos, tanto entre casal e comissão como também entre passistas e a bateria. No segundo e no terceiro módulos.

Comissão de Frente

Composta por 15 homens, a comissão de frente da Tijuca significava “O Teatro é a minha religião”. Renato Vieira faz uma louvação à arte dos palcos, na qual Miguel é referência. Os bailarinos dançavam em um culto a Dionísio, o deus das artes, na primeira parte da coreografia.

tijuca_desfile_2018_19-5Depois, ela tratava também do uso das máscaras e dos figurinos realistas do teatro moderno. Tudo com grande destaque à forte religiosidade desse povo – que saúda o Arcanjo Miguel, o Protetor das Artes. Foi uma apresentação correta nos módulos, mas que não teve nenhum momento impactante.

O baliado começava com um grupo de mascarados fazendo a homenagem a deus Dionísio, depois eles trocavam de roupa, viravam personagens do Carnaval, e ele, entrando no tripé, se transformava em Miguel Arcanjo. O único deslize foi que ele só ligou o coração de LED da sua fantasia depois de aparecer no segundo módulo.

tijuca_desfile_2018_24Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Alex Marcelino e Jack Pessanha são o 1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, fantasiado de Mergulho nas Águas Claras, com indumentária branca e prata, com diversos tons diferentes de azul, realçando a pureza e a inocência do pequeno príncipe Miguel Falabella.

O bailado da dupla foi bem executado na grande maioria dos momentos do desfile. No segundo módulo, porém, Alex demorou um pouco para pegar a bandeira, logo no começo da apresentação. Por falar em começo, o início da coreografia deles, a entrada nos módulos, era de alta dificuldade e sempre muito bem feita.

tijuca_desfile_2018_73-1Alegorias e Adereços

A Unidos da Tijuca teve problemas com seu conjunto alegórico. Não houve falhas de acabamento, mas a concepção dos carros alegóricos era de gosto duvidoso. O abre-alas, O PEQUENO PRÍNCIPE EM SEU REINO DAS ÁGUAS CLARAS, tinha materiais muito simples e, apesar de todo o seu colorido, não causava o impacto esperado de uma primeira alegoria.

A segunda alegoria era o ESPELHO DE “CLARA” SABEDORIA, em referência a Maria Clara Machado, com os personagens da autora, que foi uma das grandes professoras do homenageado. Os espelhos na parte traseira até davam efeitos interessantes, mas só isso.

tijuca_desfile_2018_74O FASCÍNIO DA ESCRITA, terceiro carro alegórico trouxe à tona a velocidade, representada pelo girar dos aros, com que o tempo passa, ao mesmo tempo em que surgem os primeiros traços de diversos roteiros e personagens de Miguel Falabella. Era uma alegoria vazada, sem grandes atrativos visuais além do efeito de giros de alguns pontos.

A quarta alegoria evidenciava os bastidores de uma gravação de TV e cinema. A MÁQUINA DE FAZER DOIDO destaca três sucessos de Miguel: “Sai de baixo”, “Toma lá, dá cá” e o “Video show”. Diversos companheiros dele nesses programas estavam lá e foram ovacionados, em um elemento muito legal, no centro do carro, que ia virando os cenários. Mas o visual dele também não agravada.

tijuca_desfile_2018_78‘LA MANCHA’ NAS TEIAS DA MULHER-ARANHA era o quinto carro, que marcava as adaptações de “O Beijo da Mulher Aranha” e “O Homem de La Mancha”, dois grandes clássicos da Broadway, que tiveram a participação direta de Falabella. O melhor carro do desfile, com uma “ala” na parte da frente, que fazia a escultura da aranha soltar uma teia.

Depois de viajar ao longo dos anos e da trajetória de Miguel Falabella é chegada a hora de sair de sua Ilha Mágica e curtir o maior de todos os musicais: o carnaval na Sapucaí. EMBARQUE NA FANTASIA foi o carro que fechou o desfile. Um novo barco, com as cores da escola, mas que também não impressionou.

tijuca_desfile_2018_97Que cadência!

A bateria da Tijuca, Pura Cadência, veio justamente de Caco Antibes, personagem histórico de Falabella no Sai de Baixo. Com direito a Marisa Orth, a eterna Magda, fantasiada como a personagem, como Madrinha. Foram 272 ritmistas. A rainha Juliana Alves veio como A Alvareza, pecado capital marcante de Caco Antibes, em seu sexto ano à frente dos ritmistas do Borel. A bateria fez mais um excepcional desfile na Sapucaí, com apresentações simples, mas eficientes, na mesma pegada durante toda a passagem. É aquela tradicional “bateria raiz”, de samba mesmo, e conduziu muito bem o desfile tijucano.

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