Um Reino de Liberdade no Norte do País

Minha vida de sambista alternativo me rende experiências maravilhosas. É caminhando pelas quadras fora do eixo RJ-SP e das escolas do especial do Rio; que conheço pessoas interessantes, sambistas genuínos, tanto quanto os famosos e de sucesso. Acima de tudo atenciosos e que mesmo enfrentando adversidades são capazes de nos presentear com sorrisos e recepções cativantes. Vaidosos sim, mas sem perder a simplicidade que muitos abandonam após o estrelato.

Assim fui recebido em uma cidade poética por natureza. Uma das mais lindas do mundo, Manaus. Quando falo de Manaus falo de paixão a primeira vista. Desembarquei lá pela primeira vez em meados de 2010 a trabalho e me encantei. Foi lá que eu encontrei o amor da minha vida, minha paixão verdadeira e para toda a vida. E foi caminhando pela Manaus histórica; pelo portentoso Teatro Amazonas; tomando tacacá e como todo bom alternativo, um picolé da massa sabor buriti em um dos terminais da cidade. Assim me apaixonei e me apaixono cada vez mais pela cidade e tudo que tem nela.

Decisivo no meu processo de encantamento, no entanto, foi o Sambódromo de Manaus. Uma construção magnânima sem precedentes em nenhum outro canto do país. Para se ter uma idéia a capacidade desse colosso é de 100 mil espectadores, o maior sambódromo do mundo. O sambódromo carioca fará sua ampliação e não ultrapassará o Manauara. Para completar a arquitetura sensacional do complexo, inclui uma “mini cidade do samba” com galpões para preparação das alegorias das escolas e uma sensacional dispersão circular. Imagine assistir um desfile inteiro de frente, vindo em sua direção.

Algo que atiça ainda mais minha curiosidade é a rivalidade extremada que se experimenta mesmo no desfile das escolas. O publico que lota as arquibancadas torce fervorosamente para sua escola de samba. Quase que única e exclusivamente por ela em muitos casos. Chega-se ao ponto de ter uma arquibancada para cada torcida, para os adeptos de cada uma das desfilantes que esperam calmamente o momento da passagem da sua escola para explodir de alegria.

Foi lá que conheci um Reino de Liberdade. Através do compositor carioca Xinaider, tive contato com as pessoas que fazem e com o bairro de nome poético perfeito para um espaço tão aconchegante de samba: o Morro da Liberdade. Bambas como Claudio Sargento, Mestre Iron  e Audri. Fundada em 1981 é uma escola relativamente nova, mas que esbanja lirismo. Basta sentar-se à mesa do bar em frente a escola para sentir a aura boêmia como bem aponta Daniel Sales no livro que é referência sobre o carnaval de Manaus: “É tempo de sambar: História do carnaval de Manaus com ênfase nas escolas de samba”. E ouvir as histórias que conta o mestre Iron, é conhecer um pouco mais do circuito desta cidade que faz festa o ano inteiro. Que se prepara para o carnaval brincando de boi, ciranda e tantas outras manifestações no rico universo dos festivais folclóricos de bairro.

Vale a pena conhecer. Exploradores incluam essa cidade linda e seu desfile na sua lista para o próximo ano. Os desfiles acontecem na sexta e sábado de carnaval e maiores informações você encontra no valoroso Google ou na amiga Wikipédia.

Minha escola em Manaus Apesar das loas tecidas a GRES Reino Unido da Liberdade, confesso não ter decidido ainda minha preferida por lá. Simpatizo com a preta e amarela Sem Compromisso por suas cores, nome inventivo e estilo. Tenho ainda simpatia pela Mocidade Independente de Aparecida uma das potencias do carnaval de lá.

