Um novo julgamento

O julgamento do carnaval deste ano gerou muita reclamação. E deu motivos para isso ao quebrar a linha de evolução dos últimos anos. Isso é péssimo para o evento. É hora de dar um basta neste sistema para o bem do próprio carnaval. A sociedade vive um momento de transparência que exige a renovação deste processo.

Há quem defenda a troca de todo o corpo de julgadores, mas o problema não está só nas pessoas. Já tratei muito do assunto, mas esse momento é oportuno para reafirmar algumas posições pessoais. É um assunto de solução praticamente impossível, mas acho que os erros podem ser minimizados.

REFORMA DE CONCEITOS E CRITÉRIOS

A primeira mudança – mais urgente – é a revisão dos conceitos e critérios de julgamento. É fundamental que se minimize a possibilidade de distorções e que se premie o mérito ao invés de punir a falha.

É preciso acabar com esta história de que todos começam com a nota máxima e vão perdendo pontos ao longo do desfile. O julgamento deve começar da nota mínima e graduar cada escola conforme ela for preenchendo os itens pedidos pelo manual do julgador.

É preciso, entretanto, diferenciar quem faz o básico previsto no regulamento de quem faz mais do que isso. E um décimo muitas vezes é pouco para medir esta diferença. Uma escola que preencher todos os critérios básicos deve obter um número limite e de pontos e a partir daí quem fizer melhor vai ser premiado – também com limites para evitar exageros.

Ao mesmo tempo é importante padronizar a pontuação para que não haja distorções. Cada item previsto na redação do quesito vale um determinado número de décimos de acordo com a sua importância. Em cima disso cada julgador vai avaliar com objetividade o que vê. Diminuir o peso da imprescindível subjetividade deveria ser uma das metas.

Alguns quesitos carecem até de uma tabela que ajude a definir o peso dos problemas apresentados. Quanto vale um buraco? Qual a diferença entre um buraco pequeno e um grande? Isso tem que estar previsto.

Para que isto funcione, cada quesito precisa ser estudado a fundo a fim de sabermos o que se pretende de cada um deles. Os textos que norteiam o julgamento atual estão ultrapassados e extremamante vagos. Reunir quem faz o desfile (coreógrafos, casais, carnavalescos, mestres de bateria, diretores de harmonia, etc.) com os julgadores, dirigentes e pesquisadores é o melhor caminho. Após um longo debate
é possível chegar a um consenso sobre os critérios a serem adotados. Esta é uma situação que não pode ser decidida de cima pra baixo.

TREINAMENTO

O que para muitos é apenas uma festa, para outros representa o trabalho, o meio de vida. E para um grande grupo, uma verdadeira paixão.
É inadmissível que o emprego e a emoção desta gente sejam decididos por um grupo de pessoas despreparadas. O treinamento dos julgadores não pode ser feito numa única palestra.

Um julgamento tão complexo merece um curso sério, com várias palestras, vídeos, simulações, testes. Porque não testes? E mais: deve se exigir dos julgadores um mínimo de qualificação para a função. Alguns deles cometem erros de português inaceitáveis nas suas
justificativas. É importante para o mundo do carnaval que o julgador saiba explicar sua nota. É preciso aumentar o nível!

TECNOLOGIA

Estamos em 2011! Porque não usar a tecnologia em nosso favor? Defendo que tudo o que acontece perante as cabines de julgamento seja filmado, fotografado e gravado em áudio. Este material seria usado para ilustrar as justificativas das notas.

CONSENSO

Duas cabeças pensam melhor do que uma. As notas podem ser atribuídas durante uma reunião de todos os julgadores do quesito, comandados por um coordenador com saber notório sobre o tema.

Sairia uma nota única por quesito levando em conta o que foi apresentado ao longo de toda a pista. Nesta reunião cada um faria um relato
do que viu e apresentaria suas fotos, vídeos ou áudios para comprovar. O coordenador resolveria eventuais diferenças de opinião.

Esta reunião poderia se realizada no dia seguinte ao final do desfile, com todos descansados e refeitos da "última impressão". Haveria mais tempo para avaliar com calma o que aconteceu.

TRANSPARÊNCIA

Não há porque esperar tanto tempo para divulgar as justificativas. A sociedade exige respostas imediatas. É preciso divulgar as justificativas imediatamente após a leitura das notas. A reunião dos julgadores de cada quesito produziria um relatório com os anexos necessários para ilustração. A divulgação deste documento poderia ser feita, no máximo, no dia seguinte à apuração.

Talvez seja caro fazer tudo isso, mas quanto vale a credibilidade de um evento milionário? Esta é a questão principal.