Um justo reconhecimento

É claro que o foco da observação e análise do desfile das escolas de samba do Rio está voltado basicamente para o Grupo Especial. Mas, em 2012, voltei boa parte da minha atenção para a terça-feira de carnaval, mais especificamente para a passagem da Caprichosos de Pilares. Sabia que, depois de maus bocados a azul-e-branco voltaria a emplacar uma grande apresentação – foi pule de dez.

Mas o triunfo da Caprichosos foi além do que simplesmente um grande espetáculo. Um personagem histórico do carnaval me chamava ali a atenção: o carnavalesco Luiz Fernando Reis. Foi exatamente há trinta anos, numa manhã de terça-feira de carnaval, que esta escola de samba, liderada pelo seu contestador carnavalesco, dava um bico nas regras e ditames impostos pelo regime da época, e começava a escrever um novo capítulo na maior festa popular do Rio de Janeiro.

Era um período em que, não só o carnaval, mas todas as manifestações artísticas e culturais, viviam engessadas pelas normas da famigerada Censura Federal. Desde sambas até mesmo croquis de fantasias tinham de ser submetido aos censores (aliás, sobre este assunto, vale uma visita ao Arquivo Nacional. Lá há registros da liberação deste material à época, inclusive do clássico samba "Bum Bum, Paticumbum, Prugurundum", do Império Serrano, que era obrigado a explicar verso por verso o significado do que pretendia apresentar na Avenida). Os ares de redemocratização já pairavam sobre o Brasil, desde a anistia em 1979. Estava mais do que na hora de o carnaval apresentar-se diante daquele novo cenário político. Vale lembrar que as marchinhas, tradicionais elementos de crítica político-social até os anos 60, tinham sido praticamente exterminadas pela dureza daquele status quo.

Eis que surge o espírito revolucionário de Luiz Fernando que, a despeito das determinações reacionárias da época, colocou na Avenida o seu "Moça Bonita Não Paga, Mas Também não leva". Neste enredo, mostrava o espírito de uma feira livra, mas salientava alguns dos males que afligiam os brasileiros à época: a inflação e a caristia (em 24 de fevereiro de 1982, o Jornal do Brasil fez um pequeno registro deo desfile. Confira em http://news.google.com/newspapers?id=n3w0AAAAIBAJ&sjid=JM0EAAAAIBAJ&hl=pt-BR&pg=6285%2C1415080).

O espírito contestador de carnavais de outrora, principalmente dos blocos e das marchinhas, estava adotado nas escolas de samba a partir dali. A crítica social virou o carro-chefe da Caprichosos de Pilates. A escola chegou à elite do carnaval do Rio e assumiu esta cara. E a coragem. Como esquecer 1984, e a alegoria em que os ministros do então presidente João Baptista de Figueiredo eram retratados como "Os Trapalhões". Ou ainda um carro alegórico de 1985 criticando o presidente da República – vale lembrar, o último do regime militar – bem diante dos olhos da então primeira-dama, Dona Dulce, que assistia ao desfile num camarote da Sapucaí (Um detalhe: durante a pesquisa, constatei que os filhos do presidente Figueiredo desfilaram na Caprichosos em 1982, uma ironia, sem dúvida. http://news.google.com/newspapers?id=oXw0AAAAIBAJ&sjid=JM0EAAAAIBAJ&hl=pt-BR&pg=903%2C1127178).

Por essas e por outras que o professor Luiz Fernando Reis escreveu seu nome não só no livro de ouro da Caprichosos de Pilares. Mas também do moderno carnaval carioca. Valeu demais a homenagem que a escola o prestou durante o desfile de 2012. Foi um reconhecimento mais do que justo a uma figura que deu uma identidade artística à agremiação e mostrou que, em nenhuma circunstância histórica deste país, a alienação política reina no mundo do samba e do carnaval.

PS – Uma dica para o Museu da Imagem e do Som. Presidente Rosa Maria Barboza de Araújo; vice-presidente Raquel Valença, minha querida amiga; e Mariana Costa, assessora de comunicação social, eis aí um personagem que não deve passar despercebido para nos ajudar a entender a história do carnaval carioca a partir dos anos 80.
 

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