Vila, de Noel, de Martinho e de Machado

Martinho acordou com um belo texto de Sergio Cabral que ficará guardado para sempre em sua mente: "Martinho da Vila Noel".

O artigo subverte o tempo e deixa para nós tão saboroso enigma: o quanto seria bonito o samba que Noel fizesse para Martinho ?

É uma pena que Machado de Assis não esteja vivo para  que pudesse me dar a "moral" de acordar e ler meu título aí em cima.

Pois foi o que se viu ontem na Academia Brasileira de Letras.

Longe de mim ficar aqui agradecendo à bondade dos céus e dos acadêmicos  pela
"generosidade" ( com quatro aspas!), longe disto. E o presidente fez questão de deixar isto muito bem claro. Tratava-se ali, segundo Marcos Villaça, de um encontro de culturas.

Digo isto porque cheguei cedo e fiquei passeando por ali. È um belo prédio que não se vê todos os dias. Réplica do Petit Trianon de Versailles, foi ali construído em 1922 por conta das comemorações do centenário da independência e feito presente pela França às letras brasileiras.

Enquanto esperava fiquei ali pensando: 1922. Seu China devia ser moleque ainda, Martinho nem sonhava em nascer e Noel já devia estar
"aprontando" no São Bento.
Seu China era o único que já tinha cabeça para entender o que se passava, ele que nascera bem poucos anos após o fim da escravidão. Como seu China ficaria feliz de estar ali vendo aquilo: como poderia supor então que um dia sua escola, tão bonita e orgulhosa, seria
convidada a estar ali. Ali naquele mesmo lugar pertencente e representante de um mundo tão hostil e que se queria e se fazia tão distante.

Quanto caminho já foi percorrido.

Ali, hoje, dizia o Presidente Marcos Villaça, o povo negro não estava como excentricidade, estava ali como convidado; estava ali para marcar o início das festividades do centenário de um sambista.

 Das paredes da sala vizinha a galeria de fotos dos acadêmicos já falecidos, dois ou três apenas, pareciam querer mostrar o quanto há ainda a caminhar.

Ainda antes do almoço, ainda na ante sala, entre acadêmicos e jornalistas convidados o Presidente puxava a prosa interessado nos preparativos da escola e em saber que outra agremiação poderia derrotar a Vila naquele carnaval tão especial.

Como a marcar a mudança dos tempos, e para orgulho de seu China, a porta bandeira da escola intrigava o surpreso anfitrião com uma resposta nunca por ele esperada, de tão confiante e altiva: "só nós mesmos poderemos nos derrotar, ninguém mais". E explicava ao acadêmico o grau de preparação das escolas, tornando a competição acirrada, tornando qualquer erro fatal.

E foi assim que, já no almoço, Martinho saldava os novos tempos ao ver sua porta-bandeira e seu mestre-sala almoçando naquele local com
a mais absoluta naturalidade.

E a tarde seguiu tão agradável que o presidente anfitrião adiantou-se em já marcar um novo encontro ao encerramento do ano do centenário, em 3 de dezembro, desta vez com todos os funcionários da Associação.

Nas homenagens finais coube ao Presidente Moisés o momento mais divertido quando procurava mostrar a importância e o orgulho da escola ao receber o convite da academia. Ao receber o telefonema de Martinho, o presidente entre surpreso e delirante perguntou: " … mas, Martinho… Noel Rosa… a Vila Isabel na Academia Brasileira de Letras ? Martinho… e eu… com que roupa eu vou???",

Lá fora, no pátio externo … já dá para imaginar:  Tinga, Átila, a bateria suingueira de Noel e as passistas mostravam o samba enredo deste carnaval, em frente e embaixo do busto de um Machado de Assis que parecia lamentar não viver aquele momento, naquele pátio tão cheio de gente que nunca vira aquilo tão animado assim.