Valeu, Zumbi. Sambistas falam do Dia da Consciência Negra, do racismo e exaltam o carnaval

A data de 20 de novembro marca a reflexão da Consciência Negra. Feriado é bom? Sim, mas o importante é o motivo. O dia é para celebrarmos o negro, suas conquistas e sua importância para toda humanidade. Também é fundamental que não esqueçamos de todo o sofrimento que os negros passaram e por irracionalidade humana ainda passam. O site CARNAVALESCO conversou com algumas personalidades do carnaval sobre a representatividade da data, o racismo e suas experiências. 

Igor Sorriso, intérprete da Vila Isabel, acredita que a repercussão que é dada apenas no dia 20, deveria ser refletida também nos outros 364 dias do ano. – Me entristece um pouco que a repercussão seja dada em apenas um dia, e nos outros 364 dias seja esquecido. Acho que todo mundo tem que ter consciência o ano inteiro, e quem não tem deviria passar a ter. Essa mudança e conscientização ainda vão demorar, é um processo muito longo, mas não podemos deixar abater por isso. A interação de pessoas de todas as raças, credos, cor, gêneros deve ser uma coisa normal para o nosso futuro. As crianças precisam crescer reconhecendo isso.

Sidclei, mestre-sala da Acadêmicos do Salgueiro, viveu uma situação de discriminação que marcou sua vida, e serviu para que ele adotasse uma postura diferente contra o racismo. – Há 19 anos, eu ainda namorava minha esposa, nós fomos passear e passando ali perto da Estudantina resolvi almoçar. Havia um restaurante português, e nós entramos. Fiquei uns 20 minutos parado e nenhum garçom veio me atender. Me levantei, chamei o gerente e falei que iria à delegacia prestar queixa, pois o que estava acontecendo ali era discriminação, afinal outras pessoas (brancas) que chegaram depois de mim já haviam sido atendidas. Na época não levei o assunto à adiante, deixei pra lá, mas hoje agiria totalmente diferente. Nós precisamos combater essa intolerância, essa falta de amor ao próximo. A denuncia, a busca pelos nossos direitos é a melhor arma que nós temos.

Tinga, intérprete da Unidos da Tijuca, nunca sofreu nenhum tipo grave de preconceito, mas ele relata que existem certas situações inconvenientes, porém, o cantor diz que já encontrou o remédio para isso. – Eu não ligo. Chego aos lugares sinto olhares tortos, é perceptível que tem pessoas que acreditam que você não deveria estar ali por ser negro. Mas eu tenho uma cor privilegiada, essa é a verdade. Então eu realmente não ligo. Acho que essa é a melhor forma de combatermos essa irracionalidade.

Patrick Carvalho, coreógrafo da comissão de frente da União da Ilha, acredita que o carnaval tem papel importante na luta contra o preconceito racial. – O carnaval ajuda mostrando igualdade. Eu sirvo de exemplo lidero uma equipe, venho à frente de uma escola de samba. Então acredito que o carnaval contribua desta forma, mostrando que todos podem, são competentes, independente de cor, raça, religião.

Igor Sorriso, também acredita que o carnaval é um grande colaborador para que se tenha cada vez menos distinção. – O carnaval é união de povos, mistura de raças e cor. Através do carnaval, está mais do que provado, que nós não temos que separar o negro, branco índio. Todos são seres humanos que tem gosto pela cultura popular, os mesmos direitos e deveres. Todos possuem a certeza de que o racismo ainda é muito presente no dia a dia, mas concordam que é possível uma mudança, uma melhora, mesmo que a batalha seja árdua. O importante, conforme ressaltou Tinga, é que seja sem guerra. 

Em 20 de novembro de 1695 morreu Zumbi, o último líder do Quilombo dos Palmares, o maior dos quilombos do período colonial. Em 1995, a data de sua morte foi adotada como Dia da Consciência Negra, passando a ter um significado ainda mais especial para os negros brasileiros que reverenciam Zumbi como herói, líder negro de todas as raças e símbolo de liberdade. O objetivo do Dia da Consciência Negra é fazer uma reflexão sobre a participação relevante da cultura e do povo africano, e o impacto que tiveram na evolução da cultura brasileira, além de fazer ecoar o grito contra o preconceito racial.