Uma agradável sensação de volta no tempo

"Quando a primeira escola pisar o teatro para a originalíssima peleja, logo uma onda de melodia encherá a metrópole". Esta frase foi publicada em 7 de março de 1932 pelo jornal "Mundo Sportivo" em alusão ao primeiro desfile de escola de samba que ocorreria na noite daquele domingo de carnaval na Praça Onze. E nunca uma previsão foi tão certeira. Encheu a metrópole, o país, o mundo e os nossos corações. O redator jamais poderia imaginar que aquela festa composta por agremiações"com mais de cem figuras cada uma" transformar-se-ia, oitenta anos depois, no maior espetáculo do mundo.

E que, apesar de todas as mudanças, evoluções (e involuções), pirotecnias e afins, mantêm em sua essência aquela raiz que foi firmemente plantada naquela noite. Tenho certeza absoluta disso que escrevo agora com base na temporada de ensaios técnicos a que assisti em janeiro e fevereiro na quase remodelada Marquês de Sapucaí. Por mais técnicas, regras e outras coisas mais que queiram impor aos sambistas, a base de tudo está lá, irretocável: o canto, a dança e o ritmo. São estes os três elementos básicos do desfile de uma escola de samba que, passados, dez, cem ou mil anos permanecerão os mesmos.

Apego-me a este assunto em razão do verdadeiro espetáculo de canto e dança que as agremiações vêm oferecendo ao povo nos últimos cinco fins de semana. É emocionante perceber que toda essa manifestação de vibração e abnegação à arte éalgo que faz parte do DNA do carioca (e vale lembrar que cariocas não são apenas os que nasceram aqui no Rio de Janeiro. Mas, sim, todos que incorporaram o espírito carioca de ser). Está entranhado em cada um de nós e explode de forma magnânima à medida que o grande dia se aproxima.

O festival de bons sambas que as escolas nos oferta em 2012 talvez seja o grande fator que tenha transformado esta temporada de ensaios técnicos que termina neste domingo na melhor que vi e vivi nos últimos anos. A boa qualidade das músicas valorizou o trabalho das baterias que, por sua vez, ofereceu um ritmo ainda mais atraente a seus desfilantes. Enfim, é um efeito dominó que nos faz antever um espetáculo absolutamente glorioso no domingo e na segunda de carnaval. Isso sem contar o desfile do Grupo de Acesso, o primeiro ato da mais genuína ode à cultura popular do Brasil.

E escrevo isso tendo em mente apenas o prisma cultural da festa. Questões turísicas, econõmicas ou etcoetera e tal eu deixo de lado. Quero aqui cumprimentar os diretores de harmonia que, pelo menos dentro daquilo que tenho visto nas últimas semanas, resolveram dar um oportuno passo para trás e, muito mais do que simplesmente organização, permitiram a seus componenentes a alegria de cantar, de dançar e de se emocionar.

Sem querer, fizemos uma viagem no tempo e voltamos àquele longíquo 7 de março de 1932, um dia que, para sempre, mudou a vida do Rio de Janeiro.
 

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