União de Jacarepaguá quer alertar contra intolerância religiosa

 

 

Carnaval e religião nunca caminharam muito bem. A festa mais popular do país é vista com olhares pecaminosos pela maioria das instituições religiosas e um rápido exercício de memória nos remete a um dos mais marcantes momentos dos desfiles das escolas de samba, quando em 1989 Joãosinho Trinta foi obrigado a cobrir uma escultura de Cristo, que viria como mendigo no lendário desfile “Ratos e Urubus, larguem a mina fantasia”. O épico momento é apenas um dos imbróglios que envolveram carnaval e fé. Isso para nos ater apenas no mais conhecido.

 

A União de Jacarepaguá vai retratar em 2014 talvez uma das poucas religiões que tenha bom relacionamento com o samba, o candomblé. O carnavalesco da escola, Jorge Caribé justifica o porque desta escolha. – Eu sou um sacerdote da religião, mas nosso enredo é um grito de alerta, um pedido de respeito não só com as religiões afro-brasileiras, mas com todas. O mundo anda muito intolerante – esclareceu Caribé ao CARNAVALESCO. O artista é tem um centro de Candomblé e tem forte relação espiritual com o tema.

 

Mal colocada no desfile de 2013, quando amargou a 15ª colocação, a União de Jacarepaguá promete surpreender no desfile deste ano e tem um dos barracões mais adiantados de toda a Série A. – O presidente Reinaldo Bandeira está nos dando total apoio e toda a subvenção que recebemos até aqui está injetada no nosso carnaval. Não temos patrocinadores e vamos lutar para permanecer na Sapucaí, sempre com os pés no chão – afirmou Caribé.

 

O título do enredo da verde e branco da Zona Oeste é “Os Yorubás – a história do povo Nagô”. O primeiro setor da escola versará sobre as origens do continente africano, abordando o mistiscismo muito presente naquele lugar. – Teremos uma abertura impactante, abordando a espiritualidade do povo negro – prometeu Caribé. Em seu segundo setor o desfile da União vai trazer os animais considerados sagrados na África, onde cada um deles representa um deus.

 

No terceiro setor do enredo Caribé traz a vinda dos escravos para o Brasil, mas sem a abordar o lado sombrio que foi essa viagem, como os navios negreiros. – Os negros vieram para cá com uma missão dada por Olokum e Obatalá, de implantar a cultura africana no Brasil, que era a terra prometida – explica Caribé. O quarto e último setor do desfile da União vai abordar o surgimento das primeiras casas de culto religioso africano na Bahia, remetendo ao início do desfile, e trazendo de novo a Mãe África como encerramento.

 

Ainda de acordo com o carnavalesco Jorge Caribé, não há a intenção com este enredo de impor uma religião africana como mais espiritualizada que qualquer outra. – O Brasil é uma terra que aceita todo tipo de culto, toda sorte de espiritualidade. Vamos mostrar que há espaço para qualquer fé. Será uma confraternização espiritual na Sapucaí – afirmou ao CARNAVALESCO.

 

Jorge Caribé é um dos mais renomados carnavalescos dos grupos de acesso, tendo carnavais elogiados em outras escolas, sempre com recursos escassos e muita criatividade. É o seu segundo ano na União de Jacarepaguá, que será a segunda escola a desfilar na sexta-feira de folia na Marquês de Sapucaí.

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