Um sonho real

Abril de 2012 marca os 10 anos do fim de uma história cujas páginas foram escritas com tinta de ouro para uma pequena mas guerreira escola de samba do Rio de Janeiro: o Paraíso do Tuiuti. Naquele mês de 2002, terminou uma verdadeira epopéia, construída com sangue, suor e lágrimas, que começou lá em meados dos anos 90.

Naquela oportunidade, um grupo de pessoas daquela comunidade decidiu assumir a escola para levantá-la e torná-la mais do que simplesmente uma entidade que se dedica a um desfile carnavalesco por ano. O sonho era transformar a agremiação num centro que, além de cumprir as suas obrigações culturais, servisse como referência social para os moradores, assim como motivo de orgulho de todos.

E assim foi feito: desde a revitalização da quadra até a implementação de um rigoroso planejamento financeiro que controlava religiosamente os pequenos orçamentos aos quais a escola tinha acesso.

O resultado começou a aparecer em 1997, ainda na Avenida Rio Branco. Ali, o Tuiuti começou uma verdadeira escalada poucas vezes vista na história do carnaval carioca.

Passei a acompanhar esse glorioso momento em 1999, no Grupo B. Ali, principalmente graças a listas de discussão da Internet, conheci pessoas como Amarido de Souza Felipe, o presidente, Walter Honorato, Raquel Valença, Ângela Salles, Paulo Menezes e outros.

Naquele ano, a escola foi a última a desfilar, já com o sol a pino, com um enredo sobre a história do sorvete. Bati o olho e pensei: “não tem pra ninguém… tai a campeã”!  Mas o título não saiu. Um terceiro lugar “meio-mandrake” não condisse com a realidade daquele desfile. Só que um realinhamento dos Grupos A e B permitiu o acesso da escola.

Mais uma vez, o Tuiuti foi a última a desfilar. Desta vez, o tema era uma homenagem ao imperador D; Pedro II – um achado no ano em que o Brasil fazia 500 anos. O desfile havia sido muito bom, com ótimas apresentações de Império Serrano, Em Cima da Hora e São Clemente.

Mas, pelo que se viu, a azul-e-amarelo se ombreava facilmente com as adversárias. Nós, analistas, ficávamos reticentes em apontar o Tuiuti como uma das favoritas. A verdade é que não acreditávamos na possibilidade de uma agremiação recém-promovida do Grupo B subir logo no primeiro ano para o Grupo Especial.

Ao meu lado, na pista de desfile, um colega teve essa coragem. O repórter Luiz Alberto Andrade, da Rádio Gaúcha, abriu o microfone e mandou: “olha, esse é o melhor samba que passou aqui nesta noite e o Tuiuti sai da Avenida brigando pelo título”.

Dia da apuração. O império Serrano disparava. A disputa pela segunda vaga era ferrenha entre Em Cima da Hora e São Clemente. E assim foi até as últimas notas. Ninguém sentiu que o Tuiuti corria por fora. Nem mesmo os integrantes da escola que, gentilmente, foram até à mesa da rival de Cavalcanti para cumprimentá-la pela subida de grupo. “Como assim??? Vocês que subiram!”, exclamou um dirigente da Em Cima da Hora. Foi um tal de fazer contas, checar mapa de apuração até que viesse a agradabilíssima conclusão… O Tuiuti estava no Grupo Especial.

Com dificuldade, a escola se preparou dignamente para a sua apresentação entre as grandes do carnaval carioca. O ensaio passou a ser concorridíssimo nas noites de sexta-feira. Uma onda de novos admiradores passou a freqüentá-la, numa fenômeno maravilhoso de integração entre o morro e o asfalto.

Mas nem tudo eram flores. Além das dificuldades inerentes a uma escola que sobe de grupo, o presidente teve de resistir bravamente à ação do tráfico que teimava em desviar o dinheiro da subvenção para tirar da cadeia o chefe da quadrilha. Amarildo foi firme e forte. Pôs sua vida em risco, inclusive, para evitar que os recursos fossem dedicados a algo que não à preparação da escola em seu momento mais importante. E assim foi. O Tuiuti desceu, mas Amarildo passou à história do samba como um exemplo de retidão de caráter. Um metalúrgico, pobre, que não se apoderou de nenhum centavo da escola em benefício próprio.

A pressão continuou para o carnaval de 2002. Arquitetou-se um golpe. Mas a diretoria seguiu briosa. Pôs o carnaval na rua quase sem dinheiro e ainda conquistou um valoroso quarto lugar no Grupo A, com um enredo em homenagem a Arlindo Rodrigues.

Dois meses depois, todos chegaram à conclusão de que não valia mais a pena. Por mais amor e dedicação que houvesse pela escola, era loucura continuar batendo de frente com quem tem fuzis como argumento.

A vida continuou. Os carnavais também. Mas ficou aquele sonho que, pelo menos durante algum tempo, virou realidade.

Comente: