Viradouro faz junção de sambas para o Carnaval de 2012

Usada muita vezes como uma maneira para que os dirigentes se eximam da responsabilidade de escolher um samba na decisão, a junção de duas, ou até três obras tornou-se comum nos últimos anos. Na Viradouro, na última madrugada, ela voltou a aparecer, mas a justificativa é bem diferente da citada nas primeiras linhas do texto. Com dois sambas praticamente no mesmo nível em letra e melodia, e a mesma resposta dos segmentos da escola para ambos, o presidente Gusttavo Clarão não teve outra escolha a não ser juntar as duas obras. E ninguém melhor do que ele, supercampeão de samba-enredo em diversas agremiações, para fazer a junção sem que se criasse um monstro. Assim que o resultado foi anunciado, às 04h30 deste domingo, já foi possível perceber a qualidade da escolha do dirigente-compositor. Os vencedores são os compositores Fábio Borges, Claudinho Mattos, Erik Borges, Enio Almeida, Vitor Adolfo, Daniel Louzada, Dudu Oliveira, Marcello Bertolo e Renan Gêmeo, P.C. Portugal, Rodrigo, Diego Nicolau, Fernando Johara, Felipe Filósofo e Diego Moura. O samba de 2012, que vai homenagear Nelson Rodrigues, ganha a assinatura de 15 compositores.
 
A Viradouro desfilará pela segunda vez consecutiva pelo Grupo de Acesso A, mas a impressão que se tem ao entrar na escola, continua sendo a mesma da que era sentida quando a Vermelho e Branco brilhava no Grupo Especial. A impressão foi confirmada pelo que se viu durante esta final de samba-enredo: desfile de personalidades do Carnaval, quadra lotada,  famosos e muito investimento das parcerias finalistas, além do excelente nível das duas obras vencedoras, deram a tônica da noite.

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Gusttavo Clarão explicou o motivo de ter optado por uma junção.
 
– Sou músico e tive facilidade para fazer essa junção de dois sambas maravilhosos que fora abraçados pela escola.Tive a sorte de ter os dois sambas no mesmo tom. Pegamos partes de um e de outro e saiu essa festa toda. Foi uma fusão feita com o sentimento, com o sentimento de quem ama a Viradouro. O samba-enredo é tudo para uma escola de samba e acredito que essa obra vai nos levar de volta ao Grupo Especial – revelou ele, que ainda não sabe em quanto está orçado o carnaval da Viradouro em 2012.

Membro da parceria do segundo samba da noite, obra que mais deu versos para a obra campeã – 16 no total – o experiente compositor PC Portugal, campeão de samba-enredo na Viradouro 11 vezes e presidente da ala dos compositores, garantiu não haver vaidade com a opção da diretoria da escola.
 
– Não tem porque ter esse sentimento. Nós fizemos um belo samba e tínhamos um grande adversário. O Gusttavo foi muito feliz. Quem sou eu para falar da opção dele, que é um grande compositor. O mais importante é o samba servir a Viradouro. Precisamos voltar ao Grupo Especial e esse samba é a cara da elite do carnaval – disse Portugal, que revelou os gastos totais de sua parceria ao longo da disputa: R$ 55 mil.
 
Dou outro lado da moeda, não menos satisfeito que o experiente compositor, estava Claudinho Mattos, um dos autores do quarto samba a subir no palco. Com apenas 17 anos, ele, que é sobrinho de Gusttavo Clarão, estava extasiado.
 
– Não sei nem como descrever isso. Não tenho palavras. É a primeira vez que disputo e já conseguimos vencer. Mesmo sendo uma junção, não afeta em nada a minha satisfação. Quando começou a disputa eu comentei com o meu irmão que a chance de uma junção entre os dois sambas era bem grande. Comecei a compor ao receber a influência do meu avô e do meu tio. Espero disputar muitas vezes ainda.
 
Outro que mostrava-se satisfeitíssimo com a decisão da diretoria viradourense era o carnavalesco Alexandre Louzada, que estreia na agremiação de Niterói. Antes do resultado final, ele avaliou o nível da disputa
 
– É uma final muito disputada.  O sambas estão dentro daquilo que eu pedi. Na verdade tenho o meu favorito, mas são obras belíssimas – afirmou Alexandre, que revelou também que a confecção das alegorias da Viradouro começarão nesta semana e que ele virá fantasiado de jogador de futebol do Fluminense no desfile de 2012.

A noite

Antes de começarem as apresentações o show da bateria Furacão Vermelho e Branco, comandada por mestre Pablo, uma performance de tirar o chapéu do próprio Pablo e o grupo que compõe a comissão de frente da Viradouro. Aproveitando o mês de outubro, época do Hallowen, ele, caracterizado, juntamente com a comissão, arriscou passos de dança em cima do palco e, em poucos segundos, foi comandar seus ritmistas, que mostraram mais uma vez a pegada forte e o peso da bateria da Viradouro. Logo depois, foi a vez da nova rainha de bateria Monique Alfradique surgir entre os ritmistas. Com um vestido vermelho que deixava  claro a sua boa forma, a atriz conversou com o site CARNAVALESCO.
 
