Paraíso do Tuiuti faz melhor desfile de sua história e sonha com o sábado das campeãs

Por Vinicius Vasconcelos

tuiuti_desfile_2018_80-2Quarta escola da noite, o Paraíso do Tuiuti tem muito o que se orgulhar. A começar pela comissão de frente, que proporcionou ao público – das arquibancadas as frisas -, uma apresentação emocionante. Escravos, feitor, e pretos velhos vinham na cabeça da escola pedindo passagem com uma coreografia excelente.

O samba-enredo já era bem avaliado por toda mídia especializada, e aconteceu na hora do desfile. A trinca de intérpretes conduziu com maestria a obra de Cláudio Russo, Moacyr Luz e parceiros. Funcionou perfeitamente e estava na ponta da língua não só dos componentes, mas também do público, que cantava forte o refrão, principalmente, no trecho “Meu Deus! Meu Deus! Se eu chorar não leve a mal”.

Não há dúvidas de que o integrante do Tuiuti pode sonhar com a histórica vaga no sábado das campeãs. A evolução da escola se desenvolveu com excelência e tranquilidade. Canto forte e alas muito bem organizadas, o chão da escola merece ser bem avaliado.

tuiuti_desfile_2018_75Em 2017, o Tuiuti já havia feito desfile para brigar pela permanência, e 2018 foi infinitamente superior. Com um enredo de clamor popular, onde mencionava a escravidão de ontem do hoje, a escola pisou muito forte na Marquês de Sapucaí e mostrou suas credenciais. Durante todos os 74 minutos que passou pela avenida, com o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, não houve dúvida de que todo o povo de São Cristóvão merece voltar entre as seis primeiras de 2018.

Comissão de frente

tuiuti_desfile_2018_16Os dançarinos representavam escravos negros amordaçados, com grilhões nos punhos e corpo ensanguentado de tanto apanhar pelo senhor do engenho, que também era negro. Após apanhar, o escravo clamou ajuda aos pretos velhos que saiam de dentro do elemento alegórico e davam um passe digno de qualquer terreiro.

Em seguida, aconteceu o auge da comissão. Ao ir em direção do escravo para açoitá-lo novamente, o senhor de engenho foi impedido por todos os preto velhos, causando comoção geral nas arquibancadas. Agora, livre dos grilhões, o escravo comemora a liberdade ao lado do senhor. Apesar de ter se apresentado com perfeição nos dois primeiros módulos, o terceiro não foi tão perfeito. Um dos escravos sofreu uma queda durante a apresentação para os jurados e a comissão pode perder algum décimo.

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tuiuti_desfile_2018_65Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Estreando no Tuiuti, Marlon Flores e Daniele Nascimento mostraram extrema competência e qualidade em suas exibições para as quatro cabines de jurados. A troca de olhares entre eles, as caras e bocas dela, e a sutileza dos movimentos dele resultaram num bailado de muito bom gosto. Luxo não faltou na fantasia que era predominantemente dourada, cravejada de strass e outras pedras, com faisões azuis no costeiro dele e na saia de Danielle. Alguns detalhes podem interferir na nota do casal: no segundo módulo de julgador, o mestre-sala não alcançou a bandeira para segurá-la e demorou um tempo a mais; e no terceiro módulo, um pequeno detalhe da fantasia de Marlon caiu no antes da saída do casal e pode haver punição. Com coreografia baseada em trechos do samba-enredo, a que mais atraiu os olhares foi a homenagem aos pretos velhos, em que ambos imitam movimentos feitos pelas entidades.

tuiuti_desfile_2018_40-9Harmonia

Depois de ensaiarem incessantemente em São Cristóvão, a comunidade pode se orgulhar do trabalho desenvolvido na passarela. Com canto muito forte do início ao fim, o quesito teve sua excelência. As alas 6, 23, e os passistas se destacaram pois além de cantarem muito evoluíam com perfeição.

Enredo

A proposta de Jack Vasconcelos foi de clamar a liberdade. Não só dos escravos antes da Lei Áurea, mas a escravidão dos dias de hoje. No trabalho escravo rural, no informal, e na atual proposta para a mudança da CLT. O carnavalesco fez críticas aos manifestantes de 2016 que saíram as ruas fantasiados de patos e os apelidou de “Manifestoches”. Apesar do cunho humorístico do último setor, o enredo também estampou as feridas do sistema político brasileiro.

tuiuti_desfile_2018_40-3Evolução

Em todos os ensaios de rua o diretor de carnaval Thiago Monteiro pedia aos desfilantes para se divertirem, como se estivessem libertos de toda escravidão. E isso aconteceu. As alas fizeram festa do início início ao fim, com canto forte e muita organização sem deixar espaços entre uma e outra. Samba, canto, empolgação e emoção não faltaram.

Samba-enredo

Todas as críticas especializadas apontavam a obra como a melhor do ano no pré-carnaval. A pista garantiu o sucesso da obra. Conduzido com muita categoria pelo trio Nino do Milênio, Celsinho Mody e Grazzi Brasil, que cantaram juntos pela primeira vez na Sapucaí, a poesia rendeu ainda mais. Destaques positivos para o trecho “Ê, calunga, ê! Ê, calunga! Preto velho me contou, preto velho me contou”. O rendimento atingiu todas as expectativas criadas em cima da obra e mostrou que samba de encomenda também pode ser bem visto com bons olhos pelos sambistas. Mesmo com um pequeno erro de andamento no início do esquenta (muito acelerado), a apresentação não ficou comprometida assim que o samba de 2018 iniciou.

tuiuti_desfile_2018_80-12Fantasias

Espalhadas em 29 alas, as fantasias apresentavam extremo bom gosto e bastante riqueza de detalhes. Todas estavam muito bem acabadas e proporcionavam leitura para quem observava o espetáculo de criatividade. De belíssimo gosto, a ala 9, que representava a “África e Europa”, e era dividida entre pessoas com adereço de rinocerontes e o restante com barcos. Trazendo no movimento a união entre o continente europeu e o africano. Vista de cima, a paleta de cores do Tuiuti estava belíssima, como é característica de Jack Vasconcelos. A transição entre uma cor e outra era sutil e mesmo com um grande número de alas em tons marrons as fantasias não perdiam sua originalidade.

tuiuti_desfile_2018_70Alegorias

Imponentes. O abre-alas da escola impôs respeito devido ao seu tamanho e acabamento. Era um grande quilombo, com resistência e sabedoria das tribos africanas. O carnavalesco brincou nas cores e mostrou muita qualidade na sutileza de cada detalhe que compunha os carros. O último carro alegórico chamado de “Neo-tumbeiro” fez um paralelo entre a escravidão e os participantes de manifestações a favor do governo atual, onde eram representados por fantoches. Apesar de bem iluminadas e com movimentos, o carro número 4 chamado de “Ouro Negro” que continha um grande preto velho no topo, possuía um problema de acabamento no pescoço que deve perder décimos preciosos.

tuiuti_desfile_2018_60-16Outros destaques

O presidente Renato Thor, que em seu discurso inicial agradeceu apoio da prefeitura e da Liesa, veio à frente da escola com o sorriso de quem fez o possível para que o Tuiuti estivesse na avenida. A animação do dirigente gerou aplausos de quem estava nas frisas e muitos batiam palma enquanto ele passava.