Unidos da Tijuca lacra o ensaio técnico e prova que também é rolo compressor

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Por Thiago Barros, Tatiana Perrota, Geissa Evaristo, Beatriz Chaves, Daniela Safadi e Philipe Rabelo

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Fotos de Magaiver Fernandes

Bordões de intérpretes são ótimas inspirações para análises de desfiles. Em 2013, por exemplo, o “Que show, Vila Isabel” do Tinga marcou o título e a crônica daquele inesquecível carnaval para a escola de Noel. Neste domingo, uma frase do mesmo Tinga serve para representar o ensaio que a Unidos da Tijuca fez na Sapucaí: “Tem que respeitar a Tijuca”. Uma apresentação com a cara da escola, mostrando, mais uma vez, a sua força.

Não “é Segredo” nenhum: a agremiação se tornou “time grande” no carnaval carioca. A camisa amarelo-ouro e azul-pavão está cada vez mais pesada. Se ainda não entorta varal com glórias do passado como as de algumas coirmãs, o sucesso recente, com três títulos dos últimos seis Carnavais (2010, 2012 e 2014), e apresentações como a deste domingo na Marquês de Sapucaí, dão indícios de que, daqui a 10, 20 anos, relembraremos com gosto desta Unidos da Tijuca.

tijuca_ensaiotecnico_2017_031Especialmente, é claro, do povo do Borel. Que chão! Se a Beija-Flor é um “rolo compressor”, o site CARNAVALESCO apelidou a comunidade tijucana, desde o Carnaval de 2012, de “novo rolo compressor”. A última vez que a escola perdeu um décimo em Harmonia foi em 2013. De lá para cá, apenas notas 30. E se repetir no desfile oficial deste ano o que fez no ensaio técnico, será mais um ano de nota máxima para o “trator do Borel”.

– Eu fico na frente da escola, não consigo agora fazer uma análise completa do ensaio, só baseado no que vejo e no que me passam no rádio. Mas, de uma maneira geral, acredito que fizemos um bom ensaio. Ttudo tranquilo e dentro do combinado. Agora, lógico, vamos conversar, ver a gravação e ver se será necessário algum ajuste – explicou Fernando Costa, diretor de carnaval da Tijuca.

Harmonia

tijuca_ensaiotecnico_2017_082“My brother”, se a batucada “é de enlouquecer”, a comunidade da Unidos da Tijuca é tipo o enredo de 2011: “assustadora”. Foi uma apresentação irretocável da escola neste aspecto. Chega até a ser um pouco injusto destacar uma ala ou outra, tendo em vista o belo nível de canto da esmagadora maioria dos componentes. Mas vale ressaltar as alas 01, 06 e 15. Todas com seus componentes não só cantando, como “berrando” o samba.

O samba-enredo, que não é dos mais aclamados pela crítica carnavalesca na boa safra deste ano, funcionou muito bem com os componentes. O que não é surpresa para quem acompanha o que os desfilantes fazem nos ensaios semanais da Tijuca. Este trabalho, que não é de agora, vem dando muito certo, e a equipe de harmonia é referência no carnaval do Grupo Especial.

– A Tijuca está feliz. O samba é bem alegre e a escola poderá evoluir bastante. Vamos buscar aquele um décimo que ficou faltando. A minha preparação é só bastante água, descanso e de fazer alguns exercícios vocais para aquecer a minha voz – comentou Tinga.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

tijuca_ensaiotecnico_2017_072Nos últimos dois desfiles, eles deixaram escapar décimos importantes, mas na apresentação deste ensaio técnico, Julinho e Rute mostraram o bailado que fez com que eles se tornassem um casal tão reconhecido no mundo do samba. Com um misto de passos mais tradicionais de um casal com alguns elementos diferenciados, de acordo com a letra do samba, como no trecho “Invade minh’alma”, quando Rute parecia “sugar” a alma de Julinho, eles fizeram um belo ensaio. Tudo isso ainda com uma fantasia muito bonita – e assustadora – inspirada no hit “Thriller”, de Michael Jackson. Boa parte dos movimentos foi parte da coreografia oficial, mas a fantasias que eles vão usar no grande dia eles vão “esconder até o final”.