– Sou de Niterói e sempre gostei muito da Viradouro. Não imaginava que um dia pudesse ocupar esse cargo, mas me chamaram e eu achei genial essa oportunidade. A recepção de todos tem sido excelente e eu quero ser uma rainha presente. Quero participar!

O primeiro a subir no palco tinha nomes de peso em sua assinatura. Entre Gilberto Gomes, Heraldo Faria, J. Lambretta, Vanderlei Sena, Gilberth, Rodrigo Ronanda e Floriano do Carangueijo, há um histórico de conquistas e composições de sambas históricos da escola de Niterói, mas parece que desta vez os poetas não acertaram a mão. Cantado pelo próprio Gilberto Gomes, o samba mostrou letra pobre poeticamente e melodia sem variações interessantes. O resultado foi uma apresentação arrastada, longe do nível que se espera de uma final da Unidos do Viradouro. Os segmentos da escola praticamente não reagiram à obra e a torcida, apesar de grande, cantou pouco. Destaque negativo também para o excesso de sinalizadores  acessos pela torcida da parceria. Em determinado momento, era difícil até de respirar dentro da quadra da escola, tamanha era a quantidade de fumaça.
 
Logo depois foi a vez da parceria que contava com alguns compositores que eram os atuais campeões na Viradouro. O samba de Renan Gêmeo, PC Portugal, Rodrigo, Diego Nicolau, Fernando Johara, Felipe Filósofo e Diego Moura mostrou o porquê foi considerado favorito desde o começo da disputa. O autores acertaram em cheio na melodia, valente e característica da Viradouro, e também na letra, muito bem construída e completamente dentro da proposta do enredo. A interpretação de Gilsinho valorizou ainda mais a obra, que poderia, sem sombra de dúvidas, ser a campeã da noite. A reação dos segmentos da escola foi bem forte e acabou impulsionada pelo canto da imensa torcida da parceria, de longe a que mais cantou na noite. A produção para a final também foi caprichada, já que durante a apresentação o compositor Felipe Filósofo fez o papel de Nelson Rodrigues no palco e todas as luzes da quadra foram apagadas, num verdadeiro clima de boate. Ao final, um tímido, mas sincero grito de campeão pôde ser ouvido.
 
O terceiro samba da noite foi o composto por André Quintanilha, Bira do Canto, Dejair, Mocotó (vencedor várias vezes na escola), Luiz de Oliveira, Dr. Yrapuã e Marcelo de Lima. Interpretado por Eraldo Caê, o samba mostrou melodia cansativa e letra mais bem escrita que a do primeiro samba da noite, mas ainda longe dos outros dois finalistas. A torcida participou ativamente da apresentação, cantando bastante, mas não foi suficiente para que a passagem da parceria pelo palco fosse marcada de maneira positiva. Com o passar dos 25 minutos de apresentação, a obra foi perdendo força e a apresentação terminou sem brilho.
 
Encerrando com chave de ouro a apresentação dos finalistas, o samba de Fábio Borges, Claudinho Mattos, Erik Borges, Ênio Almeida, Vitor Adolfo, Daniel Louzada, Dudu Oliveira e Marcelo Bertolo foi outro a mexer bastante com os componentes da Viradouro. A partir daí ficou clara a divisão de opiniões dentro da escola. Enquanto muitos se entusiasmaram mais com o segundo samba da noite, outros tantos não esconderam a preferência pelo último a pisar no palco. A obra conta com melodia bem trabalhada e a letra repleta de sacadas inteligentes. A produção da apresentação também foi pesada e até labaredas de fogo surgiram no palco. A exemplo do que aconteceu no segundo samba, as luzes da quadra também foram apagadas e chamou a atenção a participação efusiva da torcida, que cantou sem parar a obra. Destaque também para a bela interpretação de Niu Souza, um dos intérpretes da Viradouro, que dividiu microfone com Nino do Milênio, do Arranco, e com o ótimo Ciganerey, da Mangueira.
 
Cerca de 30 minutos após o termino da apresentação do último samba, Gusttavo Clarão subiu ao palco e divulgou a opção pela junção entre o segundo e o quarto samba da noite. Ao contrário do que costuma acontecer nesses casos, a quadra explodiu de alegria e o resultado acabou coroando duas obras que tinham plenas condições de representar a Viradouro no Carnaval 2012. A escola grava sua faixa no CD do Grupo de Acesso A no próximo domingo, dia 30 de outubro. Já a festa de protótipos da Viradouro acontece no próximo sábado, dia 29 de outubro.
 
Antes disso, um fato triste, uma pessoa se queimou com os fogos soltados por uma das parcerias. Fica a lição, não é necessário tantos fogos artifícios numa final de samba-enredo.

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