Com um pedacinho de sabão É raro aparecer uma obra comovente para os internautas entre as concorrentes dos grupos C,D e E. Eis que a Unidos do Cabuçu conseguiu mobilizar alguns internautas em torno de uma obra de apelo inusitado. Trata-se do samba de Betinho Santana, Paulinho Poeta, Carlinhos do Pandeiro, Adailton Aquino que você pode conferir aqui neste site. Um dos trechos que mais chamam a atenção neste samba de melodia bonita e dolente é: “A Cabuçu dá Elza na avenida/Nasce uma estrela oriunda de um violão/No tanque muita roupa pra lavar/ Com um pedacinho de sabão…”.

Receita para um samba campeão E falando em disputa de samba recebi um e-mail sensacional do meu pai Barbieri, com os ingredientes que na visão dele fazem um samba campeão nas tortuosas disputas das grandes escolas hoje. Aqui reproduzo:

“Já li muitas teorias publicadas em blogs, sites especializados e listas de discussão sobre a receita para ser campeão de samba-enredo.  A grande maioria correta, coincidentes entre si e até abrangentes.Mas, se querem saber a verdadeira natureza da escolha de sambas-enredo e seus critérios, permitam que eu descreva com toda transparência e experiência em disputas de grandes escolas como compositor e como observador.Por ordem de importância, os requisitos para um samba vencer são:

Em primeiro lugar – TODOS os integrantes da parceria devem ser bem vistos pela diretoria da escola.  Não pode ter olhado de cara feia nenhum dia pra ninguém, não pode ter esquecido de dar boa noite e, principalmente, nunca ter se negado a atender um pedido da mesma.

Em segundo lugar – pelo menos um dos componentes da parceria tem que gozar da intimidade do topo da hierarquia da escola (quem manda).  Pode ser presidente, padrinho (nem sempre é o presidente que manda).  É importante frequentar a escola de manhã, de tarde, de noite, de domingo à domingo todos os dias da semana. Se não puder um, que sejam representantes, familiares, gato, cachorro…

Em terceiro lugar – pelo menos um dos componentes da parceria tem que ter alguma coisa boa a oferecer. Por exemplo: custear um carro alegórico, algumas alas, reformar a quadra da escola etc.

Em quarto lugar – Se o intérprete da escola estiver no samba é bom.  Não precisa estar assinando.

Em quinto lugar – Muito, mas muito dinheiro pra gastar com torcida, planfleto, CD, comes & bebes, carro de som, palco de luxo…

Em sexto lugar – um samba decente.  Não.  Não precisa ser o melhor.  Mas tem que ser palatável.  Basta ser bonzinho.  Só é preciso que uns dez frequentadores de sites e da quadra falem bem.

Em sétimo lugar e não menos importante – um fofoqueiro.  Aquele cara que vai espalhar mentiras sobre os outros sambas (fulano está por trás, sicrano falou mal do presidente, falou mal do intérprete, da baiana, do presidente da velha guarda, que é samba de escritório, que é amigo de um desafeto da diretoria).  O fofoqueiro não precisa ter credibilidade, apenas cara-de-pau.

Enfim. Eis a receita, com toda transparência para vencer um samba numa escola badalada. Quem vai tentar?”

Parabéns AESCRJ Eu já critiquei tantas vezes aqui neste espaço não recuo. Considero equivocada a decisão da Associação de rebaixar e excluir seis escolas “do convívio sambístico” como diria Andrade Chefia, divulgador da Unidos da Tijuca. Ou até mesmo quando defendo a manutenção dos desfiles na Intendente Magalhães. Reconheço, no entanto, o esforço democratizador empreendido por esta administração. A entidade que completou 77 anos de existência em setembro apresentou resultados incontestáveis no julgamento do carnaval 2011. Feito com transparência nunca antes vista. Considero louvável também a idéia de promover eventos nas quadras das associadas. Prestigia-se a escola e promove sua inserção no circuito cultural da cidade, inclusive lançando luz sobre problemas que muitas vezes envolvem os arredores dessas quadras. Por fim, a transparência permanece nas plenárias abertas ao público. Parabéns a AESCRJ e todas as associadas. Que o momento sirva de reflexão para os muitos carnavais que virão.

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