Uma história… uma palavra

A cada edição da série de seminários promovida por Fabio Fabato na FINEP, na Praia do Flamengo, fica em mim um sentimento de pesar, de lamento por todas e tantas pessoas que vivem no e do carnaval e lá não podem estar.

Primeiro porque o evento consegue ser “a cara” de seu realizador. Aberto, limpo, alto astral, oxigenado, janelaberta, bem intencionado e com a marca da “inovação” da entidade que cede a sede e aposta na equipe que realiza os encontros.

Ali o carnaval e nós somos uma só coisa. Quem está ali assistindo fala exatamente a mesma língua dos convidados participantes.

Quem está sobre o pequeno palco montado deseja e sonha para o carnaval exatamente aquilo que desejam e sonham os que os estão ouvindo. Até porque quem está hoje ouvindo poderá muito bem estar lá em cima amanhã. E vice versa.

De tudo de tão bom que se ouviu ali. No mais puro “carnavalês”, ficam para mim dois momentos: uma história e uma palavra.

A história contada por um homem comum da nossa cidade. De origem mais que humilde. Que tendo vindo de onde veio e por ter sido formado na conjuntura social de sua comunidade, de sua cidade e de seu país, crescera sem pais; conheceu o samba. Fez dele sua bandeira, sua âncora e seu leme.

Fez-se compositor e vitorioso.

Contou suas historias que nem nós, tão bem informados no mundo do samba, poderíamos imaginar. E contou ainda ali sua história menos feliz, menos musical, mas vitoriosa.

Disse Carlinhos Fuzil: “não fui criado por mãe e nem por pai, quem me criou foi o “Boi da Ilha”. Ali quase nasci, brinquei, fui menino, jovem e homem”.

A história ali contada trouxe a muitos que o aplaudiram a certeza do papel que as escolas de samba poderiam estar desempenhando. O quanto a educação, o esporte e a cultura poderiam se transformar em armas contra o crack, a desestruturação das famílias, a falta de incentivo à escola e à falta do que fazer de adolescentes e jovens nas comunidades.

Ao invés de pensar apenas no carnaval, do endividamento e gastos desproporcionais com efeitos visuais, formarem culturalmente corações e mentes em torno de suas ancestralidades, de suas raízes e da fundamental contribuição musical, rítmica, esportiva e artística que tanto nos orgulham.

E estava ali aquele jovem senhor. Que tempos terá vivido? Quanta história terá para contar diferente dessa tão vitoriosa? Estava ali, altivo. Orgulhoso de si. Ao lado de seus ídolos no carnaval, fazendo-se igual, cheio de auto-estima e orgulhoso de sua história.

E veio a palavra da noite: “diversidade”, eis a chave do enigma.

Em tempos de tantos seminários, vemos que invariavelmente todos acabam voltados à imensa preocupação com os rumos dos desfiles.

Cada vez mais bonitos, coloridos, suntuosos, ricos e … previsíveis.

Que fazer, por onde e para aonde ir?

A palavra dita pelo jornalista Anderson Baltar, ali muito mais apaixonado por sua escola que jornalista, a defender o direito e a importância de as escolas terem sua própria identidade, sua própria cara, sua própria maneira de brincar o carnaval.

Sim, tantos seminários. Quase todos girando em torno do julgamento. Muito mais que uma questão de honestidade pessoal do julgador, o entendimento de que as escolas são diferentes -divesas- passa por uma questão cultural, até ideológica.

O entendimento de que é a diversidade que faz cada escola mais forte, que fez da Ilha, Caprichosos e São Clemente notáveis, um dia. A mesma diversidade que fez da estreante Beija Flor uma escola notável, como tão bem destacou Maria Augusta.

E que apostar na diversidade, estimulá-la, até sob a ótica turística que orienta o carnaval, é muito mais atraente do que a mesmice do carnaval de 2019.

A diferença é que a “diversa” Beija Flor venceu, as outras não.

Não duvido que aqueles mesmos julgadores, se pudessem voltar no tempo, sem a “pressão” da época, não duvido, repito, que dessem vitórias às três escolas quando viveram seus melhores momentos.

Tanto quanto acredito nisso, entendo o quanto tinha que ser “macho” para tascar notas dez em escolas tão pequenas superando as maiorais.

O carnaval não se dá naquele ambiente tão amistoso da FINEP. Lá na pista, “o macaco é outro”, para usar uma expressão bem carnavalesca.

De que vale Maria Augusta, tal como Laíla, tal como Paulo Barros, defenderem a importância do samba enredo, tanto quanto tantos de nós, se lá na hora H, lá na pista, o julgador “contaminado” por aqueles três quesitos visuais julgarão o samba sob a influência plásica, dando ou tirando pontos e a importância fundamental do mais importante de todos os quesitos. Será que o julgador é suficientemente orientado e, muito mais, “convencido” da importância da “descontaminação visual”?

Ou será que isto é um imperativo da tal “ótica turística do carnaval”?

O seminário da FINEP deu um toque.

Acreditar na diversidade é desamarrar o carnaval… É acreditar no samba.

Ao invés de imitarem umas as outras as escolas devem se mirar em Carlinhos Fuzil… na sua alegria e sua coragem de viver e de enfrentar o futuro.

Dele e de tantos outros Carlinhos Fuzil que existem escondidos por tantas de nossas escolas de samba.

Email para contato: lcciata2@hotmail.com

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