Única

Como já disse aqui, o Bigode é o porteiro do meu prédio e já foi passista de Lucas e da Capela.

Ele é um cara da antiga em quase tudo de samba. Digo "quase tudo" porque ele tem uma percepção mais moderna do quesito beleza feminina.
Bigode adora as rainhas de bateria … hummm!!! digamos, "esculpidas".

Quanto maior o diâmetro das coxas, maior seu encantamento. Nem por isto esconde sua paixão por Quitéria Chagas.

De minha parte a lamentação não é nada menor. É claro que por se tratar de uma escola tão querida, tão importante para tudo que pensamos e defendemos na festa do carnaval, ficamos torcendo para que a direção da escola esteja sempre iluminada ao enfrentar tão difícil missão.

Sabemos que a invenção do cargo de rainha de bateria tem hoje a controvertida função de fonte extraordinária de renda para grande parte das escolas. Aquele lugar ali tem um preço, um valor de mercado, e está plenamente justificado no modelo carnaval-maior-espetáculo-
da-terra.

E se isto aí em cima é verdade, nada mais natural que a diretoria do Império tire proveito da força de sua história e reforce suas finanças nesta hora tão difícil. Tudo perfeitamente ajustado na lógica dos desfiles.

Não estou entre aqueles que dão muita bola para rainhas de bateria, nunca fui. Mas confesso que senti um tranco forte quando soube da notícia. Dei um tempo, fiquei "na minha", talvez na tentativa de usar os argumentos acima para fazer um autoconvencimento.

Mas não consegui.

E agora, ainda que tardiamente, venho aqui demonstrar o meu pesar. E digo pesar, e não inconformidade, porque imagino o quanto deve
ter sido difícil para tanto imperiano de fé acompanhar a aproximação da substituta Vania Love – belíssima mulher – até a consumação, ou consomição, pelas beiradas, de Quitéria.

A questão aqui não é de beleza. Por mais que Quitéria tenha uma beleza singularíssima, por mais que tenha atributos físicos adequados ao padrão vigente, a beleza que desfilava na avenida passa longe de tais referências.

Caíra como uma luva na frente daquela bateria… gloriosa bateria. Seu sorriso largo tomava conta de cada um de nós, tal como seu jeito próprio de olhar, tal como sua maneira incomparável de sambar a passos alongados.

Nesses tempos pós globeleza em que grande parte das moças samba com aquele jeitinho de mão, aquele modo-globeleza-de sambar,
surgia Quitéria com toda sua originalidade. Não que seja mais bonita, mais passista, ou mais apetrechada que qualquer outra. A questão é que Quitéria à frente do Império era única.

Nenhuma outra será como Quitéria à frente do Império Serrano. Em nenhum outro lugar, à frente de qualquer outra bateria, Quitéria jamais será tão única quanto foi naquela escola.

Houve um tempo, que já vai longe, em que as celebridades do carnaval, dos desfiles, brotavam das próprias comunidades, ou tinham com elas grande identificação. Era o tempo de Paula, Narcisa, Nega Pelé, Maria Lata D'Agua, Gigi e tantas outras, só para ficar em um tempo
já distante.

Depois vimos em Pinah o maior exemplo da era Beija-Flor. A perfeita identificação da sambista com sua escola e a dimensão que tal identidade alcançava: a cinderela negra, quem poderá esquecer.

O carnaval alcançou outros patamares, novos mercados, novas formas de ser visto. As celebridades passaram a ser valorizadas, destacadas, reconhecidas em razão de outros conceitos, outras bases de avaliação, a partir de outros valores. Acima de tudo vistas por outros olhos.

Não sei como Quitéria foi parar no Império. Não sei se nasceu na Serrinha, na Congonha ou na Tamarineira. E nem se é filha de algum daqueles meninos de 47. Não sei também com que assiduidade freqüentava a escola e o quanto reconhecia ser este um dos critérios para sua avaliação.

Não sei nada disto e nem o quanto isto verdadeiramente pesou. O que sei é que nestes tempos de vacas magras imperianas poucas coisas foram mais Império Serrano do que ela. Quantas outras coisas identificavam mais a escola do que ela, do que seu sorriso, tanta, tanta
graça e seu modo único e, repito, inigualável de dançar.

A primeira foto de Vania Love com fantasia do Império vai chegar e sei que o Bigode vai guardar para me mostrar. Certamente será uma bela foto. Sei o quanto ele vai ficar encantado.

Mas para mim será diferente.

Quem sabe ao mesmo tempo poderá sair uma nova foto de Quitéria, desta vez com as cores vermelho e branco, azul e branco ou de
qualquer outra cor. Certamente ela estará linda, com seus gestos e trejeitos, reluzindo os dentes de seu tão largo sorriso.

Quem sabe o Bigode pouco ou quase nada vai reparar. A ausência ali de Quitéria passará como tudo passa no carnaval, no turbilhão de luzes, cores e imagens. Com certeza ele terá seus sentidos colhidos por outras atrações , por outro tipo de encantamento.

Sinto que comigo, não. Tudo será, como sempre, muito bonito. Mas eu sei que vai ser diferente.