tijuca_ensaiotecnico_2017_065– Eu estou muito feliz mesmo com esse ensaio que foi muito proveitoso. Poder homenagear o meu ídolo maior, não tem preço. Toda a coreografia realizada hoje é a oficial do dia do desfile. É a primeira vez que fizemos isso, mas foi para aproveitar tudo, sem desperdiçar nada. Ensaiamos com o samba no andamento do desfile, o que é diferente. Queríamos sentir essa energia de hoje, porque aqui estão as pessoas que realmente curtem cada agremiação e sabem quem nós somos. Algumas coisas o público pode não ter entendido porque fazem parte da nossa fantasia e do elemento que vamos trazer – citou Rute.

Julinho falou do figurino e elogiou a parceria: – A Rute é formada em Moda e cuida da questão da indumentária. Todo ano ela quer um figurino temático ao enredo e nesse ela nem precisou dar a ideia porque pensamos na mesma coisa. Somos geração Michael Jackson, o maior ídolo pop internacional, homenageamos nosso ídolo nessa excelente oportunidade, claro, respeitando as tradições da dança do casal de mestre-sala e da porta-bandeira, mas dando uma pitada com licença poética – afirmou o mestre-sala.

Samba-Enredo

tijuca_ensaiotecnico_2017_131Se, por exemplo, o Malandro Batuqueiro era a cara do Salgueiro em 2016, o Juremê é ideal para a Beija-Flor neste ano, não seria exagero dizer que a obra composta por Totonho, Fadico, Dudu e Josemar Manfredini é a cara da Unidos da Tijuca. Letra e melodia super simples, com os refrões para cima, que empolgam, são as suas principais características.

O “Chega, my brother” é arrebatador com os componentes, e chegou até a ser cantado por uma boa parte do público. Tinga e o carro de som fizeram um bom ensaio, sem problemas, com um ritmo bem adequado para a obra. Ela lembra um pouquinho alguns sambas de outros Carnavais da escola, especialmente o de 2014, e é fácil de entender o motivo: dá certo. Basta olhar o bom desempenho da harmonia.

Mas é bom lembrar que o julgamento de samba-enredo se dá por letra e melodia, não somente por como ele é recebido por público e comunidade. Isso é importantíssimo, mas contar bem a história do enredo e ter riqueza poética e melódica também são fundamentais. Resta ver se os julgadores irão identificar estes pontos na obra tijucana.

Comissão de Frente

tijuca_ensaiotecnico_2017_045Desde “É Segredo”, a comissão de frente da Unidos da Tijuca sempre é bastante aguardada na Sapucaí – mesmo após a saída do casal Priscila e Rodrigo, e a entrada do coreógrafo Alex Neoral. Se no dia do desfile haverá alguma surpresa, só saberemos em duas semanas, porque neste domingo os integrantes fizeram uma dança que não deu muitas pistas do que estar por vir.

Vestidos de preto, os bailarinos fizeram passos relacionados à letra do samba-enredo, com um estilo de apresentação diferente do que estamos vendo recentemente. Menos teatralizado, com foco maior na dança. Vale destacar uma outra referência à Michael Jackson (mesmo sem Paulo Barros), um dos passos mais tradicionais dele, o moonwalk, foi feito pelos dançarinos.

tijuca_ensaiotecnico_2017_026Sem tripés, a comissão se apresentava em frente ao módulo de jurados com 15 pessoas que faziam a coreografia de fato, enquanto outras 15 ficavam atrás delas e à frente do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Depois, elas trocavam de lugar até o próximo módulo – o que pode ser uma pequena dica do que irá ser feito no dia do desfile oficial.

– Hoje fizemos uma grande homenagem a Bob Fosse, que é o maior coreógrafo de musical americano, responsável por musicais memoráveis. O estilo, a roupa, o cabaré e toda essa referência que ele deixou para o teatro musical foram relembrados. No dia oficial, o contexto será o mesmo. Nosso enredo fala de música e a comissão traduzirá o enredo. O nosso elenco aumentou e hoje são em torno de 30 bailarinos que mudarão durante a apresentação. Estamos desde outubro trabalhando pela nota máxima. Eu gosto de comissões de frente que são um espetáculo. É uma responsabilidade, mas é bom. Abrir a escola é uma honra, quero fazer da melhor maneira que eu posso e da melhor maneira que a escola merece. Queremos o campeonato – comentou Alex Neoral.

Evolução

tijuca_ensaiotecnico_2017_133Para alcançar este nível tão alto de carnaval que vem fazendo nos últimos anos, a Tijuca não tem “um segredo”. São vários aspectos que, somados, geral um grande conjunto – desde sua direção de carnaval até cada componente. E um dos pontos que torna a escola bem forte nos desfiles é sua evolução – que é um quesito onde muitas agremiações tropeçam.

Desde 2010, a Tijuca perdeu apenas 0,3 em 2011 (ponto mais fora da curva), 0,1 em 2013 e 0,1 em 2015 neste quesito. No ensaio deste domingo, a escola, novamente, passou muito bem. No ritmo correto, sem correr e nem ficar muito tempo parada no mesmo lugar, com os componentes preenchendo seus espaços corretamente e sem buracos.

A única ressalva a ser feita neste quesito, e que talvez possa influenciar também na harmonia, é o número de alas coreografadas, embora algumas sejam de carros alegóricos. Esta também é uma característica da Unidos da Tijuca, no entanto, com um enredo que fala muito de música e dança, parece estar ainda mais presente em 2017. Identificamos, pelo menos, quatro alas fazendo coreografias: 20, 22, 26 e 27.

A 27, que fará homenagem à cantora Beyoncé, levantou a Sapucaí. Composta tanto por homens quanto por mulheres de salto alto e fazendo passos com inspiração no stiletto, ela agradou muito ao público. Por outro lado, a coreografia não é simples, a ala é grande e em alguns momentos a sincronia nos movimentos não pareceu ser a ideal.

Outros destaques

tijuca_ensaiotecnico_2017_014A rainha de bateria da Unidos da Tijuca é sempre um show à parte e merece nosso destaque no ensaio deste domingo. Vestida de amarelo-ouro, Juliana Alves mostrou todo seu samba no pé à frente da Pura Cadência. Este será o quinto ano da atriz, que está cada vez mais à vontade e já super identificada com a escola, no posto.

Vale ressaltar também que a Tijuca foi mais uma escola com componentes usando adereços além da camisa do ensaio técnico para passar pela Sapucaí. Óculos, “macarrões” de piscina, bolas… Além disso, a indumentária das passistas, dourada com echarpes de penas brancas, também chamou a atenção pelo bom gosto.

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, mestre Casagrande analisou a atuação da sua bateria.

tijuca_ensaiotecnico_2017_009– Cara, vou ser sincero contigo, eu estava falando com um componente, que eles não têm mais nada para inventar, mas sempre tiram alguma coisa nova da cartola. Eu fico emocionado, porque o andamento que a gente proporcionou hoje com o samba foi ótimo. Eu fico até emocionando. Dormi e sonhei com esse andamento e aconteceu tudo certo. Oxalá permita que no dia mesmo, na segunda de carnaval, a gente consiga fazer novamente. Precisamos ter humildade e pé no chão, tem que ter muita tranquilidade nessa reta final, porque a gente faz um ensaio desses e a rapaziada começa a botar um sapato alto. Você precisa ter a experiência para saber controlar a euforia, não só da bateria, mas de todos os componentes. Hoje é nota 12, não vou dar nem 11. Vou dar dois pontos de bonificação, porque foi foda, desculpe o palavrão – disse Casão.

Em 2017, a Unidos da Tijuca levará para a Avenida o enredo “Música na alma, inspiração de uma nação”, que faz homenagem à influência da música dos Estados Unidos no Brasil e no mundo, contando uma “história de ficção livremente inspirada no encontro entre Pixinguinha e Louis Armstrong, acontecido em 27 de novembro de 1957, no Palácio Laranjeiras”.

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